domingo, 9 de agosto de 2015

Conto: Mente Viva


Em um universo alternativo...


Sou um maculado: tenho o maldito “M” tatuado em meu ombro direito. Isto, caros leitores, significa que já fui autuado pela Polícia do Pensamento. Estava lendo às escondidas num trem do metrô paulistano, entre as estações República e Santa Cecília. Tinha em mãos uma surrada edição de bolso do romance Água Viva, escrito por Clarice Lispector, a autora preferida de minha querida Maria. De nada adiantaram meus desajeitados esforços para ocultar o pequeno livro. Nem mesmo minha jaqueta de couro conseguiu camuflá-lo dos olhos de um policial sardento e sisudo que rondava à paisana aquele vagão. Mas também... que ideia a minha – ler em público! É preciso ser muito ingênuo para fazer isso. Ou louco.

E eu acho que sou as duas coisas.

Desde que o Decreto Proibitivo da Leitura foi aprovado pela Nova Ordem Militar, todos os livros existentes começaram a ser queimados. Sim, é a vida imitando a ficção de Bradbury! No início, esperou-se que cada habitante de nosso país entregasse seus exemplares nas unidades da recém-criada Polícia do Pensamento. Quem não o fizesse, estaria sujeito a penalidades que passaram a ser executadas pelos carrascos instituídos pela Nova Ordem. Quase sempre, eram impostas torturas psíquicas que causavam danos ao cérebro. Como consequência, a capacidade de intelecção era afetada e as pessoas passavam a apresentar um irreversível retardo mental.

Historicamente, nossos governantes sempre quiseram o povo burro e manipulado, mas antes isso era dissimulado. Agora, tudo estava às claras. Pelo menos, o inimigo mostrava finalmente sua verdadeira face.

Meses depois, os agentes da Polícia do Pensamento passaram a invadir as casas e subtrair todos os livros encontrados, queimando-os em seguida. Por fim, entregavam os “criminosos” aos malditos e asquerosos carrascos. Muitas pessoas resistiram bravamente, mas esta bravura não lhes custou apenas a sanidade: custou-lhes também a própria vida. Nesta segunda fase da operação, a brutalidade aumentou exponencialmente. A busca por conhecimentos, o culto ao intelecto e o exercício do raciocínio passaram a ser sinônimo de fuzilamento sumário. Apenas alguns – os oCultos – conseguiram esconder alguns exemplares e fugirem em seguida para abrigos precários construídos no subsolo.

Eu não tive coragem de tentar fazer isso, mas Maria teve. Minha querida Maria. Ela havia me falado sobre o alçapão camuflado em seu quintal e também do pequeno esconderijo que construíra para os livros que tanto amava. Assim que eu soube que os investigadores haviam passado pela rua onde ela morava, fui pra lá correndo para ver se estava tudo bem. Porém, encontrei apenas seus livros. De Maria, nem sinal. Tomei a liberdade de pegar um pequeno exemplar, aquela edição de bolso que encontraram comigo no metrô. Era para ser algo que eu pudesse ler e reler às escondidas, sem despertar suspeitas. Para celebrar Clarice e recordar Maria.

Isso, é claro, se eu fosse esperto. Já sabemos que não sou.

Como veem, tornou-se quase impossível ter um livro em casa e um verdadeiro suicídio portar um exemplar em público. Por mais que você tente ocultá-lo, há sempre um par de olhos atentos, ansiosos para denunciar o Portador e ganhar o bônus oferecido pelos investigadores. Este bônus, tão desejado pelos vassalos (assim chamamos os que se curvaram às imposições da ditadura), nada mais era que poleron – a droga utilizada pelos ditadores golpistas para controlar a mente dos vassalos. Sim, nos denunciam em troca de algumas ampolas de uma droga que os mantém imbecilizados. O poleron é um produto químico injetável, que conduz seus usuários – segundo estudos clandestinos, quase noventa por cento da população brasileira – a universos oníricos, criados e controlados pelos programadores oficiais da Inteligência dos Costumes, órgão diretamente subordinado à Junta Provisória que assumiu o poder há algumas décadas.

Sinto falta de Maria. Gostaria ao menos de saber se ainda está viva, embora não me iluda muito com esta possibilidade. Ela foi uma das primeiras líderes dos oCultos, minha idealista ex-namorada que eu ainda amo e admiro tanto, a mulher que abriu meus olhos e que acertava ao dizer que eu não teria coragem de me contrapor ao Sistema.

Mas isso mudou. Ah, isso mudou bastante. Felizmente, a lucidez de Maria deixou uma semente em mim.

Quando fui abordado pela Polícia do Pensamento, criei uma verdadeira balbúrdia dentro do metrô lotado. Livrei-me do livro, tomei alguns sopapos, fui autuado e até ganhei o tal “M” no ombro, mas a prova de minha culpa sumiu no meio da confusão. Por incrível que pareça, acabei sendo liberado ao final da autuação. Algumas pessoas disseram que eu era inocente. Felizmente, ainda existe gente boa. Isso ajudou muito. Com o clamor deles, ficou difícil para os policiais me levarem (sabe Deus para onde). O povo, quando unido, ainda tem alguma força. Tá certo que fiquei maculado com a autuação, mas no final das contas sei que tive muita sorte. Hoje em dia basta uma mera suspeita para a prisão e as torturas. A comprovação da posse de apenas um exemplar já é suficiente para a pena de morte.

O mais importante é que este acontecimento despertou-me de vez. Antes que eu passasse a ser vigiado de perto (e certamente eu viria a ser), voltei à casa de Maria e peguei mais alguns exemplares. Decidi abraçar pra valer a causa dos oCultos. Agora, estou em um esconderijo nojento no subsolo do coração de Sampa, junto a mais dez malucos que ousaram desafiar o corrupto poder reinante. Estamos tentando colocar em funcionamento uma parafernália eletrônica construída para nos comunicarmos com outros insurgentes e também para espionar a inteligência artificial que gerencia e protege cada passo dos membros da Junta Provisória. Sentimos fome e sede, mas precisamos ter muito cuidado ao buscar alimentos. Eles já sabem de nossa existência. Somos oficialmente fugitivos e agora estão à nossa caça. Não veem a hora de nos punir exemplarmente.

Lembro-me que há algum tempo, enquanto a Democracia ainda vigorava, mas a Economia não andava bem, algumas pessoas clamavam pela então denominada “intervenção militar constitucional”. Bem, essa Ditadura insana que agora nos governa é o resultado do clamor destas pessoas. Que fique registrado para as próximas gerações que não existe, jamais existiu e tampouco existirá algum dia uma intervenção militar “constitucional”, a não ser que se trate de uma Constituição imposta por eles. A Democracia, ainda que tão desvirtuada por governantes corruptos (e sempre tivemos muitos deles, eu sei bem disso), ainda é a melhor opção. Chamem-na de “menos pior” se preferirem, mas não voltem a trocá-la pela truculência militar.

Para mudar esta situação, muito sangue terá de ser derramado. É muito triste isso. Pelo menos, espero que esta lição tenha sido definitivamente aprendida pelo povo brasileiro:

DITADURA NUNCA MAIS!



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