domingo, 26 de agosto de 2012

Ísis

( Imagem: Concepção artística da deusa egípcia Ísis - desconheço a autoria ) 

Quase todos os dias, Clarice esgueirava-se pelas ruas penumbrosas daquele fétido vilarejo, observando cautelosamente as apáticas criaturas do lugar. Eram breves incursões; o medo a impedia de ir longe. Os seres que via eram estranhos e tinham modos primitivos. Seria uma civilização alienígena em seus primeiros passos? Clarice não fazia ideia. Só sabia que se sentia desconfortável perante eles.

O que mais a incomodava era o cheiro: as criaturas exalavam um odor desagradável, que podia ser sentido mesmo a longa distância. E aquele pedaço de fim de mundo era a coisa mais suja e asquerosa que vira em toda sua vida! Para uma obsessiva compulsiva por limpeza, um cenário como aquele parecia ser o pior dos pesadelos. Um pesadelo que se tornara tão real quanto seus medos e manias.

Ísis, sua nave improvisada, de alguma maneira a levara até ali. A construção daquela engenhoca tornara-se o maior orgulho da carreira de Clarice. Desde que sua filhinha falecera, com apenas dois anos de idade, a ciência passara a ser a única coisa que lhe interessava na vida. A criança sofrera por mais de seis meses com uma doença devastadora e, embora Clarice tivesse se desvelado em cuidados, peregrinando por médicos e hospitais e buscando tratamentos alternativos, a doença acabara vencendo a guerra. Clarice pensou que também morreria; quase enlouqueceu. Para piorar, em razão das sequelas oriundas de complicações que tivera no parto de Júlia, não mais podia engravidar. Parecia não haver mais nada que pudesse motivá-la a seguir adiante.

Deprimida, Clarice decidira se isolar das pessoas. O casamento ruiu, ela se afastou dos pais, tornou-se agressiva com os amigos, abandonou seu grupo de trabalho e passou a se dedicar sozinha ao grande projeto de sua vida. Tinha verdadeira obsessão por ser mãe, mas a Natureza destruiu suas esperanças. A partir de então, criou uma obsessão para substituir outra. Agora, Ísis era, ao mesmo tempo, sua filha, seu marido, seus amigos e, principalmente, sua companheira de trabalho. Sem sua Julinha, o trabalho era a única coisa que ainda lhe importava. Se não podia ser mãe, haveria de mostrar ao mundo o melhor do que restara de si: sua capacidade como cientista. Tinha que deixar sua marca no mundo, um legado, algo para provar que não vivera em vão. Com esse objetivo impregnado em sua mente, entregou-se de corpo e alma ao Projeto Ísis.

Clarice esperava que o protótipo estivesse pronto em três ou quatro anos, quando a humanidade adentrasse a sexta década do século XXI. Porém, graças à inesperada ajuda do Governo, que lhe fornecera uma amostra de um combustível experimental, seu invento parecia ter dado frutos antes do imaginado. A matéria-prima fora encontrada nos novos campos de pré-sal nordestino e era processada em sigilo numa base tecnológica construída pelo governo nas imediações do cerrado goiano.

Será que conseguira? Será que estava mesmo na Terra, numa outra época, como pretendia?

Bem, não era o que parecia. Aquele lugar era estranho demais para ser nosso planeta. E o pior: a cientista não encontrara mapas, muito menos computadores, ou qualquer outra mídia que a permitisse descobrir onde (ou em qual época) havia desembarcado. Ela vira apenas pequenas máquinas, cuja posse as criaturas disputavam com extrema violência. Sua utilização parecia provocar um efeito viciante sobre elas, que ficavam desesperadas se não pudessem manipular aqueles aparelhos. Talvez – pensou Clarice – fosse uma espécie de droga tecnológica.

Tudo era muito sinistro: paisagens, clima, construções. O Sol era tênue e parcialmente bloqueado por substâncias coloridas que pairavam na atmosfera. Na superfície, a cientista de cabelos negros encaracolados não avistara um animal sequer. E os habitantes do lugar, embora humanoides, não pareciam exatamente seres humanos. Tinham tronco, braços, pernas e crânio, mas eram disformes. A pele deles excretava uma substância amarelo-ouro, um tanto pastosa...

– Argh! – gritava Clarice a cada vez que via aquilo.
( Imagem: ilustração criada por Walter Tierno - www.waltertierno.com )

Ela chegara ali há alguns dias. Seu insólito transporte, construído a partir de uma nova liga metálica, era de um prateado ofuscante. Repleto de alavancas que rangiam ao serem acionadas, lembrava em seu interior um engenho do século XIX. As linhas curvas e delgadas, próprias dos equipamentos fabricados em meados do século XXI, encontravam-se na parte externa do aparelho, que era envolvida por uma fina película de material transparente, em formato elíptico, a imitar uma espécie de casca protetora. Clarice batizara sua máquina de Ísis, em homenagem à deusa egípcia da maternidade e da fertilidade – uma forma de continuar sentindo-se mãe.

Ísis era uma espécie de acelerador de partículas, com pouco mais de três metros de comprimento, dotado de um microcomputador senciente e incrementado por um mecanismo robótico, que amplificava as reações químicas que ocorriam em seu reservatório de combustível. Um projeto visionário, que havia se tornado motivo de piadas entre seus colegas cientistas.

Em seu íntimo, Clarice agora desejava que eles estivessem ali para ver o que Ísis era capaz de fazer. Seria sua desforra. Queria ver a cara de espanto deles, dar boas risadas e lhes provar, de forma definitiva, que não era nenhuma “desmiolada”, como costumavam dizer. Talvez, até, gritaria em seus ouvidos algo do tipo: "Seus idiotas, eu consegui! Riam de mim agora!"

A bem da verdade, Clarice não sabia onde fora parar, mas era evidente que fizera uma viagem fantástica. Ao que tudo indicava, Ísis criara um vórtice. Ele conduziu a máquina e sua inventora até um lugar lúgubre, que parecia um pátio abandonado. Clarice recordava-se com detalhes do momento de sua chegada. Era noite e fazia um frio de quebrar os ossos. O ar estava seco, o vento uivava com raiva e o corpo delgado da jovem cientista tremia sem parar. Repleta de misticismos em sua mente supersticiosa, ela teve a sensação de que o lugar abrigava energias muito pesadas. Fora dominada por um medo tão intenso, que não se atrevera a esboçar qualquer movimento. O ódio parecia estar no ar – dava para sentir na carne! Era um ódio invisível, mas que entrava pelos poros. Ardia. A física alagoana jamais sentira tanto medo em sua vida.

Num canto escuro, uma senhora frágil, suja e maltrapilha a observava, num misto de espanto e medo. Ao ser notada, a mulher fez menção de fugir; deu dois passos, mas parou. Olhando com preocupação para os lados, de repente acelerou os passos tortos até alcançar Clarice. Deu-lhe um estranho agasalho, velho e surrado, mas muito bem-vindo. Depois, tocou a face da cientista e acariciou seus cabelos limpos e perfumados, intrigada. Parecia sentir pena de Clarice. Tinha apenas quatro dedos nas mãos, longos e escurecidos, e olhava para ela com carinho e desconfiança: estava hesitante, mas decidiu acolhê-la. Com seus modos desajeitados, retirou-a de Ísis e fez sinal para que a seguisse.

Caminharam até o casebre onde a mulher residia. Clarice relutou um pouco, mas entrou na habitação. Uma espécie de chá, quente e amargo, foi servido. Nenhuma palavra. Depois, com o estômago revirado, a cientista foi conduzida até um nicho insalubre, no qual deveria dormir. Ou tentar...

No dia seguinte, Clarice fez muitas perguntas, mas sua protetora era uma pessoa de poucas palavras. Na verdade, de palavra alguma. A princípio, pareceu-lhe que a mulher não entendia sua língua, o que não era de se admirar. Tentou se comunicar por intermédio de gestos, mas não adiantou. Também a língua inglesa parecia não ser compreendida. Num dado momento, exaurida, Clarice riu de si mesma:

– Oras – balbuciou –, o que eu esperava? Que num outro planeta as pessoas falassem os mesmos idiomas que as criaturas da Terra?

Dias depois, no entanto, veio a grande a surpresa: aquele estranho ser, naquele lugar que dava calafrios, pronunciou algumas palavras em língua portuguesa! Mas a mulher não concatenava as ideias. Às vezes, declamava frases desconexas: “Aqui é Lodo; Lata é a cidade. Um, dois, três, cinco... Ira, ira!”.

O que significaria aquilo? Provavelmente, aquela senhora enlouquecera. Ao menos, pensava Clarice, não parecia perigosa como os outros que vira. Um alívio e tanto para quem se sentia dentro de um filme de horror de quinta categoria...

A casa exalava um cheiro forte. Era um odor diferente dos ambientes exteriores, mas também algo que Clarice jamais aspirara (e que certamente preferia não ter aspirado). A cientista estava se acostumando a viver com náuseas.

As construções pareciam feitas de um material gelatinoso; um dourado dúbio, ludibriador. Alguns prédios singulares, que pendiam ora para o lado esquerdo, ora para o lado direito, estavam a ponto de desmoronar. A decadência era visível; o cenário, assustador. Era insano viver ali.

Clarice desejava, o quanto antes, encontrar um meio de voltar. Tinha o instinto exploratório próprio dos cientistas, mas sentia nojo das criaturas que vira e detestara aquele lugar. Sua única prioridade era descobrir o necessário para colocar Ísis em funcionamento e retornar para seu pequeno centro de pesquisas.

"Pequeno, mas asseado" – pensava, torcendo o nariz fino e delicado.

Mas a física de partículas não tinha como voltar, pois Ísis gastara quase toda sua energia naquela viagem. Tornara-se imprescindível encontrar um meio de reabastecer a máquina. Para isso, a cientista precisaria conhecer melhor aquele lugar. E, se não encontrasse uma forma de realimentar Ísis, a única alternativa seria aprender a viver ali, algo que preferia nem sequer cogitar.

De qualquer forma, tinha que se misturar entre eles, descobrir o que poderia significar aquele “1, 2, 3, 5, ira, ira”, ou coisa parecida. Pediu diversas vezes à sua protetora que lhe falasse mais sobre Lodo; porém, não sabia se por medo ou por falta de lucidez, sua única amiga ali teimava em repetir coisas sem nexo. A mulher parecia ter endoidado de vez.

Assustada, Clarice sentia-se só, num mundo para lá de esquisito. Não tinha com quem contar. Quase entrou em desespero, mas era necessário juntar coragem e agir. Investigar, desvendar – exatamente como gostava de fazer, desde criança, quando estava diante de um filme ou livro de suspense. Após três semanas em Lata, finalmente decidiu que no dia seguinte iria encontrar uma maneira de conhecer melhor aquele lugar.

– E de reabastecer Ísis – murmurou, tentando juntar coragem.

Clarice dormiu mal naquela noite, a exemplo das anteriores. Lavou-se como pôde, com a água turva que havia na casa. Como trouxera consigo um vidro de perfume (sempre o trazia em sua pequena mochila), decidiu vaporizar um pouco em seu pescoço: fora a maneira que encontrara de combater os odores desagradáveis que tudo (e todos) exalavam.

Naquele dia, notou que sua protetora não era tão alienada quanto lhe parecera. A mulher percebeu que a jovem perfumada pretendia partir e apressou-se em lhe fornecer alguns alimentos. Na verdade, era quase tudo o que possuía na casa. Clarice ficou surpresa e emocionada; seus olhos marejaram.

– Um, dois, três, cinco – disse a senhora, com os olhos arregalados.
Ela sequer sabe contar, pensou Clarice, com ar aborrecido.

– Ira, ira! – completou a estranha mulher, apertando os ombros de Clarice.

Era uma criatura bondosa. Clarice começava a se afeiçoar por ela, mas não podia continuar ali. Precisava encontrar um jeito de voltar para o seu devido lugar, no tempo e no espaço. Com esse pensamento, deu um beijo no rosto daquela senhora, com os olhos molhados e o nariz enojado. Abraçou-a, com repugnância e carinho. A mulher grunhiu e recuou um passo. Recebera o abraço com a surpresa de quem vê o mar pela primeira vez. Segundos depois, Clarice podia jurar que a mulher tinha o amor estampado nos olhos e parecia tentar encontrar uma maneira de não deixá-la partir. A alagoana hesitou por um momento, mas acabou abrindo a porta e deixando a habitação.

– Cuidado – ouviu ao longe. A voz da maternal criatura estava embargada e emocionou a cientista, mas não mudou seus planos de seguir adiante.

******

O ar estava mais seco que de costume e queimava seus olhos e garganta com voracidade. Após caminhar com dificuldade por alguns quilômetros, Clarice vislumbrou ao longe uma fantasmagórica arquitetura, que pareceu chocar suas sinapses. Uma sensação de dèja-vu apoderou-se dela. Num relance, lembrou-se de uma obra de Niemayer.

"Não, não pode ser", pensou, um tanto confusa. E prosseguiu, voltando a maquinar em sua mente onde poderia começar a procurar pelo valioso combustível. Se é que havia alguma possibilidade de encontrá-lo naquele lugar...

Clarice caminhou por muitas horas, abastecendo-se com frequência da água que trouxera e praguejando contra tudo que encontrava pelo caminho.

Enquanto caminhava, alerta, pelas ruas sombrias, vaporizou mais um pouco de perfume em volta de seu tronco, tentando não ser contaminada com o cheiro horrível que sempre estava no ar. Depois de muitos tropeções, vociferou:

– Este lugar não pode ser um planeta! Deve ser o próprio Inferno!

As maiores dificuldades, todavia, estavam sendo enfrentadas por sua corajosa protetora. A mulher tinha a mesma estatura que Clarice e uma compleição física muito parecida, mas estava fraca e envelhecida, por certo devido às condições absurdas que tinha que enfrentar para sobreviver. De alguma forma, ela sabia o que faltava para que Clarice realizasse sua tão sonhada jornada de retorno, assim como onde encontrar o valioso produto. Mancando bastante, a mulher conseguiu conduzir seu corpo frágil até um imenso galpão, repleto de containers parcialmente destruídos, mas muito bem vigiados por figuras humanoides assustadoras, que pareciam fazer o policiamento do local. Tomando todas as precauções para não ser notada, instalou uma geringonça num canto lúgubre do salão e escondeu-se atrás de um dos containers. Pouco mais de dez minutos depois, o aparelho instalado promoveu uma verdadeira algazarra no local, emitindo uma escandalosa sirene.

Em instantes, as figuras assustadoras que tomavam conta do lugar correram em direção ao artefato. Aproveitando a oportunidade, mesmo com toda a dificuldade que tinha para caminhar com rapidez, a mulher conseguiu adentrar um dos containers e se apoderar de uma pequena caixa azul cobalto. Era bem mais inteligente do que aparentava ser. Com cuidado, escondeu-se novamente entre algumas caixas e aguardou o momento certo para sair dali. Depois, perambulou por mais alguns quilômetros até chegar, exaurida, no local onde Ísis estacionara no dia da chegada de Clarice.

Felizmente, ninguém a alcançara.

Ao menos, até aquele momento.

******

Num outro canto da cidade, a física, sempre obcecada por seus medos e manias, ainda não percebera que estava numa espécie de Brasil alternativo da segunda metade do século XXI: um lugar onde as pessoas não viviam, apenas tentavam sobreviver. A guerra nuclear afetara suas mentes, seus corpos e seus modos de vida. Porém, numa coisa Clarice estava certa: aquilo era realmente um vislumbre do Inferno.

Embora dominada por mais uma obsessão – a de sumir dali o quanto antes –, Clarice não conseguia se livrar da imagem de sua protetora. Havia se arrependido de deixá-la para trás. Começava a sentir que entre elas havia um forte laço, algo talvez... familiar! Pareceu-lhe absurdo cogitar esta possibilidade, mas o sentimento era agora muito forte. Deveria retornar? Não sabia. Estava confusa demais para entender o que se passava; só conseguia pensar que preferia que aquilo não passasse de um pesadelo.

Mas tudo era muito real.

A verdade é que não havia esperanças naquele lugar, conhecido como Planalto Central de Lata. Não depois da má utilização do U-235* e do acordo nuclear que, naquela realidade, fora assinado com um país outrora conhecido como Pérsia. Foi isso que, quatro dias depois de ter deixado sua amiga, Clarice descobriu numa espécie de biblioteca abandonada, que, além de velhos livros, tinha também alguns registros históricos em vídeo. A descoberta deixou-lhe desnorteada: então ela viajara pelo continuum espaço-tempo, adentrando uma espécie de universo paralelo! Deixando o medo e o asco de lado – e observando tudo apenas pelo lado científico –, aquilo era fascinante!

Com as pernas doloridas, Clarice procurou um lugar naquela biblioteca onde pudesse descansar um pouco. Encontrou uma pequena sala marmorizada – talvez o único ambiente razoavelmente limpo que existia em Lata. Um tanto aliviada, decidiu fazer daquele local deserto sua moradia provisória. Depois de suspirar fundo duas vezes, fechou seus grandes olhos negros, recostou-se a uma parede e deixou seu corpo cansado descer até o chão. Lembrou-se de que Ísis estava escondida perto do pátio no qual desembarcara semanas atrás e de que ainda havia na máquina combustível suficiente para pequenos deslocamentos. Abriu sua mochila (estava suja – argh!), tirou dela um pequeno aparelho em forma de elipse e apertou seu botão central. Segundos depois, Ísis materializou-se à sua frente. Clarice sorriu, orgulhosa diante de sua mais brilhante criação.

A princípio, a alagoana não pretendia desperdiçar o pouco combustível que restara, mas havia decidido trazer sua protetora e abrigá-la consigo naquela biblioteca. Lá as condições de vida eram bem melhores do que a residência da pobre mulher. A cientista estava cansada demais para andar todo o caminho de volta, então decidira usar Isis para buscá-la. Concluíra que o bem-estar de sua protetora era mais valioso que o combustível que restava no reservatório da máquina.

Clarice digitou no pequeno aparelho que pegara em sua mochila as coordenadas para que Ísis a levasse de volta à moradia de sua protetora. Ao se aproximar de Ísis, todavia, seu coração disparou: o mostrador de combustível tinha a luz azul acesa, indicando que o reservatório estava carregado com energia suficiente para longas viagens! A alagoana soltou um par de gritos histéricos, agitando os braços em direção ao céu, num misto de surpresa e alegria. Seus olhos, maculados pela secura do ambiente, não puderam lacrimejar naquele momento. A sensação de querer chorar e não conseguir era bastante incômoda e Clarice acabou manifestando sua emoção entre soluços:

– Mamãe estava certa: anjos da guarda existem!

Trêmula, Clarice ajeitou-se num dos dois únicos assentos da pequena Ísis. Ainda muito emocionada, bradou:

– Vou voltar agora mesmo para buscar minha amiga e a levarei comigo para uma Terra melhor!

E lá se foi a agitada Clarice, disposta a voltar acompanhada daquela infeliz criatura. Antes de acionar a partida, refletiu novamente sobre o semblante daquela mulher, que, de alguma forma, trazia nos traços disformes algo familiar.

– Estou sob estresse; minha mente deve estar confusa – disse a si mesma. E seguiu o caminho traçado.

Sim, estava estressada e confusa, mas não perdera sua intuição feminina e o poder de observação próprio dos cientistas. Instantes atrás, Clarice dissera a si mesma que anjos da guarda existem. E estava certa. O estranho é que, às vezes, eles podem ser as criaturas mais improváveis que aparecem em nossas vidas. Clarice tinha nojo de tudo que não lhe encantasse os sentidos, mas fora justamente aquela figura suja, maltrapilha e com ares de imbecilidade quem, de forma corajosa e altruísta, encontrara o combustível necessário e reabastecera sua incrível máquina.

Aquela mulher era a versão de Clarice naquele mundo alternativo. Criada em condições sub-humanas, não tivera meios de se tornar uma grande cientista, mas desenvolvera ao extremo seu instinto maternal e protetor, algo que a cientista não fazia há muito tempo. A mulher vira em Clarice uma verdadeira filha e a tratara como tal.

Clarice chegou à residência de sua protetora exatamente no momento em que ela estava sendo atacada pelas fantasmagóricas figuras que faziam a segurança do galpão que a mulher assaltara. Dias depois, elas haviam finalmente descoberto quem fora a autora do roubo e conseguiram encontrá-la. A dicção das criaturas não era perfeita, mas a cientista identificou a expressão “ladra” e imediatamente compreendeu o “milagre” do reabastecimento de sua máquina. A bela alagoana pensou com rapidez e acionou uma das alavancas no painel à sua frente, simulando uma nova viagem: luzes multicoloridas tomaram conta do ambiente e conseguiram causar algum espanto naquelas criaturas sinistras, que se afastaram alguns passos.

A cientista não perdeu tempo e correu ao encontro da pessoa que a abrigara tão piedosamente. Tomá-la nos braços e arrastá-la até perto de Ísis não foi tão difícil quanto imaginara, pois a mulher estava muito debilitada. A física novamente agiu com celeridade, mas as criaturas não demoraram muito para se recuperar da surpresa causada pelas luzes ofuscantes. Clarice e sua protetora foram alcançadas antes que ingressassem na máquina. Com o coração quase saindo pela boca, a alagoana apressou-se em colocar-se à frente da mulher que a abrigara, protegendo-a com seu corpo. Mais uma vez, teve a rara experiência de ouvir a voz dela, embora fragilizada e quase inaudível:

– Obrigada – uma única palavra, mas pronunciada com tamanha sinceridade, que fez a cientista chorar.

Uma batalha corporal iniciou-se e Clarice parecia não ter chance contra aqueles seres. Sua única vantagem era a agilidade de seus movimentos, bem mais rápidos que os de seus adversários. De forma estabanada, lutou como pôde contra eles, mas estava sendo massacrada. Quando suas forças se esvaíam, Ísis decidiu surpreendê-la: por intermédio de alguma incompreensível energia, transportou a cientista e a frágil senhora para seus dois únicos assentos. A máquina demonstrava possuir vontade própria e acionou-se uma fração de segundos antes de serem atingidas pelas armas que as criaturas começaram a disparar.

No instante seguinte, já não estavam mais ali.

******

De volta à nossa realidade, Clarice realizou o sonho de ser respeitada por todos no meio científico. Os exaustivos exames feitos na Clarice de Lodo comprovaram que as duas eram realmente a mesma pessoa. Assim, sua protetora tornou-se a maior prova de sua viagem àquela realidade. A cientista de Maceió passou a ser conhecida como o maior expoente da ciência nacional, pois havia provado a existência de universos paralelos e realidades alternativas, o que descortinou um horizonte imenso de possibilidades, estimulando novas pesquisas e descobertas em vários ramos do conhecimento humano.

Ísis tornara-se, naturalmente, a máquina mais famosa do mundo. E ambas – a obstinada cientista e seu improvável engenho – foram convocadas para participar dos mais importantes congressos científicos mundiais.

Uma heroína? Não, Clarice não cedera à soberba de se julgar uma heroína. Era apenas uma boa física de partículas, que trabalhara bastante e conseguira realizar um feito impressionante. Compreendia agora que fora uma heroína sim, mas durante o período de dois anos em que amara e cuidara de sua Júlia com bravura, fazendo de tudo para que ela não falecesse. Se possível, teria dado a vida para salvar sua garotinha. "Isso sim é heroísmo", pensou a cientista, "um heroísmo compartilhado por muitas outras mulheres". E fora exatamente isso que sua protetora fizera por ela, ao acolhê-la e depois arriscar a vida para que Clarice tivesse a chance de voltar à sua realidade.

Infelizmente, a boa senhora não resistira aos ferimentos que sofrera. Ela falecera, assim como a pequena Júlia, e transformara-se em mais uma saudade doída na vida da cientista alagoana. Entretanto, o exemplo daquela mulher suja, maltrapilha e de modos toscos, que ironicamente era uma faceta sua, acabou com os preconceitos da cientista. Seu legado ficaria impregnado em sua alma para sempre.

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Dois anos depois do episódio, numa tarde de verão, Clarice lembrava-se com ternura da grande amiga que lhe abrira os olhos para as coisas mais importantes da vida. Matutava no quanto as duas eram diferentes sob vários aspectos, mas, ao mesmo tempo, iguais e complementares.

“É assim que somos todos nós, humanos deste planeta: diferentes na aparência, mas essencialmente iguais” – refletia a cientista. “Quando percebermos que somos frutos da mesma semente, aprenderemos a amar a todos e a jamais deixar alguém sozinho, mesmo que suas condições nos causem repugnância. Para tanto, não é preciso ser cientista, tampouco viajar no tempo ou no espaço: basta ouvir a voz de nossa consciência.”

No fim das contas, tudo valera à pena, inclusive sua dedicação incansável à ciência, que tantas horas de sono haviam lhe custado. Afinal, se não fosse por Ísis – a deusa da maternidade e da fertilidade – Clarice não teria viajado àquele universo alternativo onde reencontrou em si o mais nobre sentimento que a Natureza nos concedeu.

Sim, ele. O amor.

Protetor e maternal.
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(*) - U-235 é o nome científico utilizado para designar uma forma de urânio enriquecido.

sábado, 4 de agosto de 2012

Fábula da Criação

Imagem: Krishna baby - usada apenas a título ilustrativo (desconheço a autoria)

Poucas pessoas sabem, mas o Criador é uma eterna criança, um enigma que existe desde antes do big bang, a explosão inicial. Nasceu sem pai, sem mãe e sem saber a razão de sua existência. Era uma criança órfã e triste.

Durante eras, nosso universo observou com carinho a criança solitária que o precedeu, até que ficou compadecido de sua solidão. Decidiu, então, conceder-lhe o poder da criação, pois assim a criança poderia inventar jogos e brincadeiras para se distrair.

Mas a criança superou as expectativas do universo. Primeiro, organizou toda a matéria nele existente e criou galáxias de magnífica beleza. Depois, notando-as distantes entre si – e solitárias, como ela – a criança construiu túneis em locais estratégicos, para que lhes servissem de atalhos. E, percebendo-as vazias de conteúdo, as recheou com planetas dos mais variados tamanhos, composições e cores. Desde tenra idade, como podem notar, a infante criatura mostrou-se inteligente e engenhosa, além de demonstrar preocupação com o bem estar de todos os seres.

O tempo se passou e a criança percebeu que os planetas não estavam felizes, pois eram muito calados. Foi então que, com amor e esmero, criou seres para habitá-los. Alguns deles eram feitos de matéria; outros, de pura energia. Todos, no entanto, eram como páginas em branco, com potencial para se tornarem bons ou maus. Sim, pois a criança era sábia: concedera às suas criaturas o dom do livre arbítrio!

Dentre todas as formas de vida criadas pela sábia criança, as mais complexas eram conhecidas como seres humanos. Não, não as mais evoluídas, tampouco as de maior capacidade ou inteligência – apenas as mais complexas. Os humanos foram feitos à sua semelhança e, assim como ela, possuíam uma infinidade de desejos, sentimentos e pseudonecessidades difíceis de serem gerenciados. É a história destas criaturas que vou lhes contar.

Quando criou o primeiro ser humano, a criança emocionou-se. Ela o fizera bem mais alto que ela e com uma aparência madura, pois precisava de alguém que lhe inspirasse confiança. Foi assim que nasceu o homem. A criança o chamou de pai, mas também de filho. A essa criatura, ela deu o nome de Ariel.

Ariel foi enviado para um belíssimo planeta, repleto de florestas e mares esverdeados, localizado em um sistema estelar binário, próximo à região central da galáxia de Andrômeda. Por alguns dias, Ariel viveu feliz ali, mas logo começou a sofrer de um mal que a criança conhecia muito bem: a solidão. Deprimido, Ariel pediu à criança divina que criasse alguém com quem pudesse compartilhar sua vida.

Seu pedido foi atendido. A criança criou um ser um pouco diferente de Ariel, com o objetivo de que lhe servisse de complemento. Foi assim que surgiu a primeira mulher. A criança chamou-a de mãe, mas também de filha. A essa criatura, ela deu o nome de Liriel.

Quando contemplou sua nova criação, o Criador-criança viu-se diante de um ser harmonioso em suas formas e sensível em suas emoções. O infante primordial notou, com alegria, que Liriel era muito amorosa. Um sorriso de satisfação iluminou sua face. Seus olhos, grandes e negros, lacrimejaram de felicidade. Desejou que Liriel ficasse com ela para sempre, pois se sentia amada e feliz ao lado dela, como jamais fora em toda sua longa existência. Mas, por amor a Ariel, a criança a enviou para ser sua companheira.

Em pouco tempo, Ariel e Liriel tornaram-se amigos. E não tardou para que se apaixonassem. Como fruto dessa paixão, muitos seres humanos foram gerados, milênio após milênio, no ventre de Liriel. Uma imensa prole foi construída.

Apesar de seus muitos afazeres em outros recantos, a criança – que não mais se sentia órfã, tampouco solitária – sempre os visitava. E, por inúmeras gerações, todos naquele planeta foram como pais e filhos e, ao mesmo tempo, como filhos e pais. A criança deu a isso o nome de família e percebeu que esse era o fruto mais sublime de todo nosso universo. "Abençoada seja a família", disse a criança bendita.

Muito tempo se passou. Ariel, Liriel e seus descendentes evoluíram ainda mais em inteligência e espiritualidade, até se tornarem seres cuja sabedoria aproximava-se à da divina criança. "Eu os promovo a anjos" – celebrou a criança – "e lhes peço que me auxiliem na manutenção da harmonia do universo". Todos no planeta responderam-lhe "sim", pois aquela criança era a síntese do amor. E, ao amor – os anjos bem sabem – nunca se deve dizer não.

Animada, a criança desejou propagar a semente da humanidade. E assim o fez. Primeiro, em todos os sistemas estelares de Andrômeda; depois, por todas as galáxias. Até nos mais longínquos rincões do universo, seres humanos foram criados e se multiplicaram, vivendo em paz e harmonia. Entretanto, houve um grande contratempo: num pequeno planeta azul situado na Via Láctea, o amor não frutificara. Pela primeira vez desde o início dos tempos, ele fora suplantado pelo ódio e pela desconfiança.
  
Foi assim que o destino dos anjos de Andrômeda cruzou-se com o dos humanos da Terra: a eterna criança encarregou os anjos da árdua tarefa de iluminar o coração dos habitantes daquele pequeno planeta azul, que haviam sucumbido ao lado menos nobre da complexidade humana, impedindo que o amor frutificasse. Disse a criança: "Ajudem vossos irmãos, porém sem jamais interferir em seu livre arbítrio".

É por esta razão que, há milênios, os anjos viajam em suas naves camufladas desde Andrômeda até a Terra e submergem nos oceanos terrestres. Lá, eles aguardam os momentos mais oportunos para exercerem sua influência benigna sobre nós, fornecendo-nos exemplos edificantes.
  
Os anjos de Andrômeda chegam aos grupos em nosso planeta. Desde que surgiram as primeiras civilizações da Terra, eles têm se revezado no período em que permanecem aqui. São nossos tutores espirituais, incansáveis semeadores do bem. E, ao contrário do que pensam alguns, jamais se rebelaram, tampouco se subdividiram em castas, pois seu lema é união e igualdade.

Alguns anjos destacaram-se em seus esforços na Terra, como Siddhartha Gautama, Jesus Cristo e Mahatma Gandhi. Eles deixaram entre os humanos de nosso planeta mensagens de amor que não foram compreendidas na época em que aqui estiveram. Sofreram com a incompreensão, mas a semente que plantaram ainda pode frutificar. E, se necessário, outros como eles virão.

Estes amigos do espaço têm trabalhado com afinco, na esperança de que um dia possamos fazer parte da imensa família universal, junto a seres corpóreos, incorpóreos e de pura energia, pois este universo, graças à ação da criança bendita, é um local onde todos são filhos, irmãos, pais e mães ao mesmo tempoNão há hierarquias, tampouco importa a origem ou aparência de cada um. Nesta família, a liberdade e a fraternidade são supremas. A única lei que nela existe é a lei do amor, uma lei que ainda não aprendemos a respeitar.
  
Na verdade, uma lei que sequer compreendemos muito bem.

Ainda.