sábado, 29 de dezembro de 2012

Clifford Simak - As Cidades Mortas (Os Cães herdarão a Terra?)

São poucos os leitores brasileiros que conhecem o escritor norte-americano Clifford Simak. Aqui no Brasil, até onde sei, apenas duas obras de sua autoria foram publicadas: Boneca do Destino e Cidade (também conhecida como A Cidade no Tempo). Em Portugal, este último foi editado com o título As Cidades Mortas e lançado pela Coleção Argonauta, edição nº 117. Foi este volume que tive o prazer de ler. Recentemente, consegui adquirir uma edição nacional (acima).

Todas as edições em português, sejam de Cidade, sejam de Boneca do Destino, são muito antigas. Uma pena, pois são excelentes obras de ficção científica/fantasia, que seriam aprovadas com louvor até pelos leitores mais exigentes.

As Cidades Mortas não é um romance, tampouco uma mera reunião de escritos dissociados. É o que se pode chamar de “fix-up”. Há um encadeamento de ideias, uma espécie de sequência lógica entre os textos. Os oito contos reunidos nesta edição (Simak escreveu um epílogo posteriormente) formam uma obra coesa e lembram, sobretudo no tom poético e na criatividade, As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Porém – atrevo-me a dizer – City (título original) é ainda melhor!

A obra retrata o fluxo do tempo no futuro da Terra, com os seres humanos descobrindo criaturas que coabitam nosso mundo, porém noutra dimensão (os chamados "penantes") e também fazendo os primeiros contatos com habitantes de outros planetas, dentre eles os marcianos e os moradores de Júpiter, conhecidos como “galopadores”. Aliás, ao descobrir que os galopadores conseguem usufruir de toda sua capacidade cerebral, além de viverem durante um tempo bem maior que os humanos (e desfrutando de um aprendizado muito mais profundo), os terrestres... bem, não quero revelar muitos detalhes da trama, para não estragar a surpresa dos que ainda não conhecem o livro.

O que posso dizer, sem revelar muito, é que a história humana é contada a partir do ponto de vista dos representantes da família Webster e de um "autômato". Foi um dos Webster quem primeiro ensinou um cão a falar. A partir daí, milênios vão se passando e Simak demonstra toda sua habilidade literária, produzindo uma obra marcante, que não apenas cativa o leitor, mas de alguma maneira o insere na história, levando-o a imaginar como seria o mundo tal como é descrito no livro. Com sagacidade, o autor nos conta de que forma os cães – muitos mais ponderados e pacifistas que o homem – começam a se tornar a espécie dominante na Terra (embora tenham que disputar território com as formigas). Outro detalhe interessante: os comentários inseridos entre os contos dão a entender que teriam sido os próprios cães os editores do livro. E o curioso é que os tais editores questionam se a espécie humana teria de fato existido, ou se aqueles textos teriam sido fruto da engenhosa imaginação de alguém.

Implícitos na obra, um questionamento moral e uma coerente visão de futuro: será que o destrutivo ser humano merece continuar no comando da Terra, com todas as atrocidades que não se cansa de cometer? Ou será que nosso planeta estaria em melhores mãos, se guiado por criaturas que dão mais valor ao amor e à amizade, como os cães?

Simak foi um autor genial. Merece ser lembrado pelos editores brasileiros.

Que não caia no esquecimento.


Adendo: depois de fazer esta resenha, li também Estação de Trânsito, do mesmo autor. Outra obra prima! 

2 comentários:

  1. Oi, Ricardo.
    E você está só começando a conhecer Simak... espere para ler "Reserva dos duendes" ou "Onde mora o mal". Mas, "City" é de fato uma epopéia monumental e um dos meljhores livros escritos no século XX.

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  2. Com certeza, o melhor livro de ficção que já li. É uma obra publicada no Brasil pela GRD em 1961 (ainda tenho o exemplar comprado na Livraria Dinucci naquele mesmo ano). É um livro para ser lido repetidamente. Deixe-se levar pelos 10.000 anos da familia Webster.

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