quinta-feira, 21 de abril de 2016

Conto: O Chirriado Soturno da Guardiã


“Os monstros existem. Os fantasmas também. Eles vivem dentro de nós e... Às vezes eles ganham.” (Stephen King)

            Não tenho uma boa noite de sono há quase duas semanas. O pouco que durmo serve apenas para me trazer pesadelos com criaturas agressivas e de um apetite carnívoro insaciável. Seu cardápio é variado, mas elas parecem ter predileção por seres humanos. Em meus sonhos, vejo-as rasgando vorazmente as entranhas de várias pessoas. Elas as comem vivas! Um espetáculo aterrador, que tem me levado aos extremos do medo.

O que mais me intriga é o fato de os pesadelos, ao se repetirem, afigurarem-se cada vez mais repletos de detalhes, como se estivessem aperfeiçoando-se, tentando simular a realidade e, de alguma forma, aproximando-se dela. Hoje, ao me levantar, por alguns instantes fiquei em dúvida se a realidade era de fato a tranquilidade do condomínio onde moro, ou se bastaria abrir a porta do quarto para mergulhar novamente naquela floresta úmida e penumbrosa, cenário dos meus sofrimentos oníricos. Meu garoto, se ainda estivesse morando comigo, resumiria isto com uma única palavra: sinistro.

Almocei no início desta tarde com minha ex-esposa (para tratar de outros assuntos desagradáveis) e ela sugeriu que eu marcasse uma consulta com um neurologista. Dou a mão à palmatória – foi uma boa sugestão. O problema é que só consegui agendar um horário para a próxima semana. Enquanto isso, terei que continuar lidando com meus pesadelos diários.

O relógio do decodificador da TV a cabo sentencia: já passam das vinte e três horas. Preciso ir para a cama, tentar dormir um pouco. Amanhã tenho uma reunião importante no trabalho. Precisarei de toda minha lucidez.

******

            Lá está ela – a enorme coruja branca. Esqueci de lhes falar sobre ela. É o único ser neste cenário perturbador que não me dá calafrios. A não ser, é claro, por seu chirriar: longo, sofrido e melódico, como se estivesse cantando uma música triste. Ela parece uma espécie de guardiã deste lugar. Está sempre próxima a um portão enferrujado e semidestruído, no início do caminho lodoso e escorregadio que antecede a floresta, palco dos acontecimentos que têm assombrado minhas noites. Meus pesadelos começam sempre neste portão.

            E não foi diferente desta vez.

Penso em tentar retornar, mas a coruja imediatamente olha em minha direção e balança a cabeça em sinal negativo. Eu quase posso jurar que ela apresenta uma expressão de tristeza em sua face, como a me avisar sobre a impossibilidade do regresso. De fato, estou dominado pela mesma sensação das noites anteriores – um impulso mecânico de seguir adiante, radicalmente oposto ao meu desejo de fugir dali o quanto antes. Dominado pela energia que reina ao meu redor, cedo à imposição invisível e sigo em frente.

Como sempre, bastam alguns passos para que eu comece a escutar as provas sonoras da carnificina: as vozes guturais das criaturas, o barulho causado pela correria entre o capinzal lamacento e, o pior de tudo: os gritos apavorados das pessoas que são apanhadas para lhes servirem de ceia. Aqueles assassinos parecem ter prazer em caçar. Matam como se estivessem praticando alguma odiosa modalidade esportiva.

            O máximo que consigo fazer para me proteger é me abrigar atrás da árvore mais próxima ao velho portão, felizmente frondosa o suficiente para me ocultar daqueles seres, cujos olhos amarelos brilhantes parecem não ter dificuldade alguma para localizar suas presas em meio à penumbra do lugar.

            Quem seriam aquelas pessoas? Também estariam sonhando como eu? Será que foram compelidas por algum tipo de sugestão hipnótica para se aventurarem ao centro daquele matadouro? O mesmo poderá acontecer comigo, em meus próximos pesadelos? Sim, pode ser isto... Talvez estejamos sendo paulatinamente compelidos, por algum tipo de indução psíquica, a nos oferecermos como caça.

            Alcanço a árvore que me protege, apesar do bambear de minhas pernas. O suor escorre pelo meu rosto e o tremor toma conta de minhas mãos. Para meu desespero, a sensação de realidade é ainda mais intensa do que nos sonhos anteriores. Estou em pânico; falta-me coragem para lutar. Sinto-me ridículo, impotente ao extremo. Se vocês estivessem aqui, sentindo a atmosfera de violência e morte que prevalece neste lugar, acho que compreenderiam meu pavor.

            Os seres canibais têm cerca de dois metros e meio de altura. São bípedes e possuem o corpo inteiro recoberto por pelos escuros e sebosos. São alados, mas também possuem longos braços, que terminam em garras por certo muito afiadas, pois produzem um estrago impressionante ao atacarem a carne humana. Gostaria de lhes fornecer mais detalhes sobre eles, mas a tensão sempre abala minha capacidade de percepção. Além disso, o ambiente é escuro e estou a vários metros de distância do centro da carnificina. De qualquer forma, acreditem: talvez seja melhor vocês não conhecerem os pormenores.

            Sinto uma aproximação aérea atrás de mim. Meu coração dispara. Fecho os olhos e tento rezar, embora tenha perdido a fé desde o divórcio, há mais de três anos. Felizmente, o alívio chega brevemente: é apenas a coruja que se aproxima. Realmente não a temo – sinto que é de confiança. Ela também é uma criatura de porte admirável, até um pouco mais alta do que eu. Olhando-a agora com as asas abertas, noto como sua envergadura é imponente. Sem dúvida possui muita força, mas não me parece ágil. Talvez seja uma ave idosa.

            Ela olha para mim de uma forma quase humana e chirria baixinho. E... é absurdo: eu consigo compreender os sons que ela produz! Bem, talvez esta seja uma boa notícia, uma prova de que tudo isso realmente não passa de um sonho, por mais realístico que ele seja.

            – Lamento muito – ela me diz –, mas estes seres primitivos alcançarão sua dimensão em questão de dias. Eu deveria impedi-los, mas não posso. Como você já percebeu, estou velha. E eles são muitos e extremamente vorazes. Eu não teria nenhuma chance.

            Como ela sabe que a considero idosa? Por acaso é uma coruja telepata? Isto não pode mesmo passar de um sonho. É surreal demais!

            – Estamos numa outra dimensão? – decidi perguntar-lhe, com certa ironia.

            – Noto o sarcasmo eu sua voz, mas infelizmente isto não é nenhum tipo de brincadeira. O que está acontecendo é muito sério. Estas criaturas estão conseguindo abrir uma fenda na película que divide as duas realidades. Estamos, sim, numa outra dimensão. O território é o mesmo no qual os humanos vivem. Aqui, por exemplo, é o condomínio onde você mora. Por todo o universo, existem realidades sobrepostas dividindo os mesmos espaços físicos.

            – E você é a guardiã daqui, tipo aqueles personagens de filmes de horror mesclados com fantasia? – gracejei mais uma vez.

            – Você não acredita no que está vendo e eu não o culpo por isto. No seu lugar, eu teria o mesmo ceticismo.

            Enquanto ela pondera, com seu chirriado soturno e amigável (se é que isso é possível), observo duas daquelas criaturas abomináveis sobrevoando uma região à minha esquerda, no encalço de algumas pessoas que, de forma atabalhoada, tentavam escapar. Novamente o horror toma conta de mim, pois percebo que a sensação de realidade torna-se muito intensa. A tensão e o medo voltam a me dominar.

            – Por que eu e estas pessoas estamos aqui? Por que os outros da minha dimensão não estão aqui também?

            – Algumas pessoas, como você, são menos suscetíveis à influência destes seres quando estão em sua própria dimensão. Então, eles tentam enfraquecê-las durante seus sonhos, para que elas não sejam um problema quando a invasão começar.

            Bem, isso é realmente estranho – pensei. Mas, para dizer a verdade, já não duvidava muito de tudo que via e ouvia naquele lugar.

            Olho novamente à minha esquerda. Com o canto dos olhos, vejo aqueles assassinos alcançarem as pessoas que perseguiam. Penso em correr até o local e tentar ajudar os humanos, mas não tenho ânimo para sair da proteção da árvore. Sinto-me um covarde e pensar assim me debilita ainda mais.

            – Não se culpe. Você também não teria chances – diz-me a bela coruja, abaixando a cabeça com tristeza, como a assumir a culpa pelo horror que estávamos presenciando. – Você está começando a compreender a gravidade da situação. Tente limpar sua mente agora. Se conseguir fazer isto, adormecerá profundamente e deixará esta dimensão. Amanhã conversaremos e tentaremos engendrar um plano para enfrentar estes seres na sua dimensão. Lá, encontraremos aliados.

            Pareceu-me uma boa ideia. Pelo menos, pode ser um jeito de sair daqui. Esforço-me para me tranquilizar durante vários segundos sem sucesso, até que, finalmente, começo a sentir um torpor e mergulho no tranquilo vazio do sono pesado, deixando para trás aquele inferno. Acho que a ave amiga, de alguma maneira, ajudou-me a fazer isto.

Abençoada seja!

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            O celular desperta, tocando minha música preferida. Ainda entre o sono e a vigília, percebo que minhas energias foram parcialmente revigoradas. Aos poucos, recordo em detalhes o pesadelo daquela madrugada. Ele tivera um aspecto mais real do que os anteriores, mas terminara de uma maneira diferente, resultando num sono tranquilo. Talvez aquilo indicasse um ponto final em minhas noites de terror.

            De qualquer forma, não posso deixar de comparecer à consulta que agendei no neurologista. O que tem acontecido comigo não é normal. Por certo, tenho alguma espécie de patologia.

Espreguiço-me, respirando longamente. Noto que minha cabeça dói um pouco. No mais, tudo parece normal. Com certa hesitação, junto forças para abrir os olhos e encarar o novo dia. Porém, antes de fazê-lo, ouço um som familiar – um chirriado sombrio, mas amigo; uma linguagem que, por alguma razão, eu posso compreender:

            – Você está saudável, mas seu mundo ainda corre perigo – é o que ela me diz.

            A enorme coruja branca.
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(*) – Conto publicado originariamente na antologia literária The King – Volume I, da Editora Multifoco (selo Anthology).

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