sábado, 4 de agosto de 2012

Fábula da Criação

Imagem: Krishna baby - usada apenas a título ilustrativo (desconheço a autoria)

Poucas pessoas sabem, mas o Criador é uma eterna criança, um enigma que existe desde antes do big bang, a explosão inicial. Nasceu sem pai, sem mãe e sem saber a razão de sua existência. Era uma criança órfã e triste.

Durante eras, nosso universo observou com carinho a criança solitária que o precedeu, até que ficou compadecido de sua solidão. Decidiu, então, conceder-lhe o poder da criação, pois assim a criança poderia inventar jogos e brincadeiras para se distrair.

Mas a criança superou as expectativas do universo. Primeiro, organizou toda a matéria nele existente e criou galáxias de magnífica beleza. Depois, notando-as distantes entre si – e solitárias, como ela – a criança construiu túneis em locais estratégicos, para que lhes servissem de atalhos. E, percebendo-as vazias de conteúdo, as recheou com planetas dos mais variados tamanhos, composições e cores. Desde tenra idade, como podem notar, a infante criatura mostrou-se inteligente e engenhosa, além de demonstrar preocupação com o bem estar de todos os seres.

O tempo se passou e a criança percebeu que os planetas não estavam felizes, pois eram muito calados. Foi então que, com amor e esmero, criou seres para habitá-los. Alguns deles eram feitos de matéria; outros, de pura energia. Todos, no entanto, eram como páginas em branco, com potencial para se tornarem bons ou maus. Sim, pois a criança era sábia: concedera às suas criaturas o dom do livre arbítrio!

Dentre todas as formas de vida criadas pela sábia criança, as mais complexas eram conhecidas como seres humanos. Não, não as mais evoluídas, tampouco as de maior capacidade ou inteligência – apenas as mais complexas. Os humanos foram feitos à sua semelhança e, assim como ela, possuíam uma infinidade de desejos, sentimentos e pseudonecessidades difíceis de serem gerenciados. É a história destas criaturas que vou lhes contar.

Quando criou o primeiro ser humano, a criança emocionou-se. Ela o fizera bem mais alto que ela e com uma aparência madura, pois precisava de alguém que lhe inspirasse confiança. Foi assim que nasceu o homem. A criança o chamou de pai, mas também de filho. A essa criatura, ela deu o nome de Ariel.

Ariel foi enviado para um belíssimo planeta, repleto de florestas e mares esverdeados, localizado em um sistema estelar binário, próximo à região central da galáxia de Andrômeda. Por alguns dias, Ariel viveu feliz ali, mas logo começou a sofrer de um mal que a criança conhecia muito bem: a solidão. Deprimido, Ariel pediu à criança divina que criasse alguém com quem pudesse compartilhar sua vida.

Seu pedido foi atendido. A criança criou um ser um pouco diferente de Ariel, com o objetivo de que lhe servisse de complemento. Foi assim que surgiu a primeira mulher. A criança chamou-a de mãe, mas também de filha. A essa criatura, ela deu o nome de Liriel.

Quando contemplou sua nova criação, o Criador-criança viu-se diante de um ser harmonioso em suas formas e sensível em suas emoções. O infante primordial notou, com alegria, que Liriel era muito amorosa. Um sorriso de satisfação iluminou sua face. Seus olhos, grandes e negros, lacrimejaram de felicidade. Desejou que Liriel ficasse com ela para sempre, pois se sentia amada e feliz ao lado dela, como jamais fora em toda sua longa existência. Mas, por amor a Ariel, a criança a enviou para ser sua companheira.

Em pouco tempo, Ariel e Liriel tornaram-se amigos. E não tardou para que se apaixonassem. Como fruto dessa paixão, muitos seres humanos foram gerados, milênio após milênio, no ventre de Liriel. Uma imensa prole foi construída.

Apesar de seus muitos afazeres em outros recantos, a criança – que não mais se sentia órfã, tampouco solitária – sempre os visitava. E, por inúmeras gerações, todos naquele planeta foram como pais e filhos e, ao mesmo tempo, como filhos e pais. A criança deu a isso o nome de família e percebeu que esse era o fruto mais sublime de todo nosso universo. "Abençoada seja a família", disse a criança bendita.

Muito tempo se passou. Ariel, Liriel e seus descendentes evoluíram ainda mais em inteligência e espiritualidade, até se tornarem seres cuja sabedoria aproximava-se à da divina criança. "Eu os promovo a anjos" – celebrou a criança – "e lhes peço que me auxiliem na manutenção da harmonia do universo". Todos no planeta responderam-lhe "sim", pois aquela criança era a síntese do amor. E, ao amor – os anjos bem sabem – nunca se deve dizer não.

Animada, a criança desejou propagar a semente da humanidade. E assim o fez. Primeiro, em todos os sistemas estelares de Andrômeda; depois, por todas as galáxias. Até nos mais longínquos rincões do universo, seres humanos foram criados e se multiplicaram, vivendo em paz e harmonia. Entretanto, houve um grande contratempo: num pequeno planeta azul situado na Via Láctea, o amor não frutificara. Pela primeira vez desde o início dos tempos, ele fora suplantado pelo ódio e pela desconfiança.
  
Foi assim que o destino dos anjos de Andrômeda cruzou-se com o dos humanos da Terra: a eterna criança encarregou os anjos da árdua tarefa de iluminar o coração dos habitantes daquele pequeno planeta azul, que haviam sucumbido ao lado menos nobre da complexidade humana, impedindo que o amor frutificasse. Disse a criança: "Ajudem vossos irmãos, porém sem jamais interferir em seu livre arbítrio".

É por esta razão que, há milênios, os anjos viajam em suas naves camufladas desde Andrômeda até a Terra e submergem nos oceanos terrestres. Lá, eles aguardam os momentos mais oportunos para exercerem sua influência benigna sobre nós, fornecendo-nos exemplos edificantes.
  
Os anjos de Andrômeda chegam aos grupos em nosso planeta. Desde que surgiram as primeiras civilizações da Terra, eles têm se revezado no período em que permanecem aqui. São nossos tutores espirituais, incansáveis semeadores do bem. E, ao contrário do que pensam alguns, jamais se rebelaram, tampouco se subdividiram em castas, pois seu lema é união e igualdade.

Alguns anjos destacaram-se em seus esforços na Terra, como Siddhartha Gautama, Jesus Cristo e Mahatma Gandhi. Eles deixaram entre os humanos de nosso planeta mensagens de amor que não foram compreendidas na época em que aqui estiveram. Sofreram com a incompreensão, mas a semente que plantaram ainda pode frutificar. E, se necessário, outros como eles virão.

Estes amigos do espaço têm trabalhado com afinco, na esperança de que um dia possamos fazer parte da imensa família universal, junto a seres corpóreos, incorpóreos e de pura energia, pois este universo, graças à ação da criança bendita, é um local onde todos são filhos, irmãos, pais e mães ao mesmo tempoNão há hierarquias, tampouco importa a origem ou aparência de cada um. Nesta família, a liberdade e a fraternidade são supremas. A única lei que nela existe é a lei do amor, uma lei que ainda não aprendemos a respeitar.
  
Na verdade, uma lei que sequer compreendemos muito bem.

Ainda.

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