terça-feira, 22 de agosto de 2017

Enigma


Banhado pelos últimos raios de sol do domingo, o trem seguia seu tradicional trajeto. Lentamente, cortava as plantações que margeiam a linha férrea a noroeste do gigantesco Condado. Trigo e milho se alternavam na paisagem. Em alguns trechos, eram salpicados por escassas pastagens, porém logo em seguida voltavam a dominar o ambiente em ambos os lados dos trilhos. Belas nuances de verde, mas que aos poucos iam se tornando monótonas aos olhos da médica recém-formada. Um percurso interminável, tedioso. Ela preferia movimento, agitação.
Aléssia rumava para seu novo lar, uma antiga casa num lugar remoto, há pouco mais de um quilômetro da penúltima estação. Ainda havia muitas estações a percorrer e ela estava tensa e incerta sobre a escolha que fizera. Era uma grande mudança nos rumos de sua vida. E o lugar... Bem, não se parecia nada com ela. Todavia, fora a melhor proposta de trabalho que havia recebido.
O trajeto era longo; o trem, lento e rangedor. Parecia um velho rabugento fazendo, a contragosto, uma longa caminhada prescrita por seu geriatra. Mas, seu ranger era ritmado, constante, e aos poucos começou a entorpecer a solitária jovem. Ela estava entretida com seus planos para o futuro e queria refletir um pouco mais sobre o trabalho que aceitara no hospital local, mas o sono começava a tomar conta de seu corpo. Esforçou-se para continuar desperta. Teria feito uma boa escolha? - perguntou-se. Talvez sim, talvez não. De qualquer forma, pretendia retornar em poucos meses para sua cidade natal, mais populosa e feliz do que aquela cidadezinha rural, ou quem sabe até realizar o sonho de encontrar um bom emprego na reluzente e cosmopolita Capital.
Poucos minutos depois, seus pensamentos foram finalmente vencidos pelo cansaço. A mente foi derrotada pelo corpo. Pesadas, suas pálpebras caíram sobre os olhos verdes amendoados e sonhadores. Antes que a noite chegasse, Aléssia já havia adormecido.
No vagão, não havia mais do que nove ou dez pessoas. Um casal com duas crianças, uma delas de colo. Os demais, todos idosos. Eles traziam em comum uma aparência apática e desolada que Aléssia percebera, mas julgara compreensível para habitantes de uma região tão remota e esquecida do País. Concentrada em seus pensamentos, entretanto, não notara que nenhum deles pronunciara uma palavra sequer durante a viagem. Pareciam mudos, embora o trajeto já durasse horas.
Algum tempo após a chegada do breu da noite, um grito gutural rasgou o silêncio. Vinha do trem, mas não daquele vagão.
A médica acordou num sobressalto. Sentiu o coração bater quase na garganta. Moveu os olhos ao redor e observou o ambiente. Dentro do vagão, todos permaneciam silentes. Os idosos estavam em sua habitual serenidade apática. Algo mudara, contudo, no casal e em seu filho mais velho. Eles continuavam calados, porém seus olhos estavam esbugalhados, numa espécie de alerta mudo. Não transmitiam medo (na verdade, não transmitiam sentimento algum), mas aparentavam estar sob o efeito de hipnose. O nenê, no colo da esposa, parecia dormir. Pelo menos ele parecia bem.
Do lado de fora, o negro da noite engolira o verde das pastagens e plantações. Não havia iluminação alguma naquele trecho. Era um pouco aterrorizante. Aléssia preferia rever os entediantes milharais. Vencendo o receio, levantou-se de seu lugar e percorreu lentamente o vagão, ora olhando para os passageiros, pensando em lhes oferecer ajuda, ora buscando divisar algum movimento às margens do caminho que seguiam. Ao chegar próxima ao final do vagão, notou que um casal de idosos a observava. Pareciam ser os únicos a notar sua presença.
– Tudo bem com vocês? Ouviram um grito estranho?
Eles se entreolharam e abaixaram as cabeças. Nada disseram.
– Estão com medo?
O silêncio permaneceu, mas a pequena senhora ergueu os olhos em sua direção. Sem dúvida, queria dizer algo, entretanto sequer moveu os lábios.
– Eu vou até o vagão ao lado. Acho que o barulho veio de lá. Fiquem aqui, okay? Vou investigar e já volto.
Desta vez foi o velho quem ergueu os olhos, porém não expressou emoção alguma. Mas, havia tensão no ambiente, ela agora podia sentir. E isso ficava mais claro a cada instante. Um pavor profundo emanava de cada um deles, embora não demonstrassem. Profundo, mas estranhamente resignado, como se o que temessem fosse inevitável.
Aléssia sentiu que o medo começava a dominá-la, mas era curiosa e determinada. Investigaria. Investigaria e haveria de saber o que estava acontecendo. Seguiu para o vagão da frente e logo percebeu que estava completamente vazio. O único sinal de vida vinha do piscar de uma lâmpada em agonia.
            Onde estarão os outros passageiros? – perguntou-se e saiu em disparada pelo trem, escancarando aos tropeções as portas seguintes apenas para encontrar mais vagões vazios. À direita do veículo, vislumbrou ao longe uma espectral luz alaranjada, sem forma definida, bruxuleando por entre o breu das matas. Nesse momento, o vento começou a assoviar uma melodia repugnante. Aléssia agora tremia dos pés a cabeça e girava nos calcanhares de um lado para outro, como se pressentisse que um oponente inumano pudesse aparecer a qualquer instante. Sua mente estava entrando em pânico e ela começou a fantasiar acontecimentos macabros. A sensação era de perigo iminente.
            Tomou coragem e seguiu para abrir a última porta. Haveria alguém guiando aquele trem? E que tipo de criatura seria? Girou a maçaneta e... Sim, havia alguém!
            Um homem de meia idade, gordo e de postura desleixada era o maquinista. Quando olhou em sua direção, ela se viu diante de um semblante lívido, um rosto de cera, de artificial tranquilidade:
            – Fique tranquila, garota. Em breve você chegará. Não haverá mais preocupações. Sua vida será um mar de rosas.
            Irritada, ela retorquiu:
            – Onde estão os outros passageiros? Por que as pessoas no meu vagão estão tão estranhas? O que está acontecendo aqui?
            Ele riu um sorriso imperfeito. As arcadas dentárias se tocavam, gerando um estranho sibilar. O homem parecia um ser inacabado.
            – São muitas perguntas bobas. Fique tranquila como os outros e ficará tão bem quanto eles.
            – Você acha que eles estão bem? Os coitados estão em estado catatônico. Parecem zumbis!
            O maquinista fechou o semblante por um instante, mas em seguida abriu um sorriso teatral e começou a cantar uma melodia dissonante. As palavras eram pronunciadas num idioma desconhecido e exerciam um efeito hipnótico. Confusa e amedrontada, Aléssia teve uma repentina tontura, mas esforçou-se para se manter em pé e retornar ao seu vagão. Quando chegou lá, sentiu-se um pouco melhor.
            Nada havia mudado por ali. Os idosos permaneciam demasiado apáticos e o casal com filhos continuava com os olhos muito salientes, mas inexpressivos. Aléssia imaginou que eles também deviam ser novos naquelas paragens, ou apenas visitantes. Afinal, a cidade era conhecida por ser um refúgio de aposentados.
            Aproximou-se deles. Como médica, pretendia ajudar a todos de alguma forma. Tinha esperança de conseguir se comunicar ao menos com o casal. Passou a mão na frente da face de cada um deles, tentando gerar alguma reação. Nenhuma resposta. Olhou para o lado de fora do trem, à esquerda e à direita. Este trecho era iluminado, embora debilmente, e sua estação se aproximava. Nada mais lhe restava fazer a não ser retornar para seu lugar e aguardar por sua vez de descer. Aliás, tinha que confessar que ansiava por sair daquele trem.
            Desceu sozinha. Os demais, ao que parecia, desceriam na última estação. Ou jamais desceriam.
            A noite estava fria, o que a forçou a andar ainda mais depressa. Temia encontrar seres esquisitos à espreita, criaturas que talvez tentassem fazê-la ingressar naquele estranho torpor, ou então lhe causar algum outro mal. Felizmente, nada aconteceu. Chegou a seu novo lar com a mente e o corpo exaustos, todavia ambos pareciam funcionar perfeitamente. Havia outras casas na rua, algumas delas com as luzes ainda acesas, o que por certo era motivo de alívio.
Agora devia dormir, pois iniciaria o trabalho no hospital no dia seguinte. Clinicava por vocação, amava a profissão, e haveria de começar a todo vapor. Queria estar bem em seu primeiro dia.
            Trabalhou normalmente durante as primeiras horas e esperava contar para alguém à tarde o que vivenciara no trem, mas logo após o almoço foi acometida por uma estranha apatia. Procurou um quarto vazio e deitou-se.
            – Dra. Aléssia? Dra. Aléssia?
Ela tentou responder, mas não conseguiu.
– Dra. Aléssia, você está muito pálida. Diga alguma coisa.
A jovem médica esforçou-se para falar, mas sua língua parecia anestesiada. Desesperou-se, tentou se debater, porém não conseguiu mover um centímetro de seu corpo. Tentou chorar, mas nenhuma lágrima surgiu. Suas pálpebras, rígidas, não esboçavam qualquer movimento. A sensação era de estar lutando contra uma energia invisível, um mal além de sua compreensão e indiferente aos esforços que fazia para retomar o controle de seu corpo. Queria gritar, sacudir-se, ter qualquer reação que pudesse indicar que algo estava muito errado, entretanto não podia.
– Deve ser apenas cansaço, enfermeira. A garota abandonou tudo para vir clinicar neste fim de mundo. Isso deve estar sendo muito estressante para uma jovem inexperiente como ela. É compreensível. Amanhã, se ela continuar assim, faremos exames complementares.
Amanhã?... A enfermeira vacilou por um momento, mas pareceu convencer-se em seguida:
– É verdade, Doutor. Ela não tem febre. Batimentos cardíacos e pressão arterial estão normais. O hemograma e o leucograma também estão okay.
O médico chefe, Dr. Daniel, anuiu com a cabeça.
Médico e enfermeira deixaram o quarto, enquanto a jovem médica permanecia na maca, com uma expressão vaga e distante no rosto. Antes de fechar a porta, a enfermeira olhou novamente para Aléssia e, com uma pitada de preocupação, franziu o cenho.
Aqueles olhos esbugalhados... Não, não parecia certo. Aquilo era muito estranho.
A mulher de branco girou o pescoço e procurou pelo médico. Iria pedir para que voltasse, mas, tomada por pelo espanto, recuou um passo e encostou-se ao batente. Seu rosto empalideceu.
Nesse meio tempo, usando todas as energias que conseguiu encontrar em si mesma, Aléssia obtinha uma parcial vitória sobre a inércia que tentava consumi-la. Entre o entorpecimento e a lucidez, conseguiu sentar-se na maca. Atônita, observou o cenário à sua frente.
Dr. Daniel estava petrificado no corredor, a meio caminho de sua sala. Um quadro sinistro.

Uma estátua viva.

(Ricardo Guilherme dos Santos)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Amadurecendo


Há criaturas mitológicas que se comprazem em conquistar o coração de seres humanos e depois os abandonam, sem demonstrar quaisquer escrúpulos. Alguns seres fantásticos chegam ao cúmulo de impor sofrimentos físicos aos pobres apaixonados, verdadeiras vítimas de seus instintos vorazes e primitivos. Por vezes até os matam, ou lhes causam mutilações.
Bem, todos nós sabemos que aqueles que chegam a este ponto são verdadeiros criminosos. Felizmente, não sou como eles. Mas – preciso confessar –, também tenho meus pecados: agi de forma inconsequente durante muito, muito tempo. Entretanto, com o passar dos anos, a consciência pode nos dar um alerta, ainda que tardio.
Foi o que aconteceu comigo.
Nós, os botos, sempre fomos hábeis conquistadores. Amantes perfeitos. E nos orgulhamos muito das nossas façanhas sexuais. Além disso, somos especialistas na arte de esquecer antigos amores. Isso nos deixa seguros, cheios de si. Nós nunca sofremos por amor.
Bem, pelo menos foi assim durante um bom tempo.
Um dia a coisa muda, disse-me certa vez o Saci. Quem machuca os outros um dia pode sair machucado – emendou o simpático traquinas. Eu não lhe dei ouvidos na época. Afinal, os seres humanos sempre foram muito vulneráveis aos encantos das criaturas oriundas do reino da fantasia. Um boto jamais imaginaria algum dia apaixonar-se por uma mulher, muito menos vir a sofrer posteriormente em consequência de suas atitudes imponderadas.
As fêmeas humanas é que se apaixonam pelos fantásticos. Nós seguimos adiante, buscando novas diversões – foi o que me afirmou certa vez, todo pomposo, o Rei dos Botos, quando eu ainda era muito jovem. É assim que funciona desde o início dos tempos e assim sempre será – ele completou, julgando vaticinar. Porém, sua filosofia machista não resistiu aos novos tempos.
Aconteceu há cerca de doze anos. Era noite de São João, uma noite estrelada, de lua cheia, muito, muito bela. O clima e o cenário celeste transpiravam alegria, paixão e romantismo. Às margens do Rio Negro, uma alegre festança começava. A música alta alertou meus sentidos, despertando minha atenção. Como todos os botos da região, eu sabia muito bem que aquelas festas juninas eram repletas de jovens belas e – o que mais me interessava, em minha malícia de caçador – inocentes. E lá fui eu – todo animado! Estava pronto para uma nova conquista, ansioso por outra aventura sexual.
Cheguei de mansinho, trajando um impecável terno branco. A camisa e os sapatos – também muito alvos –, bem como os cabelos negros penteados com esmero completavam meu caprichado visual. Ah, e eu estava usando meu velho chapéu, porque os botos jamais se transformam por completo em homens: há sempre uma pequena saliência no crânio, que precisamos ocultar para não chamar a atenção dos mais desconfiados.
Como de costume, caminhei entre as barracas, distribuindo educados cumprimentos a todos. Apreciava o movimento com ares recatados, porém atento às melhores oportunidades de galanteio. E... Não demorou muito para notá-la – a mulher que deu causa à minha transformação! Meus olhos logo ficaram enfeitiçados por aquela garota de corpo esguio, pele clara, cabelos (à altura dos ombros) e olhos castanhos. Tinha uma aparência angelical, típica das mulheres jovens e inexperientes. No instante em que a vi, senti meu sangue quente começar a fluir com mais intensidade em minhas veias.
Respirei profundamente, repassando em minha mente libidinosa todas as etapas da sedução que eu planejava. Aproximei-me com elegância, oferecendo-lhe, com um sorriso tímido e fingida ingenuidade, um saco de pipocas e um copo de guaraná. A oferenda era propositadamente simples: tinha o objetivo de ludibriar a garota com uma candura inexistente e ocultar-lhe minhas verdadeiras e lascivas intenções. Pretendia indicar-lhe tão somente um mero flerte, ou apenas a busca de uma conversa descontraída e despretensiosa. O intuito era fazer com que meu charme de boto cuidasse aos poucos – como sempre fazia – do restante de meu infalível ritual de conquista. Desta forma, a vitória se me afigurava mais prazerosa, pois este procedimento me concedia tempo suficiente para curtir a queda gradual de cada uma das frágeis defesas que uma fêmea humana pode oferecer a um fantástico. Eu me excitava muito ao agir assim: a sensação de poder e o êxtase de me sentir irresistível embriagavam meu ego.
Ao notar minha chegada, ela olhou diretamente em meus olhos e sorriu. Um sorriso ingênuo e encantador, que causou um efeito devastador em meus hormônios, acelerando a demonstração de minhas verdadeiras intenções. Retribuí o sorriso da bela jovem, provavelmente já com indisfarçável malícia em meu olhar.
Ao lado dela, logo comecei a experimentar uma sensação inédita para mim. Era uma espécie de tensão, que interpretei, naquele momento, como fruto de uma indisposição física passageira. Mal sabia o quanto estava equivocado...
O que deveria ter sido trivial tornou-se um bocado complicado: foi preciso muito esforço para que eu me concentrasse em minha tarefa. Na ocasião, não consegui identificar o amor instalando-se em meu peito, certamente porque não estava familiarizado com este sentimento (quanta vida desperdiçada com sentimentos e sensações fugazes!). Minha vivência resumia-se ao mundo do prazer, da lascívia; no plano emocional, eu ainda tinha uma longa estrada a percorrer. Entretanto, como todo bom e experiente galanteador, eu soube conversar sem jamais desviar os olhos dela. Era assim que eu cativava minhas presas: meus olhos hipnotizavam. Com Luísa – sim, ainda me recordo de seu nome! – acabou acontecendo da mesma forma. Em alguns minutos, já trocávamos carinhos.
Um conjunto regional tocava canções animadas para embalar a festança que acontecia. Com todos os sentidos maximizados, notei que alguns casais bailavam ao som daquelas músicas, numa coreografia muito sensual. Inebriado pela atmosfera que nos envolvia, convidei-a para dançar. Durante a música, nossos corpos se tocaram de forma mais ardente. Entretanto, foi no momento em que nossas bocas se encontraram que eu tive a certeza de que ela era especial.
Por toda a madrugada, nos amamos de uma forma intensa, apaixonada, arrebatadora. Foi a primeira vez que senti meu coração disparar. Lembro-me como se fosse hoje do quanto aquela reação fisiológica me assustou.
Quando o dia amanheceu, uma imposição da Natureza: eu precisava voltar para o rio e reassumir minha forma física habitual. Foi o que fiz, embora um tanto hesitante, enquanto ela dormia. Se quisesse, eu poderia pedir a Tupã que a levasse comigo para o Rio Negro, transformando-a numa Iara. Claro, desde que houvesse o consentimento de Luísa. Mas minha natureza de boto falou mais alto. Disse a mim mesmo: Com tantas mulheres por aí, todas vulneráveis às minhas artimanhas, porque me acorrentar a uma delas?
Decidi esquecê-la, pois acreditava que o ato de esquecer dependia de uma mera resolução. Ledo engano...
Luísa, por outro lado, nem sequer tentou me esquecer. Fiquei sabendo que, por anos, ela alimentou a esperança de que algum dia eu voltasse para desposá-la. Movido por minha equivocada compreensão do que é ser um macho de verdade, eu não fiz isso. Pelo contrário: fui para outras bandas do rio e conheci mulheres de outras paragens. Tive novos prazeres e por algum tempo quase não senti a falta dela. Quase.
Com o passar dos anos, o prazer que eu encontrava nas outras moças, embora me satisfizesse sexualmente, não mais era suficiente para que eu me sentisse feliz. Passei a sentir um vazio inédito, impiedoso. A lembrança de Luísa tornava-se cada vez mais forte. Em toda minha existência, ela havia sido a única mulher que aquecera meu insensível coração de boto.
Descobri, finalmente, que a amava.
Meses atrás, um amigo contou-me ter visto Luísa trazendo a seu lado um rapazola de nariz alongado, que usava um insólito chapéu azul de feltro. Um menino de aproximadamente onze anos de idade, ele me disse. Quando recebi a notícia, não tive dúvidas: o garoto era meu filho! Os filhos de boto dificilmente vingam, pois a mistura de DNA humano e fantástico é muito instável. Mas até nisto Luísa era diferente das outras mulheres. Ela dera à luz um meio boto, um ser metade humano, metade fantástico – uma criatura rara!
Minha ansiedade fez com que eu voltasse, dias depois, àquela margem do rio, da qual me afastara há tantos anos. E não foi difícil rever minha amada.
Luísa já não era uma jovem franzina; tornara-se uma linda mulher, de corpo escultural e andar confiante. Escondido atrás de uma frondosa árvore, a vi caminhar ao lado do menino boto – provavelmente minha única cria! Pela segunda vez em minha longa vida, meu coração disparou. Pensei em chamar seu nome, mas notei que havia outra jovem ao seu lado. Estavam de mãos dadas e sorridentes. Minha voz ficou presa na garganta.
Não compreendi muito bem aquela imagem. Ela teria uma irmã? Ou seria uma grande amiga? Seja lá o que significasse tal cena, o fato é que as duas pareciam trocar confidências e compartilhar de uma grande estima, sentimento que hoje eu valorizo muito.
Intrigado com a ausência de minha habitual autoconfiança, eu tentei me aproximar, mas minhas pernas vacilaram. Talvez – pensei, entorpecido por minha soberba de boto – eu estivesse apenas um tanto enferrujado, pois não utilizava meu corpo humano há mais de uma semana. No entanto, o suor frio que escorria em minhas mãos denunciava que eu estava nervoso. Uma nova e desagradável sensação que descobria em minha faceta humana: a insegurança.
Um boto inseguro diante de uma mulher? Inadmissível! – Era assim que eu pensava. Mas tenho mudado meus conceitos.
Não tive coragem de me aproximar de Luísa naquele dia. Pensei em não mais procurá-la, talvez porque tenha extemporaneamente compreendido que nenhum homem ou boto pode se julgar dono de uma mulher. Ainda mais depois de vários anos passados. E de tê-la feito sofrer tanto à minha espera....
A verdade é que eu fora um crápula, não menos que isso. Com esta postura, causei sofrimento à única criatura que amei em minha vida. Agora sinto vergonha, vergonha e saudade. Vergonha de quem fui; saudade de minha doce Luísa. E remorso por ter sido tão insensível, frio e imaturo.
Faltou-me o que jamais pode faltar a qualquer criatura: caráter.
[Uma lágrima].
******
Mais algumas semanas se passaram e eu não resisti à tentação de vê-la novamente. A ela e a meu único filho.
Regressei às margens do Rio Negro, nas proximidades da casa de Luísa. Escondi-me atrás da mesma árvore e aguardei pacientemente. Demorou algumas horas até que ela surgisse mais uma vez, mas a espera valeu: linda – mas linda do que nunca – lá estava ela! Trajava um curtíssimo vestido vermelho e esbanjava graça e sensualidade. Mas o que mais chamara a atenção de meus aguçados sentidos de boto fora a felicidade que se irradiava de cada poro de seu corpo. Sim, era isso que a estava deixando ainda mais bela – a felicidade!
Naquele momento, não pude evitar uma reflexão que abalou minha autoestima: estava diante de uma mulher que se mostrava no auge de sua beleza e que estava mais feliz do que estivera, anos atrás, na companhia de um boto. Para mim, em minha suprema vaidade, aquilo parecia incompreensível.
Desta vez, Luísa não trazia consigo nosso filho. Apenas passeava – novamente, de mãos dadas – com aquela sua amiga misteriosa. Perplexo, passei a observá-las melhor: o carinho, a cumplicidade, a troca de olhares...
Quando chegaram bem próximas à árvore onde eu me escondia, meu coração atingiu um ritmo frenético. Algo surreal para meus olhos conservadores começou a acontecer: entre sorrisos e suspiros, Luísa abraçou a outra jovem – uma descendente de índia, quase tão bela quanto minha amada – e a beijou de forma doce e delicada, fazendo a outra garota estremecer.
O beijo foi retribuído. Uma, duas vezes. Os abraços e as carícias iam, pouco a pouco, tornando-se mais voluptuosos. E tudo isso sem a pressa, tão comum nos botos e nos homens, de chegar ao êxtase. Elas desfrutavam de um prazer terno e tranquilo, porém de uma intensidade que impressionava.
Confesso: não senti apenas meu orgulho de macho ferido. Senti inveja também, inveja por não me considerar capaz de atingir tão alto nível de sensualidade.
Em seguida, gemidos de prazer assustaram meus ouvidos, desafiando minhas sinapses cerebrais e minha deturpada compreensão do que é devassidão. Fiquei estupefato, dividido entre a indignação e o desejo. Eu não estava preparado para aquilo.
Sinal dos tempos – é o que diria uma Bruxa que mora nos confins do Rio Urubuí. Os humanos estão se desvirtuando, ela afirmaria, arregalando seus grandes e tenebrosos olhos negros. Bem, é o que ela acha, porém bruxas são preconceituosas, coisa que eu não quero ser. Pelo menos, não mais do que já fui.
Por fim, Luísa e sua companheira ficaram unidas num longo abraço, tão afetuoso quanto eu jamais vira (a bem da verdade, tão afetuoso quanto eu jamais fora capaz de dar). Depois, trocaram juras de amor. Não havia como ter dúvidas: eram juras sinceras. E o que me pareceu contraditório à época: era uma cena muito, muito bonita!
Em meio ao clima de romance, pude ouvir Luísa dizer claramente:
– Você preencheu um vazio imenso que passou a existir em mim desde que o boto se foi. Pensei que nunca mais encontraria alguém que me proporcionasse tanto prazer quanto ele, mas você faz mais do que isso. Você é mais doce, mais carinhosa. Você me dá amor.
Atônito, escutei em seguida a jovem índia comentar, de forma emocionada:
Lu, graças a você tenho me sentido muito feliz nos últimos cinco anos. Eu a amo muito. Você e seu pequeno boto são as criaturas mais importantes que apareceram em minha vida!
Sim; depois de alguns anos de sofrimento, Luísa havia decidido não esperar mais por mim. O mais insólito, todavia, para minhas preconceituosas premissas, é que ela encontrara sua outra metade na pele de uma criatura do mesmo sexo.
Como explicar aquilo? Como aceitar, se eu mal conseguia concatenar meus pensamentos naquele momento? Foi então que recordei as sábias palavras de uma Sibila que conheci há algumas décadas, nas proximidades do encontro das águas do Rio Negro com o Solimões:
Quando você se sentir confuso diante de algo, é porque está apenas começando a compreendê-lo. Os conflitos proporcionam o início dos aprendizados.
Não me lembro de qual teria sido a razão que a levou a me dizer estas palavras, mas a frase ficou guardada em minha memória. E agora parecia fazer certo sentido.
Naquele dia, diante da bela cena que presenciei, posso dizer que comecei a entender o real significado do Amor. Vislumbrei – apenas vislumbrei – o quanto ele é mais sublime do que o mero prazer. E, sobretudo, o quanto ele é universal, livre de fórmulas e isento de preconceitos.
Agora, contando-lhes esta história, penso mais uma vez na dor que fiz Luísa sentir por tantos anos. Impossível evitar uma conclusão avassaladora: o fato de ela estar feliz agora aliviava minha consciência, mas não tinha o poder de apagar o mal que eu lhe fizera.
E quanto às outras garotas que eu iludira? Como estariam agora? Seriam felizes?
Minhas culpas; meus pecados. Eles voltaram a me assombrar. E de forma muito mais assustadora do que os velhos fantasmas que à noite espreitam as margens dos rios amazônicos, gemendo e assoviando, numa sinfonia que me soava acusatória. Culpado! – pareciam gritar para mim os quatro ventos do Norte. De fato, é como tenho me sentido há um bom tempo – culpado.
Mais uma lágrima escorreu em meu rosto. Acostumado a ser frio e calculista, eu não sabia que os botos podiam chorar. Mas nós podemos sim, claro que podemos. Nem poderia ser diferente. Botos podem chorar; homens também.
Não há vergonha nenhuma nisso.
Creio estar começando a entender que a verdadeira masculinidade só é alcançada quando o macho se aproxima, em suas emoções, do feminino. É a partir daí que ele passa a ter uma visão mais abrangente de tudo, que adquire sabedoria e bondade para compartilhar com sua fêmea. Infelizmente, é também a partir deste momento que ele começa a identificar os erros cometidos no passado.
E a sofrer com eles...
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Ontem, pedi a Tupã para não ser mais um boto. Roguei para que Ele me transformasse em um homem, comum como outro qualquer. Não posso consertar a maioria dos erros do passado, mas posso [e devo] evitar cometer as mesmas falhas de agora em diante. Penso – espero estar certo – que esta será uma tarefa menos difícil se eu estiver na pele de uma criatura reflexiva por natureza: o ser humano.
O tempo dirá se estou certo. De uma coisa, porém, não tenho dúvidas: adquiri aversão pelo antigo hábito de iludir as mulheres, bem como de me deleitar em propalar minhas façanhas sexuais. Conheci a dor de sofrer por amor e ela fez com que eu amadurecesse um pouco.
Sem atitudes levianas de agora em diante – é a promessa que me faço.
Com este princípio de amadurecimento, penso estar consolidando em minha mente a importância de se respeitar as outras criaturas. Suas opiniões, seus desejos, necessidades e sentimentos às vezes podem ser muito diferentes dos nossos, mas isso não os faz menos dignos ou importantes. Agora vislumbro que o mundo e seus habitantes são enriquecidos pela diversidade. E não apenas no aspecto sexual, mas em tudo – absolutamente tudo – na vida. Talvez, devamos encarar as diferenças com naturalidade, e não com desconfiança. Mais do que isso: passar a vê-las como uma oportunidade de aprendizado.
Aliás, estive pensando esta manhã: se aquela jovem de descendência indígena é capaz de fazer feliz uma criatura tão adorável quanto Luísa, eu só posso concluir que ela também é uma pessoa especial. Isto não é nenhuma espécie de sentimentalismo; é uma conclusão lógica, racional.
Nada melhor do que me tornar um ser humano para vivenciar e refletir melhor sobre tudo isso. Os sentimentos humanos – ao menos os quais que tenho experimentado – são muito intensos (e, por vezes, doloridos), mas nos ajudam a aprender coisas novas. Acho que a mudança será boa para mim, pois sou bom observador e estou começando a sentir necessidade em compreender melhor o mundo ao meu redor, bem como as outras criaturas que o habitam.
Espero pela metamorfose. A ansiedade é grande.
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Tupã, sempre bondoso, atendeu meu pedido. Hoje, sou um homem comum, tão vulnerável às vicissitudes humanas quanto qualquer um de vocês. E vivencio uma inquietante sensação de insegurança, mesclada com curiosidade (e acho que com certa dose de euforia também). Na verdade, tudo parece mais complexo agora, ainda mais complexo do que estava sendo nos dias que antecederam minha transformação. Espero aprender a lidar com todas estas dádivas, para que elas não venham a se transformar em maldições. Noto claramente que este perigo existe, mas pretendo enfrentá-lo com a dignidade que me faltou em outras ocasiões.
Como humano, minha primeira atitude será lhes dar um conselho. Sei que não me solicitaram isso, mas sinto verdadeira necessidade de fazer um alerta. Perdoem-me se soar como um mero desabafo, ou se lhes parecer fruto de soberba da minha parte, mas preciso fazer este pronunciamento: Cuidado! Não brinquem com os sentimentos alheios. Vejam o que aconteceu comigo, um boto imaturo e preconceituoso, que acreditava ter um coração de pedra. Pode muito bem acontecer com vocês também. A pessoa que você conquistou e julgou ser sua propriedade pode se apaixonar novamente. E seu novo amor pode cuidar dela melhor do que você. Lembrem-se: um dia é da caça; o outro, do caçador. Ou, melhor dizendo: num dia você fere, no outro será ferido.
Deixarei minha bela Luísa seguir seu caminho em paz, ao lado de sua companheira. Como costumam dizer os humanos, tive minha oportunidade com ela e a desperdicei. Cumpre a mim, agora, apenas torcer para que ela seja sempre muito feliz. Estou certo de que esta é a maneira mais nobre que tenho atualmente para expressar meu amor por ela.
O danado do Saci estava certo quando disse que um dia as coisas mudariam. A Sibila também, ao me falar sobre o verdadeiro aprendizado (ele começa agora!). E ela me disse também que essa história – a do macho que engravida a fêmea e depois a deixa só – é muito comum entre os humanos. Um erro que espero nunca mais voltar a cometer.
O Rei dos Botos? A Bruxa? Voltei a falar com eles e... Bem, ficou muito claro para mim que jamais terão humildade suficiente para rever ou – ao menos – questionar seus pontos de vista. É uma pena, mas algumas criaturas não amadurecem nunca. Estão engessadas em seus “pré-conceitos”.
Uma constatação final: restou-me a tristeza de nunca ter conversado com meu filho, de nem sequer saber o seu nome. Ainda posso tentar fazê-lo, mas... Será que tenho o direito? Já não lhes terei feito – a Luísa e a meu garoto – mal suficiente? Sob quais alegações eu poderia reaparecer agora? Olá, fiquei me divertindo durante doze anos, mas agora resolvi reaparecer? E quanto ao impacto que meu retorno poderia causar no coração de Luísa? Não, não posso correr o risco de, mesmo de forma não intencional, interferir no amor que existe entre os três. Eles constituíram uma família, um tipo de família que, há algum tempo, eu consideraria uma aberração, mas que hoje vejo com naturalidade, uma naturalidade que deveria ser compartilhada por todos.
Quem sabe, eu venha a espiar o menino boto mais algumas vezes, às escondidas, apenas para me certificar de que ele está bem. Se algum dia precisarem de mim – quaisquer dos três, ou todos eles – eu estarei por perto, como uma espécie de anjo da guarda.
Ou apenas como um pai ausente, que finalmente amadureceu.



(Ricardo Guilherme dos Santos)