quinta-feira, 21 de abril de 2016

Conto: Futuro Maculado

Imagem: Desenho "Os Jetsons" (Hanna-Barbera)


Veículos de interessante aerodinâmica, semelhantes aos antigos automóveis, deslizavam pela troposfera em meio a arranha-céus curvilíneos. A arquitetura lembrava o arrojo das linhas de Niemayer, porém os materiais usados nas construções em nada se assemelhavam aos de sua época. Vistos de longe, os prédios pareciam constituídos de um material vítreo e moldável. Havia muitas cores nos arranha-céus, cujo brilho ofuscava os olhos daqueles que os fitavam do chão. Eram prédios esquisitos, retorcidos, mas acho que posso dizer que ainda assim eram belos. A Nova Avenida Paulista, como era chamada pelos habitantes da época, parecia uma autoestrada imaginária, sem delimitação de contornos ou faixas, por intermédio da qual motoristas impacientes realizavam manobras nada convencionais. Não havia sinalização nos cruzamentos. Os veículos, vindos de todas as direções, disputavam espaço com uma voracidade de dar medo. Para resumir: um trânsito apocalíptico.

Ao nível terrestre, transitavam apenas pedestres e ciclistas (se é que se pode chamar de bicicleta os estranhos artefatos reluzentes nos quais aqueles terrícolas do futuro trafegavam). As pessoas aparentavam certa fragilidade. Pareciam anêmicas. Eu caminhava entre elas, nas proximidades do cruzamento da Velha Paulista com a Rua Padre João Manuel. Olhava com assombro para cima, imaginando que a qualquer momento uma colisão poderia ocorrer, resultando na queda de veículos sobre a multidão que se abarrotava nas vias inferiores.

A meu lado, a biocientista Andressa Martins tentava me explicar que o mundo do século vinte e quatro era repleto de maravilhas tecnológicas. Eu não discordava quanto a isto, mas me preocupava com a questão da segurança:

– E essas coisas aí em cima, nunca batem nos prédios? – questionei.

Andressa sorriu, revelando dentes pequenos e alvos. A moça tinha cabelos negros e finos, olhos verdes e uma hipnotizante boca carnuda. Aliás, o vermelho carmim de seus lábios contrastava com a palidez do rosto. O nariz e os ouvidos eram delicados; a voz, doce e meiga. Uma beleza frágil, mas encantadora. Não quis cometer a indelicadeza de perguntar sua idade, mas imaginei algo por volta dos trinta ou trinta e dois anos.

– Há uma energia que circunda os prédios – explicou-me Andressa. – Damos a ela o nome de proteção ondular. Ela atua sobre os componentes eletrônicos dos levimóveis, impedindo que eles se aproximem demais das construções. Se isto acontece, uma mensagem eletrônica é enviada para o computador central dos veículos, ativando os pilotos automáticos, que realizarão manobras de desvio. Há também uma distância mínima regulamentar que os motoristas devem respeitar. Caso tentem desrespeitá-la, uma multa é debitada na conta corrente do infrator no mesmo instante. Este mecanismo tem funcionado com perfeição; não temos um registro sequer de colisões entre levimóveis e prédios.

– E os veículos não podem colidir entre si e caírem em nossas cabeças?

– Os levimóveis são equipados com um sistema computadorizado que se conecta aos demais veículos e a uma estação central de controle. Se um motorista realiza manobras perigosas, os computadores dos levimóveis que estão nas proximidades são avisados e ativam o modo de direção defensiva. O fluxo do trânsito é célere, mas não caótico como pode lhe parecer. E não se deixe enganar pela aparente fragilidade destes pequenos veículos. Eles são dotados de tecnologias capazes de mantê-los no ar mesmo que sofram uma colisão, além de protegerem o condutor e seu passageiro dos efeitos do impacto. Um levimóvel só despencaria caso sofresse várias colisões seguidas de forte intensidade, o que é bastante improvável. Além do mais, acima de nós, a uma altura segura, há o chamado campo de força, uma barreira invisível que amortece os impactos.

– Como funciona este tal campo de força? – quis saber.

– Ele é como uma rede transparente, capaz de suportar o peso de inúmeros veículos no caso de uma queda. Os levimóveis, além de jamais chegarem ao solo, não sofrem danos com o amortecimento gerado pelo campo de força, graças à maleabilidade de sua energia protetora.

Enquanto falava, Andressa demonstrava tamanho orgulho daquela tecnologia, que preferi não compartilhar minhas preocupações sobre uma possível falha no sistema. No início do século vinte e um, época de onde eu vinha, trabalhara como tecnólogo em informática. Não cheguei a ter conhecimentos avançados na área, porém o suficiente para saber que sistemas eletrônicos e informatizados sempre possuem vulnerabilidades. As panes poderiam ser improváveis, mas nunca impossíveis.

Foi então que uma sensação de vertigem fez com que eu tivesse que abaixar a cabeça: desde a reanimação, há dois dias, meu sistema nervoso central parecia um pouco perturbado.

Sou o que se pode chamar de um homem de meia idade. Quarenta e cinco anos, moreno, de média estatura, olhos e cabelos castanhos escuros. No rosto, a barba grisalha, que eu quase sempre deixo por fazer, deve passar uma imagem de desleixo. Não ligo para isto; sinto-me o mais comum dos mortais. Por esta razão, tenho queimado minhas sinapses cerebrais na tentativa de descobrir a razão de os cientistas da USP terem escolhido o meu corpo, dentre tantos voluntários que haviam se oferecido como cobaias para o programa Acorde no Futuro.

Minha cicerone pareceu ler meus pensamentos:

– Nós, do Centro Biotecnológico Paulista, conseguimos enviar uma mensagem intertemporal para o professor Ramón Perez, chefe do departamento de criogenia da USP. Pedimos a ele que congelasse um homem comum e o enviasse ao nosso tempo. E... Deu certo! Precisávamos de um autêntico representante de sua época, Fernando, por isto ficamos muito felizes quando conseguimos transportá-lo. Você é um espécime perfeito para nossas necessidades! E não se preocupe, pois em breve poderá ser devolvido a seu século, caso assim deseje.

Um espécime? Não gostei da palavra utilizada por Andressa. Entrei em estado de sobreaviso.
Alerta amarelo, Fernando!

******

– Vamos almoçar no Conjunto Nacional?

Ainda entorpecido por náuseas pós-reanimação e com certo mau humor, apontei para o prédio em questão e disparei:

– Aquilo não se parece nada com o Conjunto Nacional da minha época, Andressa. Não é a mesma construção, nem sequer se parece com ela. Será que ao menos tem comida de verdade em algum lugar ali?

– Muita coisa mudou nos últimos anos, Fernando, principalmente no quesito alimentar.

– Não há nenhum restaurante com apelo saudosista? Um lugar onde eu possa ver pessoas felizes e bronzeadas, mastigando com gosto um bom prato comercial, com bife no ponto e fritas?

Andressa sentiu-se desconfortável diante de meus questionamentos. Sua pele branca tornara-se quase rubra.

Ahn... À tarde, a Dra. Silveira irá explicar sobre os problemas com a alimentação nos dias atuais. Eu não tenho autorização para falar a respeito.

Ela procurou se livrar o mais rápido possível do assunto:

– Lembrei-me que na Velha Alameda Santos existe uma cantina que serve uma sopa de algas deliciosa!

– Sopa? Não deveria servir massas, ou então uma bela pizza?

– Ah, sim! Acho que eles ainda têm pizzas de siri e anchovas armazenadas no congelador!
– Pizzas congeladas? Numa cantina?

– Sim, a menos que você prefira alimentos sintetizados...

– Não há outros sabores? Eu tenho alergia a frutos do mar.

– Se você é alérgico a alimentos marinhos, terá que se contentar com a comida sintetizada.

******

Depois do almoço, fomos até o estacionamento onde Andressa guardava seu veículo. Não consegui entender como aquele local minúsculo podia ser chamado de estacionamento. E o mais intrigante: onde diabos ficavam os veículos? Estávamos numa sala deserta, no último andar de um prédio na Peixoto Gomide. As únicas coisas que existiam ali, além de nós, eram pequenos compartimentos distribuídos ao longo das paredes. Parecia o vestiário de uma imensa fábrica, onde cada operário guardava suas roupas de trabalho em armários individuais.

Observei Andressa caminhar à minha frente. Vendo-a por trás, maravilhei-me ao notar que a natureza continuava fabricando mulheres de cintura fina e quadris largos. Em segundos, tive a confirmação de que o congelamento e a viagem temporal não afetaram meus estímulos sexuais.

– Obrigado, Deus! – murmurei, acreditando que a moça não me ouviria.

– Devo alertá-lo de que a primeira infestação tornou a audição dos habitantes de nossa época mais aguçada.

– Infestação? Que infestação?

– Estou falando demais. Faça estas perguntas à Dra. Silveira – dizendo isso, Andressa abriu o armário e retirou dele uma esfera com cerca de vinte centímetros de diâmetro. O objeto tinha uma consistência gelatinosa e cheirava a baunilha. A graciosa morena começou a brincar com aquilo, jogando a esfera para cima e pegando-a de volta, enquanto se divertia vendo meu semblante interrogativo. Com aquela bola esquisita nas mãos, ela arregalou os olhos e zombou:

– Aqui está carro do futuro. Mim ensina “homem das cavernas” pilotar!

Sorri com gosto. Era bom saber que os seres humanos, embora anêmicos, ainda tinham senso de humor.

Se é que eram mesmo humanos.

******

A coisa funcionava por intermédio de comandos de voz. Bastou Andressa pronunciar a palavra acionar para que a esfera levitasse, desvencilhando-se de sua mão e pairando até cerca de dois metros adiante de nós. Em questão de segundos, operou-se a transformação: a geringonça começou a se expandir, delineando novos contornos. Um levimóvel foi moldado. Possuía formato ovoide e era transparente em sua parte superior, deixando ao piloto um amplo campo de visão.

Andressa aproximou-se do veículo e ordenou a ele: dois tripulantes. Pronto: dois assentos foram moldados dentro da massa gelatinosa, que em seguida planou até quase a altura do chão, abrindo suas duas únicas portas. Ela prosseguiu:

– Ligar computador e ativar piloto automático.

Seus belos olhos verdes dirigiram-se para mim. Eram grandes e começavam a me deixar hipnotizado:

– Vamos! – disse ela, acenando com a cabeça. – Você entra no lado do condutor e eu te digo como pilotar no modo manual.

– Esse treco aguenta nosso peso?

Ela sorriu, esticando os belos lábios carnudos. Em meu subconsciente, eu já a chamava de deusa do futuro.

– É claro que aguenta, Fernando. Entre!

Em poucos minutos, estávamos de volta ao lugar onde eu fora despertado da criogênese – o prédio do Centro Biotecnológico Paulista, conhecido simplesmente por CBP. Tratava-se de um dos prédios mais altos da região e estávamos em seu penúltimo andar. Olhar pelas janelas e ver os tais levimóveis em ação aumentava minha sensação de enjoo.

Finalmente, eu me vi diante da Dra. Silveira – a mulher com as explicações.

– Vou ser bem direta, Fernando. A infestação da qual a Andressa lhe falou não foi nada perto da segunda infestação. Um fungo infestou quase toda nossa cadeia alimentar. Apenas os alimentos provenientes dos mares não foram contaminados. A infestação afeta o cérebro das pessoas contaminadas e alguns outros órgãos vitais. Houve estranhas consequências em seus comportamentos. Os maculados, como os chamamos, tornaram-se agressivos e sedentos por carne humana. Quase toda a população mundial foi atingida. Há anos vivemos uma época pós-apocalíptica. Conseguimos reunir os poucos que não foram contaminados neste pequeno nicho entre a Bela Vista e os Jardins. Designamos esta fortaleza como fronteiras da sanidade. Aqui, nos alimentamos de comidas sintetizadas pelos computadores, ou então de frutos do mar congelados. Porém, os frutos do mar tornaram-se uma iguaria rara, pois ninguém tem coragem de se aventurar além da fortaleza que construímos para ir até as regiões litorâneas adquirir novos carregamentos.

–Você está me dizendo que estas pessoas se tornaram zumbis?

– De fato, acho que zumbis é um termo mais adequado do que maculados. Como eu lhe disse, quase toda a população mundial está sofrendo deste mal, mas aqui você está a salvo.

– As fronteiras da sanidade são invisíveis, mas protegidas por uma inteligência artificial muito avançada. – interveio Andressa.

Era como dormir e depois acordar dentro de um filme de horror. E o mais assustador: ficou claro que a minha presença ali tinha um motivo mórbido e talvez perigoso para mim. Afinal, eu era um espécime perfeito para... O quê? Fui tomado por uma espécie de pânico ao pensar no que eles poderiam estar planejando fazer comigo. Devo ter ficado quase tão pálido quanto as pessoas que me rodeavam.

– E por qual razão vocês me trouxeram aqui?

– A estrutura orgânica das pessoas de nossa época tem sofrido mutações em nível microscópico, motivadas pelo abuso de medicações antibacterianas. Algumas bactérias habitualmente presentes no intestino humano foram destruídas por completo ao longo dos séculos. Há algumas semanas, descobrimos que uma delas é capaz de produzir uma substância que elimina os fungos nocivos.

– E o que vocês precisam que eu faça para ajudá-los?

– Para falar o português claro, Fernando, precisamos que você tenha uma bela diarreia! E então separaremos as bactérias que procuramos e criaremos um ambiente adequado para que se multipliquem. Podemos fazer isto em poucas horas.

Melhor assim. Eu já estava imaginando passar por intervenções clínicas dolorosas, extrações de órgãos, mutilações ou algo semelhante.

******

Depois de tomar um líquido azulado e produzir, minutos depois, a “matéria-prima” que tanto desejavam, ouvi alguém gritar que a proteção que nos deixava a salvo dos zumbis fora penetrada. Um corre-corre iniciou-se dentro das instalações do Centro Biotecnológico Paulista.

Fui até as janelas do nosso andar e visualizei alguns levimóveis aproximando-se de maneira errante e a uma velocidade espantosa. A cabine transparente dos veículos permitia-me enxergar criaturas com feições demoníacas e repletas de feridas. Os veículos trazidos pelos zumbis impulsionavam-se contra aqueles manejados por pessoas saudáveis, causando seguidas colisões e algumas quedas, que felizmente eram amparadas pelo campo de força que Andressa mencionara.

Diante do caos que se instalara lá fora, pareceu-nos mais sensato permanecer nas dependências do chamado CBP enquanto a Dra. Silveira e sua equipe trabalhavam no antídoto. Ficamos com os olhos esbugalhados na frente das janelas por cerca de duas horas, assistindo ao espetáculo aterrador.

– Como estas criaturas conseguiram penetrar as fronteiras da sanidade? O que pode ter acontecido com a inteligência artificial que as coordena? – perguntou Andressa, que estava ao meu lado, a um senhor calvo, que parecia ser o mandachuva do lugar.

– Parece que a lesão cerebral sofrida pelos zumbis não afetou muito a inteligência deles. Encontraram uma maneira de desativar a matriz da inteligência artificial.

– As criaturas devem estar famintas. Ouvi dizer que precisam de carne fresca. E a carne fresca somos nós! – exclamou alguém às nossas costas, porém eu não vi quem era, pois não conseguia desviar os olhos da carnificina que se desenhava no cenário exterior.

Verifiquei que os zumbis, ao provocarem colisões, ora pulavam sobre os veículos das vítimas, ora se atiravam contra o campo de força. Olhei para baixo e vi que aquela rede invisível agora abrigava uma quantidade expressiva de veículos e de vítimas dos acidentes. Elas eram atacadas com ferocidade pelos zumbis. Pareciam falecer em razão das mordidas, mas ressuscitavam instantes depois. Maculadas pela infestação, tornavam-se também criaturas semivivas, tão famintas quanto seus agressores.

Andressa e eu notamos que a energia que impede o choque dos levimóveis contra nosso prédio (a tal proteção ondular) tornara-se instável, produzindo ondas energéticas de um verde quase transparente. Instantes depois, um veículo conduzido por dois zumbis adolescentes chocou-se com violência contra a parede, cerca de dois andares abaixo de nós.

– Para as ruas! – o mandachuva gritou. – O campo de força nos manterá a salvo!

Foi um Deus-nos-acuda. Um rapaz magricelo e com profundas olheiras nos entregou algumas pistolas-laser, dizendo-nos que, a partir daquele momento, seria cada um por si.

Andressa tremia. Peguei sua arma e tomei minha musa futurista nos braços, conduzindo-a até as escadas, pois havia uma disputa quase sangrenta por uma vaga nos elevadores. Após dois andares, ela me pediu para ser colocada no chão. Descemos juntos e de forma atabalhoada os vinte e sete andares restantes.

Conseguimos alcançar a calçada da Velha Paulista, num ponto onde antes se situava o Museu de Arte Moderna. Ela estava exausta e muito ofegante, então a peguei no colo novamente. Olhei na direção da antiga Rua da Consolação e vi que o campo de força estava cedendo naquela altura, ocasionando a queda de levimóveis, zumbis e pessoas ainda sãs. Ao nosso redor, as pessoas corriam de forma desenfreada. O cenário era caótico e eu só não amaldiçoei o momento em que decidira embarcar no projeto Acorde no Futuro porque estava desenvolvendo uma afeição muito especial pela garota que estava em meus braços.

Conduzi Andressa até um espaço livre de aglomerações. Lembrei-me de que, em minha época, naquele local situava-se o prédio de um Tribunal. Caminhei entre as pilastras que sustentavam o arranha-céu que o substituíra e encontrei uma porta aberta. Acomodei a bela Andressa em um nicho que me pareceu bem protegido. Entretanto, eu não podia simplesmente ficar ali e deixar que outras pessoas fossem devoradas. Estava munido de duas pistolas laser e, com elas, acreditava estar em condições de matar um bocado de zumbis. Quando eu me preparava para sair, Andressa segurou meu braço direito. Ela tirou de seu avental um aparelho azulado de formato semicircular, que possuía um pequeno botão branco na região central:

            – Fernando, utilize este potencializador de inércia. Ele pode fornecer a energia necessária para estabilizar o campo de força até que a Dra. Silveira conclua a fabricação do antídoto.

            – Como faremos para aplicar a vacina nesta quantidade cada vez maior de zumbis? – eu quis saber.

            – Não será uma vacina, homem das cavernas – brincou ela, com um tênue sorriso. – A Dra. está produzindo um gás que liberará as bactérias benéficas na atmosfera. Só espero que encontre alguém com coragem suficiente para conduzir um levimóvel entre os zumbis e espalhar o conteúdo do antídoto nesta região.

            Meu instinto heroico multiplicou-se naquele instante:

            – Eu posso fazer isto!

            – Não quero que você se arrisque. Eu estou...

            Não esperei que ela terminasse a frase. Corri com seu potencializador de inércia até a esquina da Velha Paulista com a antiga Consolação e comecei a disparar para cima, esperando que o aparelho fizesse o trabalho que Andressa acreditava que faria. Vi-me diante de imagens insólitas, com tropeços, encontrões e batalhas entre humanos e zumbis. Um cenário surreal, típico de um filme “B”, mas verdadeiro. Trêmulo e atrapalhado, atirei com as pistolas-laser nos zumbis que encontrei pelo caminho (errando a maioria dos alvos, para dizer a verdade) e voltei o mais rápido que pude, mantendo o potencializador acionado e direcionado ao alto até chegar de volta ao prédio do CBP. Respirei fundo, guardei o aparelho e fiquei com as duas pistolas-laser nas mãos, preparado para disparar de novo a qualquer momento.

Ao tentar me aproximar dos elevadores, tive que enfrentar alguns zumbis que se aglutinavam no saguão. Tinham as faces arroxeadas e os olhos esbugalhados. Gritavam em uníssono, de forma um tanto patética, a palavra “carne”. Senti-me paralisado por um momento diante da insanidade daquilo tudo, mas logo percebi que não tinha muito tempo para estas frescuras. Consegui desviar do primeiro grupo de maculados, porém duas outras criaturas surgiram antes que eu alcançasse a porta do elevador. Efetuei alguns disparos e corri para apertar o botão de subida. Embarquei o mais rápido que pude, desvencilhando-me às pressas dos zumbis que tentavam me morder. Lá dentro, pude recuperar parte do fôlego. Mas... Pela-mor-de-Deus, o que fora aquilo?

            A Dra. Silveira trabalhara rapidamente. Trombei com ela e seu antídoto ao desembarcar no vigésimo nono andar. Juntos, corremos até seu levimóvel. O estacionamento estava apenas um andar acima; entretanto, assim que chegamos lá fomos surpreendidos por um numeroso grupo de zumbis. Não tivemos tempo para acionar nossas pistolas laser e acabamos nos envolvendo em disputas corporais com aquelas coisas.

            – Modo de urgência! – gritou Silveira em dado momento. Num passe de mágica, a porta de seu armário se abriu e uma esfera gelatinosa apareceu diante de nós.

            – Dois tripulantes! – urrou ela. – Ligar computador e ativar piloto automático! – vociferou em seguida.

            Um zumbi corpulento imobilizou a Doutora por trás, pressionando suas costelas. Consegui acertá-lo com um cruzado de direita que o levou ao chão. Outros maculados se aproximaram e tentaram nos agarrar. Entre sopapos e empurrões desajeitados, conseguimos por fim nos desvencilhar daqueles infectados. Ufa!

Eu queria fazer tudo sozinho. Imaginava-me pilotando o levimóvel e ejetando o composto salvador pelos ares, todavia não podia negar que aquela mulher era mais gabaritada do que eu para conduzir o veículo. Aliás, admirei-me com a perícia que ela demonstrou ao desviar dos carros-zumbi que surgiram em nosso encalço. Sentindo meus batimentos cardíacos em ritmo frenético, vaporizei o produto na troposfera, utilizando o mecanismo que ela me forneceu. Aquele gás possuía a interessante propriedade de penetrar na massa gelatinosa que constituía os levimóveis, tornando inevitável que os zumbis o inalassem. Pouco depois, as criaturas começaram a se acalmar. Depois de alguns (porém longos) minutos, entraram numa espécie de sono profundo.

            – Acordarão completamente humanos em algumas horas – foi o que disse a Dra. Silveira. – Terão que ser hospitalizados em razão das dores e mutilações, mas ficarão bem em alguns dias.

            – "Bem", Doutora? – duvidei. – E em apenas alguns dias?

            – Ahn... razoavelmente bem. E... ok, talvez leve algumas semanas. Mas voltarão a ser humanos e poderão levar uma vida normal de novo, isso eu posso garantir.

            Não era muito fácil de acreditar, principalmente diante das mutilações que muitos tinham sofrido. E havia também a questão dos danos cerebrais... Como reverter aquilo? No entanto, acho que a Dra. Silveira merecia um crédito. Afinal, ela já provara ser muito competente. E... bem, estávamos no futuro, oras! A medicina por certo evoluíra um bocado!

            – E agora? Quais são os planos, Doutora?

            – Por enquanto, isso basta. Pouco antes de nos encontrarmos na entrada do elevador, recebi a informação de que a inteligência artificial foi reparada e já reativou a proteção invisível que guarnece as fronteiras da sanidade. Amanhã nos organizaremos em grupos para iniciarmos a pulverização no restante do mundo. Será um trabalho e tanto, mas conseguiremos.

            Eu sorri, sentindo-me parcialmente vitorioso. E logo me apressei em retornar para a Velha Paulista. O mais importante ainda estava por ser feito: eu precisava reencontrar minha linda biocientista.

Ao abrir a porta do prédio onde a deixara, alegrei-me ao ver que Andressa me esperava com um sorriso tímido em seus lábios carnudos. E minha felicidade tornou-se ainda maior quando ela completou a frase que eu interrompera minutos atrás:

            – Eu estou me apaixonando por você, Homem das Cavernas!

            – E eu por você, Deusa do Futuro! – gritei em resposta, todo atabalhoado, mas muito feliz. Estava exausto, mas não me faltou energia para um beijo apaixonado, daqueles que eu só tinha visto até então em filmes.

Quem diria... No século vinte e um, eu não passava de um Zé Ninguém. Sentia-me tão só e deprimido a ponto de ter me oferecido como cobaia em uma experiência de viagem temporal, sabendo que corria risco de vida. Porém, três séculos depois, conquisto uma linda namorada e torno-me um herói. Estou transbordando felicidade. Jamais me senti tão vivo.

Sei que estou sendo piegas, mas... vejam bem, eis aqui um fato que, ao menos para mim, hoje é inquestionável: há lugar para todos neste mundo.

No tempo e no espaço!

Conto: O Chirriado Soturno da Guardiã


“Os monstros existem. Os fantasmas também. Eles vivem dentro de nós e... Às vezes eles ganham.” (Stephen King)

            Não tenho uma boa noite de sono há quase duas semanas. O pouco que durmo serve apenas para me trazer pesadelos com criaturas agressivas e de um apetite carnívoro insaciável. Seu cardápio é variado, mas elas parecem ter predileção por seres humanos. Em meus sonhos, vejo-as rasgando vorazmente as entranhas de várias pessoas. Elas as comem vivas! Um espetáculo aterrador, que tem me levado aos extremos do medo.

O que mais me intriga é o fato de os pesadelos, ao se repetirem, afigurarem-se cada vez mais repletos de detalhes, como se estivessem aperfeiçoando-se, tentando simular a realidade e, de alguma forma, aproximando-se dela. Hoje, ao me levantar, por alguns instantes fiquei em dúvida se a realidade era de fato a tranquilidade do condomínio onde moro, ou se bastaria abrir a porta do quarto para mergulhar novamente naquela floresta úmida e penumbrosa, cenário dos meus sofrimentos oníricos. Meu garoto, se ainda estivesse morando comigo, resumiria isto com uma única palavra: sinistro.

Almocei no início desta tarde com minha ex-esposa (para tratar de outros assuntos desagradáveis) e ela sugeriu que eu marcasse uma consulta com um neurologista. Dou a mão à palmatória – foi uma boa sugestão. O problema é que só consegui agendar um horário para a próxima semana. Enquanto isso, terei que continuar lidando com meus pesadelos diários.

O relógio do decodificador da TV a cabo sentencia: já passam das vinte e três horas. Preciso ir para a cama, tentar dormir um pouco. Amanhã tenho uma reunião importante no trabalho. Precisarei de toda minha lucidez.

******

            Lá está ela – a enorme coruja branca. Esqueci de lhes falar sobre ela. É o único ser neste cenário perturbador que não me dá calafrios. A não ser, é claro, por seu chirriar: longo, sofrido e melódico, como se estivesse cantando uma música triste. Ela parece uma espécie de guardiã deste lugar. Está sempre próxima a um portão enferrujado e semidestruído, no início do caminho lodoso e escorregadio que antecede a floresta, palco dos acontecimentos que têm assombrado minhas noites. Meus pesadelos começam sempre neste portão.

            E não foi diferente desta vez.

Penso em tentar retornar, mas a coruja imediatamente olha em minha direção e balança a cabeça em sinal negativo. Eu quase posso jurar que ela apresenta uma expressão de tristeza em sua face, como a me avisar sobre a impossibilidade do regresso. De fato, estou dominado pela mesma sensação das noites anteriores – um impulso mecânico de seguir adiante, radicalmente oposto ao meu desejo de fugir dali o quanto antes. Dominado pela energia que reina ao meu redor, cedo à imposição invisível e sigo em frente.

Como sempre, bastam alguns passos para que eu comece a escutar as provas sonoras da carnificina: as vozes guturais das criaturas, o barulho causado pela correria entre o capinzal lamacento e, o pior de tudo: os gritos apavorados das pessoas que são apanhadas para lhes servirem de ceia. Aqueles assassinos parecem ter prazer em caçar. Matam como se estivessem praticando alguma odiosa modalidade esportiva.

            O máximo que consigo fazer para me proteger é me abrigar atrás da árvore mais próxima ao velho portão, felizmente frondosa o suficiente para me ocultar daqueles seres, cujos olhos amarelos brilhantes parecem não ter dificuldade alguma para localizar suas presas em meio à penumbra do lugar.

            Quem seriam aquelas pessoas? Também estariam sonhando como eu? Será que foram compelidas por algum tipo de sugestão hipnótica para se aventurarem ao centro daquele matadouro? O mesmo poderá acontecer comigo, em meus próximos pesadelos? Sim, pode ser isto... Talvez estejamos sendo paulatinamente compelidos, por algum tipo de indução psíquica, a nos oferecermos como caça.

            Alcanço a árvore que me protege, apesar do bambear de minhas pernas. O suor escorre pelo meu rosto e o tremor toma conta de minhas mãos. Para meu desespero, a sensação de realidade é ainda mais intensa do que nos sonhos anteriores. Estou em pânico; falta-me coragem para lutar. Sinto-me ridículo, impotente ao extremo. Se vocês estivessem aqui, sentindo a atmosfera de violência e morte que prevalece neste lugar, acho que compreenderiam meu pavor.

            Os seres canibais têm cerca de dois metros e meio de altura. São bípedes e possuem o corpo inteiro recoberto por pelos escuros e sebosos. São alados, mas também possuem longos braços, que terminam em garras por certo muito afiadas, pois produzem um estrago impressionante ao atacarem a carne humana. Gostaria de lhes fornecer mais detalhes sobre eles, mas a tensão sempre abala minha capacidade de percepção. Além disso, o ambiente é escuro e estou a vários metros de distância do centro da carnificina. De qualquer forma, acreditem: talvez seja melhor vocês não conhecerem os pormenores.

            Sinto uma aproximação aérea atrás de mim. Meu coração dispara. Fecho os olhos e tento rezar, embora tenha perdido a fé desde o divórcio, há mais de três anos. Felizmente, o alívio chega brevemente: é apenas a coruja que se aproxima. Realmente não a temo – sinto que é de confiança. Ela também é uma criatura de porte admirável, até um pouco mais alta do que eu. Olhando-a agora com as asas abertas, noto como sua envergadura é imponente. Sem dúvida possui muita força, mas não me parece ágil. Talvez seja uma ave idosa.

            Ela olha para mim de uma forma quase humana e chirria baixinho. E... é absurdo: eu consigo compreender os sons que ela produz! Bem, talvez esta seja uma boa notícia, uma prova de que tudo isso realmente não passa de um sonho, por mais realístico que ele seja.

            – Lamento muito – ela me diz –, mas estes seres primitivos alcançarão sua dimensão em questão de dias. Eu deveria impedi-los, mas não posso. Como você já percebeu, estou velha. E eles são muitos e extremamente vorazes. Eu não teria nenhuma chance.

            Como ela sabe que a considero idosa? Por acaso é uma coruja telepata? Isto não pode mesmo passar de um sonho. É surreal demais!

            – Estamos numa outra dimensão? – decidi perguntar-lhe, com certa ironia.

            – Noto o sarcasmo eu sua voz, mas infelizmente isto não é nenhum tipo de brincadeira. O que está acontecendo é muito sério. Estas criaturas estão conseguindo abrir uma fenda na película que divide as duas realidades. Estamos, sim, numa outra dimensão. O território é o mesmo no qual os humanos vivem. Aqui, por exemplo, é o condomínio onde você mora. Por todo o universo, existem realidades sobrepostas dividindo os mesmos espaços físicos.

            – E você é a guardiã daqui, tipo aqueles personagens de filmes de horror mesclados com fantasia? – gracejei mais uma vez.

            – Você não acredita no que está vendo e eu não o culpo por isto. No seu lugar, eu teria o mesmo ceticismo.

            Enquanto ela pondera, com seu chirriado soturno e amigável (se é que isso é possível), observo duas daquelas criaturas abomináveis sobrevoando uma região à minha esquerda, no encalço de algumas pessoas que, de forma atabalhoada, tentavam escapar. Novamente o horror toma conta de mim, pois percebo que a sensação de realidade torna-se muito intensa. A tensão e o medo voltam a me dominar.

            – Por que eu e estas pessoas estamos aqui? Por que os outros da minha dimensão não estão aqui também?

            – Algumas pessoas, como você, são menos suscetíveis à influência destes seres quando estão em sua própria dimensão. Então, eles tentam enfraquecê-las durante seus sonhos, para que elas não sejam um problema quando a invasão começar.

            Bem, isso é realmente estranho – pensei. Mas, para dizer a verdade, já não duvidava muito de tudo que via e ouvia naquele lugar.

            Olho novamente à minha esquerda. Com o canto dos olhos, vejo aqueles assassinos alcançarem as pessoas que perseguiam. Penso em correr até o local e tentar ajudar os humanos, mas não tenho ânimo para sair da proteção da árvore. Sinto-me um covarde e pensar assim me debilita ainda mais.

            – Não se culpe. Você também não teria chances – diz-me a bela coruja, abaixando a cabeça com tristeza, como a assumir a culpa pelo horror que estávamos presenciando. – Você está começando a compreender a gravidade da situação. Tente limpar sua mente agora. Se conseguir fazer isto, adormecerá profundamente e deixará esta dimensão. Amanhã conversaremos e tentaremos engendrar um plano para enfrentar estes seres na sua dimensão. Lá, encontraremos aliados.

            Pareceu-me uma boa ideia. Pelo menos, pode ser um jeito de sair daqui. Esforço-me para me tranquilizar durante vários segundos sem sucesso, até que, finalmente, começo a sentir um torpor e mergulho no tranquilo vazio do sono pesado, deixando para trás aquele inferno. Acho que a ave amiga, de alguma maneira, ajudou-me a fazer isto.

Abençoada seja!

******

            O celular desperta, tocando minha música preferida. Ainda entre o sono e a vigília, percebo que minhas energias foram parcialmente revigoradas. Aos poucos, recordo em detalhes o pesadelo daquela madrugada. Ele tivera um aspecto mais real do que os anteriores, mas terminara de uma maneira diferente, resultando num sono tranquilo. Talvez aquilo indicasse um ponto final em minhas noites de terror.

            De qualquer forma, não posso deixar de comparecer à consulta que agendei no neurologista. O que tem acontecido comigo não é normal. Por certo, tenho alguma espécie de patologia.

Espreguiço-me, respirando longamente. Noto que minha cabeça dói um pouco. No mais, tudo parece normal. Com certa hesitação, junto forças para abrir os olhos e encarar o novo dia. Porém, antes de fazê-lo, ouço um som familiar – um chirriado sombrio, mas amigo; uma linguagem que, por alguma razão, eu posso compreender:

            – Você está saudável, mas seu mundo ainda corre perigo – é o que ela me diz.

            A enorme coruja branca.
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(*) – Conto publicado originariamente na antologia literária The King – Volume I, da Editora Multifoco (selo Anthology).

Conto: Ísis

Quase todos os dias, Clarice esgueirava-se pelas ruas penumbrosas daquele fétido vilarejo, observando cautelosamente as apáticas criaturas do lugar. Eram breves incursões; o medo a impedia de ir longe. Os seres que via eram estranhos e tinham modos primitivos. Seria uma civilização alienígena em seus primeiros passos? Clarice não fazia ideia. Só sabia que se sentia desconfortável perante eles.

O que mais a incomodava era o cheiro: as criaturas exalavam um odor desagradável, que podia ser sentido mesmo a longa distância. E aquele pedaço de fim de mundo era a coisa mais suja e asquerosa que vira em toda sua vida! Para uma obsessiva compulsiva por limpeza, um cenário como aquele parecia ser o pior dos pesadelos. Um pesadelo que se tornara tão real quanto seus medos e manias.

Ísis, sua nave improvisada, de alguma maneira a levara até ali. A construção daquela engenhoca era hoje o maior orgulho dos trinta e cinco anos de vida de Clarice. Foram árduos anos de trabalho até que o primeiro teste pudesse ser feito. Depois que sua filhinha falecera, com apenas dois anos de idade, a ciência passara a ser a única coisa que lhe interessava na vida. A criança sofrera por mais de seis meses com uma doença devastadora e, embora Clarice tivesse se desvelado em cuidados, peregrinando por médicos e hospitais e buscando tratamentos alternativos, a doença acabara vencendo a guerra. Clarice pensou que também morreria; quase enlouqueceu. Para piorar, devido a sequelas oriundas de complicações que tivera no parto de Júlia, não mais podia engravidar. Parecia não haver mais nada que pudesse motivá-la a seguir adiante.

Deprimida, Clarice decidira se isolar das pessoas. O casamento ruiu, ela se afastou dos pais, tornou-se agressiva com os amigos, abandonou seu grupo de trabalho e passou a se dedicar sozinha ao grande projeto de sua vida. Tinha verdadeira obsessão por ser mãe, mas a Natureza destruiu suas esperanças. A partir de então, criou uma obsessão para substituir outra. Ísis não era mais apenas um protótipo; era sua filha, seu marido, seus amigos e sua única companheira de trabalho. Sem sua Julinha, o trabalho era a única coisa que ainda lhe importava. Se não podia ser mãe, haveria de mostrar ao mundo o melhor do que restara de si: sua capacidade como cientista. Precisava deixar sua marca no mundo, um legado, algo para provar que não vivera em vão. Com uma tenacidade que não encontrava limites, a cientista nascida em Arapiraca e formada na Universidade Federal de Maceió entregou-se de corpo e alma ao Projeto Ísis.

Clarice esperava que o protótipo estivesse pronto em três ou quatro anos, quando a humanidade adentrasse a sexta década do século XXI. Porém, graças à inesperada ajuda do Governo, que lhe fornecera uma amostra de um combustível experimental, seu invento parecia ter dado frutos antes do imaginado. A matéria prima fora encontrada nos novos campos de pré-sal nordestino e era processada em sigilo numa base tecnológica construída pelo governo nas imediações do cerrado goiano.

Será que conseguira? Será que estava mesmo na Terra, numa outra época, como pretendia?

Bem, não era o que parecia. Aquele lugar era estranho demais para ser nosso planeta. E o pior: a cientista não encontrara mapas, muito menos computadores, ou qualquer outra mídia que a permitisse descobrir onde (ou em qual época) havia desembarcado. Ela vira apenas pequenas máquinas, cuja posse as pessoas disputavam com extrema violência. Sua utilização tinha um efeito viciante nas criaturas, que ficavam desesperadas se não pudessem manipulá-las. Talvez – pensou Clarice – fosse uma espécie de droga tecnológica.

Tudo era muito sinistro: paisagens, clima, construções. O Sol era tênue e parcialmente bloqueado por substâncias coloridas que pairavam na atmosfera. Na superfície, a cientista de cabelos negros encaracolados não avistara um animal sequer. E os habitantes do lugar, embora humanoides, não pareciam exatamente seres humanos. Tinham tronco, braços, pernas e crânio, mas eram disformes. A pele deles excretava uma substância amarelo-ouro, um tanto pastosa... – Argh! – gritava Clarice a cada vez que via aquilo.

Ela chegara ali há alguns dias. Seu insólito transporte, construído a partir de uma nova liga metálica, era de um prateado ofuscante. Repleto de alavancas que rangiam ao serem acionadas, lembrava em seu interior um engenho do século XIX. As linhas curvas e delgadas, próprias dos equipamentos fabricados em meados do século XXI, encontravam-se na parte externa do aparelho, que era envolvida por uma fina película de material transparente, em formato elíptico, a imitar uma espécie de casca protetora. Clarice batizara sua máquina de Ísis em homenagem à deusa egípcia da maternidade e da fertilidade – uma forma de continuar sentindo-se mãe.

Ísis era uma espécie de acelerador de partículas, com pouco mais de três metros de comprimento, equipado com um mecanismo robótico que amplificava as reações químicas que ocorriam em seu reservatório de combustível. Um projeto visionário, que havia se tornado motivo de piadas entre seus colegas cientistas.

Em seu íntimo, Clarice agora desejava que eles estivessem ali para ver o que Ísis era capaz de fazer. Seria sua desforra. Queria ver a cara de espanto deles, dar boas risadas e lhes provar, de forma definitiva, que não era nenhuma “desmiolada”, como costumavam dizer. Talvez, até, gritaria em seus ouvidos algo do tipo: Seus idiotas, eu consegui! Riam de mim agora!

A bem da verdade, Clarice não sabia onde fora parar, mas era evidente que fizera uma viagem fantástica. Ao que tudo indicava, Ísis criara um vórtice. Ele conduziu a máquina e sua inventora até um lugar lúgubre, que parecia um pátio abandonado. Clarice recordava-se com detalhes do momento de sua chegada. Era noite e fazia um frio de quebrar os ossos. O ar estava seco, o vento uivava com raiva e o corpo delgado da cientista tremia sem parar. A Física alagoana, repleta de misticismos em sua mente supersticiosa, tinha a sensação de que o lugar abrigava energias muito pesadas. Fora dominada por um medo tão intenso, que não se atrevera a esboçar qualquer movimento. O ódio parecia estar no ar – dava para sentir na carne! Era um ódio invisível, mas que entrava pelos poros. Ardia. Ela jamais sentira tanto medo em sua vida.

Num canto escuro, uma senhora frágil, suja e maltrapilha a observava, num misto de espanto e medo. A mulher fez menção de fugir; deu dois passos, mas parou. Olhando com preocupação para os lados, de repente acelerou os passos tortos até alcançar Clarice. Deu-lhe um estranho agasalho, velho e surrado, mas muito bem vindo. Depois, tocou a face da cientista e acariciou seus cabelos limpos e perfumados, intrigada. Parecia sentir pena de Clarice. Tinha apenas quatro dedos nas mãos, longos e escurecidos, e olhava para a alagoana com carinho e desconfiança: estava hesitante, mas decidiu acolhê-la. Com seus modos desajeitados, retirou-a de Ísis e a conduziu até sua moradia.

Uma espécie de chá, quente e amargo, fora servido. Nenhuma palavra. Depois, com o estômago revirado, Clarice foi conduzida até um nicho insalubre, no qual deveria dormir. Ou tentar...

No dia seguinte, a jovem de Arapiraca fez muitas perguntas, mas sua protetora era uma pessoa de poucas palavras. Na verdade, de palavra alguma. A princípio, pareceu-lhe que a mulher não entendia sua língua, o que não era de se admirar. Tentou se comunicar por intermédio de gestos, mas não adiantou. Também a língua inglesa parecia não ser compreendida. Num dado momento, exaurida, Clarice riu de si mesma:

Oras – balbuciou – o que eu esperava? Que num outro planeta as pessoas falassem os mesmos idiomas que as criaturas da Terra?

Dias depois, no entanto, veio a grande a surpresa: aquele estranho ser, naquele lugar que dava calafrios, pronunciou algumas palavras em língua portuguesa! Mas a mulher não concatenava as ideias. Às vezes, declamava frases desconexas: “Aqui é Lodo; Lata é a cidade. Um, dois, três, cinco... Ira, ira!”.

O que significaria aquilo? Provavelmente, aquela senhora enlouquecera. Ao menos, pensava Clarice, não parecia perigosa como os outros que vira. Um alívio e tanto para quem se sentia dentro de um filme de horror de quinta categoria...

A casa exalava um cheiro forte. Era um odor diferente dos ambientes exteriores, mas também algo que Clarice jamais aspirara (e que certamente preferia não ter aspirado). A cientista estava se acostumando a viver com náuseas.

As construções pareciam feitas de um material gelatinoso; um dourado dúbio, ludibriador. Alguns prédios singulares, que pendiam ora para o lado esquerdo, ora para o lado direito, estavam a ponto de desmoronar. A decadência era visível; o cenário, assustador. Era insano viver ali.

Clarice desejava, o quanto antes, encontrar um meio de voltar. Tinha o instinto exploratório próprio dos cientistas, mas sentia nojo das criaturas que vira e detestara aquele lugar. Sua única prioridade era descobrir o necessário para colocar Ísis em funcionamento e retornar para seu pequeno centro de pesquisas.

Pequeno, mas asseado – pensava, torcendo o nariz fino e delicado.

Mas a física de partículas não tinha como voltar, pois Ísis gastara quase toda sua energia naquela viagem. Tornara-se imprescindível encontrar um meio de reabastecer a máquina. Para isto, a cientista precisaria conhecer melhor aquele lugar. E, se não encontrasse uma forma de realimentar Ísis, a única alternativa era aprender a viver ali, algo que preferia sequer cogitar.

De qualquer forma, tinha que se misturar entre eles, descobrir o que poderia significar aquele “1, 2, 3, 5, ira, ira”, ou coisa parecida. Pediu diversas vezes à sua protetora que lhe falasse mais sobre Lodo; porém, não sabia se por medo ou por falta de lucidez, sua única amiga ali teimava em repetir coisas sem nexo. A mulher parecia ter endoidado de vez.

Assustada, Clarice sentia-se só, num mundo para lá de esquisito. Não tinha com quem contar. Quase entrou em desespero, mas era necessário juntar coragem e agir. Investigar, desvendar – exatamente como gostava de fazer, desde criança, quando estava diante de um filme ou livro de suspense. Após três semanas em Lata, finalmente decidiu que no dia seguinte iria encontrar uma maneira de se infiltrar entre seus habitantes.

E de reabastecer Ísis – murmurou, tentando juntar coragem.

Clarice dormiu mal naquela noite, a exemplo das anteriores, pois o cafofo que lhe fora fornecido era digno de uma presidiária. Lavou-se como pôde com a água turva que havia na casa. Como trouxera consigo um vidro de perfume (sempre o trazia em sua pequena mochila), decidiu vaporizar um pouco em seu pescoço: fora a maneira que encontrara de combater os odores desagradáveis que tudo (e todos) exalavam.

Naquele dia notou que sua protetora não era tão alienada quanto parecia. A mulher percebeu que a jovem perfumada pretendia partir e apressou-se em lhe fornecer alguns alimentos. Na verdade, era quase tudo o que possuía na casa. Clarice ficou surpresa e emocionada; seus olhos marejaram.

“Um, dois, três, cinco” – disse a senhora, com os olhos arregalados.

Ela sequer sabe contar” – pensou Clarice, com ar aborrecido.

Ira, ira!” – completou a estranha mulher, apertando os ombros de Clarice.

Era uma criatura bondosa. Clarice começava a se afeiçoar por ela, mas não podia continuar ali. Precisava encontrar um jeito de voltar para o seu devido lugar, no tempo e no espaço. Com este pensamento, deu um beijo no rosto daquela senhora, com os olhos molhados e o nariz enojado. Abraçou-a, com repugnância e carinho. A mulher grunhiu e recuou um passo. Recebera o abraço com a surpresa de quem vê o mar pela primeira vez. Segundos depois, Clarice podia jurar que a mulher tinha o amor estampado nos olhos e parecia tentar encontrar uma maneira de não deixá-la partir. A alagoana hesitou por um momento, mas acabou abrindo a porta e deixando a habitação.

O ar estava ainda mais seco que de costume e queimava seus olhos e garganta com voracidade. Após caminhar com dificuldade por alguns quilômetros, Clarice vislumbrou ao longe uma fantasmagórica arquitetura, que pareceu chocar suas sinapses. Uma sensação de dèja-vu apoderou-se dela. Num relance, lembrou-se de uma obra de Niemayer.

Não, não pode ser – pensou, um tanto confusa. E seguiu adiante, voltando a maquinar em sua mente onde poderia começar a procurar pelo valioso combustível. Se é que havia alguma possibilidade de encontrá-lo naquele lugar...

Enquanto caminhava, alerta, pelas ruas sombrias, vaporizou mais um pouco de perfume em volta de seu tronco, tentando não ser contaminada com o cheiro horrível que sempre estava no ar. Depois de alguns tropeções, gritou, irritada:

– Este lugar não pode ser um planeta! Deve ser o próprio Inferno!

O verdadeiro inferno, todavia, estava sendo enfrentado por sua protetora. A mulher tinha a mesma estatura que Clarice e uma compleição física muito parecida, mas estava fraca e envelhecida, por certo devido às condições absurdas que tinha que enfrentar para sobreviver. De alguma forma, ela sabia o que faltava para que Clarice realizasse sua tão sonhada jornada de retorno, assim como onde encontrar o valioso produto. Caminhando com dificuldade, a mulher conseguiu conduzir seu corpo frágil até um imenso galpão, repleto de containers parcialmente destruídos, mas muito bem vigiados por figuras humanoides assustadoras, que pareciam fazer o policiamento do local. Tomando todas as precauções para não ser notada, instalou uma geringonça num canto lúgubre do salão e escondeu-se atrás de um dos containers. Pouco mais de dez minutos depois, o aparelho instalado promoveu uma verdadeira algazarra no local, emitindo uma escandalosa sirene. Em instantes, as figuras assustadoras que tomavam conta do lugar correram em direção ao artefato. Aproveitando a oportunidade, mesmo com toda a dificuldade que tinha para caminhar com rapidez, a mulher conseguiu adentrar3 um dos containers e se apoderar de uma pequena caixa azul cobalto. Era bem mais inteligente do que aparentava ser. Com cuidado, escondeu-se novamente entre algumas caixas e aguardou o momento certo para sair dali. Depois, perambulou por mais alguns quilômetros até chegar, exaurida, no local onde Ísis estacionara no dia da chegada de Clarice. Felizmente, ninguém a alcançara. Por enquanto.

Num outro canto da cidade, a física, sempre obcecada por seus medos e manias, ainda não percebera que estava numa espécie de Brasil alternativo da segunda metade do século XXI: um lugar onde as pessoas não viviam, apenas tentavam sobreviver. A guerra nuclear afetara suas mentes, seus corpos e seus modos de vida. Porém, numa coisa Clarice estava certa: aquilo era realmente um vislumbre do Inferno.

Clarice, embora dominada por mais uma obsessão – a de sumir dali o quanto antes – não conseguia se livrar da imagem de sua protetora. Havia se arrependido de deixá-la para trás. Começava a sentir que entre elas havia um forte laço, algo talvez... familiar! Pareceu-lhe absurdo cogitar esta possibilidade, mas o sentimento era agora muito forte. Deveria retornar? Não sabia.33 Estava confusa demais para entender o que se passava; só conseguia pensar que preferia que aquilo não passasse de um pesadelo.

Mas tudo era muito real.

A verdade é que não havia esperanças naquele lugar, conhecido como Planalto Central de Lata. Não depois da má utilização do U-235[1] e do acordo nuclear que, naquela realidade, fora assinado com um país outrora conhecido como Pérsia. Foi isso que, quatro dias depois de ter deixado sua amiga, Clarice descobriu numa espécie de biblioteca abandonada, que, além de velhos livros, tinha também alguns registros históricos em vídeo. A descoberta deixou-lhe desnorteada: ela realmente viajara pelo continuum espaço-tempo, adentrando uma espécie de universo paralelo. Deixando o medo e o asco de lado – e observando tudo apenas pelo lado científico – aquilo era fascinante!

Com as pernas doloridas, Clarice procurou um lugar naquela biblioteca onde pudesse descansar um pouco. Encontrou uma pequena sala marmorizada – talvez o único ambiente razoavelmente limpo que existia em Lata. Um tanto aliviada, decidiu fazer daquele local deserto sua moradia provisória. Depois de suspirar fundo duas vezes, fechou seus grandes olhos negros, recostou-se a uma parede e deixou seu corpo cansado descer até o chão. Lembrou-se de que Ísis estava escondida perto do pátio no qual desembarcara semanas atrás e de que ainda havia na máquina combustível suficiente para pequenos deslocamentos. Abriu sua mochila (estava suja – argh!), tirou dela um pequeno aparelho em forma de elipse e apertou seu botão central. Segundos depois, Ísis materializou-se à sua frente. Clarice sorriu, orgulhosa diante de sua mais brilhante criação.

A princípio, a alagoana não pretendia desperdiçar o pouco combustível que restara, mas havia decidido trazer sua protetora e abrigá-la consigo naquela biblioteca. Lá as condições de vida eram bem melhores do que a residência da pobre mulher. A cientista estava cansada demais para andar todo o caminho de volta, então decidira usar Isis para buscá-la. Concluíra que o bem estar de sua protetora era mais valioso que o combustível que restava no reservatório da máquina.

Clarice digitou no pequeno aparelho que pegara em sua mochila as coordenadas para que Ísis a levasse de volta à moradia de sua protetora. Ao se aproximar do engenho, todavia, seu coração disparou: o mostrador de combustível tinha a luz azul acesa, indicando que o reservatório estava carregado com energia suficiente para longas viagens! A alagoana soltou um par de gritos histéricos, agitando os braços em direção ao céu, num misto de surpresa e alegria. Seus olhos, maculados pela secura do ambiente, não puderam lacrimejar. A sensação de querer chorar e não conseguir era bastante incômoda e Clarice acabou manifestando sua emoção entre soluços:

Mamãe estava certa: anjos da guarda existem!

Trêmula, Clarice ajeitou-se num dos dois únicos assentos da pequena Ísis. Ainda muito emocionada, bradou:

– Vou voltar agora mesmo para buscar minha amiga e a levarei comigo para uma Terra melhor!

E lá se foi a agitada Clarice, disposta a voltar acompanhada daquela infeliz criatura. Antes de acionar a partida, refletiu novamente sobre o semblante daquela mulher, que, de alguma forma, trazia nos traços disformes algo familiar.

- Estou sob estresse; minha mente deve estar confusa – disse a si mesma. E seguiu o caminho traçado.

Sim, estava estressada e confusa, mas não perdera sua intuição feminina e o poder de observação próprio dos cientistas. Instantes atrás, Clarice dissera a si mesma que anjos da guarda existem. E estava certa. O estranho é que, às vezes, eles podem ser as criaturas mais improváveis que aparecem em nossas vidas. Clarice tinha nojo de tudo que não lhe encantasse os sentidos, mas fora justamente aquela figura suja, maltrapilha e com ares de imbecilidade quem, de forma corajosa e altruísta, encontrara o combustível necessário e reabastecera sua incrível máquina.

Aquela mulher era a versão de Clarice naquele mundo alternativo. Criada em condições sub-humanas, não tivera meios de se tornar uma grande cientista, mas desenvolvera ao extremo seu instinto maternal e protetor, algo que a cientista não pudera fazer por muito tempo, devido à patologia que vitimou sua filha e à impossibilidade de engravidar novamente. A mulher vira em Clarice uma verdadeira filha e a tratara como tal.

Clarice chegou à residência de sua protetora exatamente no momento em que ela estava sendo atacada pelas fantasmagóricas figuras que faziam a segurança do galpão que a mulher assaltara. Dias depois, elas haviam finalmente descoberto a autora do roubo e conseguiram encontrá-la. A dicção das criaturas não era perfeita, mas a cientista identificou a expressão “ladra” e imediatamente compreendeu o “milagre” do reabastecimento de sua máquina. A bela alagoana pensou com rapidez e acionou uma das alavancas no painel à sua frente, simulando uma nova viagem: luzes multicoloridas tomaram conta do ambiente e conseguiram causar algum espanto naquelas criaturas sinistras, que se afastaram alguns passos.

A cientista não perdeu tempo e correu ao encontro da pessoa que a abrigara tão piedosamente. Tomá-la nos braços e arrastá-la até perto de Ísis não foi tão difícil quanto imaginara, pois a mulher estava muito debilitada fisicamente. A física novamente agiu com celeridade, mas as criaturas não demoraram muito para se recuperarem da surpresa causada pelas luzes ofuscantes. Clarice e sua protetora foram alcançadas antes que ingressassem na máquina. Com o coração quase saindo pela boca, a alagoana apressou-se em colocar-se à frente da mulher que a abrigara, protegendo-a com seu corpo. Uma batalha corporal iniciou-se e a franzina cientista parecia não ter chance contra aqueles seres. Sua única vantagem era a agilidade de seus movimentos, bem mais rápidos que os de seus adversários. De forma estabanada, lutou como pôde contra eles, mas estava sendo massacrada. Quando suas forças se esvaíam, Ísis decidiu surpreendê-la: por intermédio de alguma incompreensível energia, transportou a cientista e a frágil senhora para seus dois únicos assentos. A máquina demonstrava possuir vontade própria e acionou-se uma fração de segundos antes de serem atingidas pelas armas que as criaturas começaram a disparar.

No instante seguinte, já não estavam mais ali.

******

            De volta à nossa realidade, Clarice realizou o sonho de ser respeitada por todos no meio científico. Os exaustivos exames feitos na Clarice de Lodo comprovaram que as duas eram realmente a mesma pessoa. Assim, sua protetora tornou-se a maior prova de sua viagem àquela realidade. A cientista arapiraquense passou a ser conhecida como o maior expoente da ciência nacional, pois havia provado a existência de universos paralelos e realidades alternativas, o que descortinou um horizonte imenso de possibilidades, estimulando novas pesquisas e descobertas em vários ramos do conhecimento humano.

            Ísis tornara-se, naturalmente, a máquina mais famosa do mundo. E ambas – a obstinada cientista e seu improvável engenho – foram convocadas para participarem dos mais importantes congressos científicos mundiais.

Uma heroína? Não, Clarice não cedera à soberba de se julgar uma heroína. Era apenas uma boa física de partículas, que trabalhara bastante e conseguira atingir um objetivo improvável. Compreendia agora que fora uma heroína sim, mas durante o período de dois anos em que amara e cuidara de sua Júlia com bravura, fazendo de tudo para que ela não falecesse. Se possível, teria dado a vida para salvar sua garotinha. Isso sim é heroísmo, um heroísmo compartilhado por muitas outras mulheres. E fora exatamente isso que sua protetora fizera por ela, ao acolhê-la e depois arriscar a vida para que Clarice tivesse a chance de voltar à sua realidade.

Infelizmente, a boa senhora não resistira aos ferimentos que sofrera. Ela falecera, assim como a pequena Júlia, e transformara-se em mais uma saudade doída na vida da cientista alagoana. Entretanto, o exemplo daquela mulher suja, maltrapilha e de modos toscos, que ironicamente era uma faceta sua, acabou com os preconceitos da cientista. Seu legado ficaria impregnado em sua alma para sempre.

******

Dois anos depois do episódio, numa tarde de verão, Clarice lembrava-se com ternura da grande amiga que lhe abrira os olhos para as coisas mais importantes da vida. Matutava no quanto as duas eram diferentes sob vários aspectos, mas, ao mesmo tempo, iguais e complementares.

É assim que somos todos nós, humanos deste planeta: diferentes na aparência, mas essencialmente iguais – refletia com emoção a cientista. Quando finalmente percebermos que somos frutos da mesma semente, aprenderemos a amar a todos e a jamais deixar alguém sozinho, mesmo que suas condições nos causem repugnância. Para tanto, não é preciso ser cientista, tampouco viajar no tempo ou no espaço: basta ouvir a voz de nossa consciência.

No fim das contas, tudo valera à pena, inclusive sua dedicação incansável à ciência, que tantas horas de sono haviam lhe custado. Afinal, se não fosse por Ísis, a deusa da maternidade e da fertilidade, Clarice não teria viajado àquele universo alternativo onde reencontrou em si o mais nobre sentimento que a Natureza nos concedeu.

Sim, Ele – o Amor.

Protetor e Maternal.




[1] U-235 é o nome científico utilizado para designar uma forma de urânio enriquecido.