sábado, 29 de dezembro de 2012

Clifford Simak - As Cidades Mortas (Os Cães herdarão a Terra?)

São poucos os leitores brasileiros que conhecem o escritor norte-americano Clifford Simak. Aqui no Brasil, até onde sei, apenas duas obras de sua autoria foram publicadas: Boneca do Destino e Cidade (também conhecida como A Cidade no Tempo). Em Portugal, este último foi editado com o título As Cidades Mortas e lançado pela Coleção Argonauta, edição nº 117. Foi este volume que tive o prazer de ler. Recentemente, consegui adquirir uma edição nacional (acima).

Todas as edições em português, sejam de Cidade, sejam de Boneca do Destino, são muito antigas. Uma pena, pois são excelentes obras de ficção científica/fantasia, que seriam aprovadas com louvor até pelos leitores mais exigentes.

As Cidades Mortas não é um romance, tampouco uma mera reunião de escritos dissociados. É o que se pode chamar de “fix-up”. Há um encadeamento de ideias, uma espécie de sequência lógica entre os textos. Os oito contos reunidos nesta edição (Simak escreveu um epílogo posteriormente) formam uma obra coesa e lembram, sobretudo no tom poético e na criatividade, As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Porém – atrevo-me a dizer – City (título original) é ainda melhor!

A obra retrata o fluxo do tempo no futuro da Terra, com os seres humanos descobrindo criaturas que coabitam nosso mundo, porém noutra dimensão (os chamados "penantes") e também fazendo os primeiros contatos com habitantes de outros planetas, dentre eles os marcianos e os moradores de Júpiter, conhecidos como “galopadores”. Aliás, ao descobrir que os galopadores conseguem usufruir de toda sua capacidade cerebral, além de viverem durante um tempo bem maior que os humanos (e desfrutando de um aprendizado muito mais profundo), os terrestres... bem, não quero revelar muitos detalhes da trama, para não estragar a surpresa dos que ainda não conhecem o livro.

O que posso dizer, sem revelar muito, é que a história humana é contada a partir do ponto de vista dos representantes da família Webster e de um "autômato". Foi um dos Webster quem primeiro ensinou um cão a falar. A partir daí, milênios vão se passando e Simak demonstra toda sua habilidade literária, produzindo uma obra marcante, que não apenas cativa o leitor, mas de alguma maneira o insere na história, levando-o a imaginar como seria o mundo tal como é descrito no livro. Com sagacidade, o autor nos conta de que forma os cães – muitos mais ponderados e pacifistas que o homem – começam a se tornar a espécie dominante na Terra (embora tenham que disputar território com as formigas). Outro detalhe interessante: os comentários inseridos entre os contos dão a entender que teriam sido os próprios cães os editores do livro. E o curioso é que os tais editores questionam se a espécie humana teria de fato existido, ou se aqueles textos teriam sido fruto da engenhosa imaginação de alguém.

Implícitos na obra, um questionamento moral e uma coerente visão de futuro: será que o destrutivo ser humano merece continuar no comando da Terra, com todas as atrocidades que não se cansa de cometer? Ou será que nosso planeta estaria em melhores mãos, se guiado por criaturas que dão mais valor ao amor e à amizade, como os cães?

Simak foi um autor genial. Merece ser lembrado pelos editores brasileiros.

Que não caia no esquecimento.


Adendo: depois de fazer esta resenha, li também Estação de Trânsito, do mesmo autor. Outra obra prima! 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sedução

Imagem: Natasha Henstridge (infelizmente não é ela a alienígena do meu conto...)

Da sacada de seu apartamento, debruçada sobre a grade de proteção, Paula observava as águas marinhas avançarem lentamente até as proximidades do calçadão. Enquanto admirava a beleza das ondas, ora verdes, ora azuis, ela ajeitava os cabelos louros e esboçava um sorriso. Os olhos contemplativos copiavam as cores do oceano e refletiam o encantamento da jovem diante da imensidão que via à sua frente.

Um franzir de testa e um repentino cruzar de braços transfiguraram seu semblante numa fração de segundos: seus pensamentos, indevassáveis, eram apenas parte de seu mistério.

O vento, travesso, teimava em despentear seus cabelos. Incomodava-a; parecia querer atrapalhar seu flerte com o mar. Contrariada, a moça suspirou fundo e passou novamente seus dedos de leite sobre os fios ondulados. Em seguida, a mão direita buscou os óculos escuros na "nécessaire" e com eles cobriu os olhos muito claros.

A beleza dos seus vinte e sete anos pulsava em cada músculo do seu corpo. Era impossível a qualquer pessoa não notar sua presença.

Paula era desejada por todos. E não apenas em razão da beleza e da sensualidade, que lhe eram abundantes. Era magnetismo; algo animal, primitivo. Algo que estava impregnado em sua essência de caçadora.

Os bruscos movimentos do ar a estavam irritando cada vez mais. Paula retrocedeu então dois passos, encostando seu corpo escultural na parede da churrasqueira. Fez careta, bufou, mas nem mesmo a ira maculava sua beleza. Uma beldade.

Parecendo intimidado por ela, o vento abrandou sua força. A brisa marinha tocou então sua pele rosada com suavidade, como quem lhe faz uma carícia. Ela deixou escapar um leve gemido. Um sorriso de prazer, malicioso, brotou em Paula. A jovem fechou os olhos, acariciou os cabelos e meneou lentamente os quadris largos, simulando uma dança sensual. Provocou suspiros inaudíveis à sua volta. Estava excitada. Abriu a blusa; exalou um perfume indecifrável. As forças da Natureza silenciaram. Contemplavam-na.

"É assim que eu gosto" – ela murmurou, com ares de superioridade. E tornou a debruçar-se sobre a grade de proteção, revelando parte dos seios insinuantes.

O aroma trazido pelas árvores frutíferas das redondezas penetrou em suas narinas. Paula deixou que seu olfato fosse o sentido mais aguçado naquele momento: adorava aquele cheiro! Sentindo-se dona deste mundo, bocejou longamente, abriu os braços bem torneados e espreguiçou-se com graça.

Nos prédios vizinhos, corações acelerados a observavam. Embora desprezasse os seres humanos, Paula sentia-se envaidecida por possuir tantos admiradores. Dançou novamente. Desta vez, com mais sensualidade. Sabia provocar. Enquanto sua pele ruborizava com o calor que tomava conta de seu corpo, ela iluminava seu rosto angelical com um sorriso.

Diabólico.

Uma predadora quase humana...

*******

Jonas há tempos não saía para pescar. Já não tinha mais a mesma força nos braços, tampouco a coragem de se aventurar novamente em alto-mar. Na sua idade, aquilo já não parecia algo esperto a se fazer. E, felizmente, não mais era necessário como meio de ganhar a vida.

Sessenta e três anos, todos eles vividos no litoral paulista. Uma pequena herança havia lhe trazido a tranquilidade financeira que em quase cinquenta anos de trabalho nem sequer chegara perto de alcançar. "A vida é mesmo muito estranha", costumava dizer aos amigos.

Aposentado há alguns meses, Jonas agora podia dedicar-se a fazer o que mais gostava: escrever. Não frequentara a escola durante muitos anos, apenas o suficiente para ser alfabetizado. Porém, por conta própria, aprimorou seus estudos anos depois. Tornara-se um apaixonado por livros. E os devorava. Adorava mergulhar nas histórias e sentir-se como um personagem, viajando na leitura e dando asas à sua imaginação. Desde adolescente, acalentara a esperança de um dia tornar-se escritor, nem que fosse para publicar um único romance. "Um livrinho só que seja", matutava; "um único livro e já me sentirei feliz".

Estava sempre escrevendo poemas e algumas crônicas sobre seu universo: o dia a dia, as mulheres que amara, as belezas da praia, os mistérios das águas. Até as conversas dos outros pescadores, que ele sempre ouvia em silêncio, acabavam se transformando em pequenos textos, por vezes mesclados a certa dose de ficção.

Tudo aquilo lhe servira como experiência, como um treinamento para o romance que tanto desejava escrever. Jonas agora tinha tempo de sobra para isso. Ele desenvolvera tamanha fluência na escrita que, por vezes, deixava perplexos alguns alunos da universidade que se instalara nas proximidades de sua residência.

Faltava saber qual seria o tema central do livro.

Em sua mente, ele possuía várias ideias, mas nenhuma pela qual tivesse se decidido. Ele sabia que escrevia melhor quando estava apaixonado pelo assunto. E aquele livro – seu primeiro romance – tinha que ser especial. Portanto, precisaria ser sobre algo pelo qual ele estivesse apaixonado.

Algo, ou alguém.

*******

Um livro na mão esquerda e a velha cadeira de alumínio na destra. Era com esses adereços que Jonas, diariamente, percorria o trajeto de quatro quilômetros que separavam sua casa da beira-mar. Às vezes, também trazia consigo um pequeno caderno e uma esferográfica azul, para, inspirado pela bela paisagem, escrever um conto ou uma crônica. Ou, quem sabe, capítulos do tão sonhado romance...

A praia ainda estava quase deserta naquela manhã. Um sol morno nascia no horizonte. Pequenas nuvens brancas pintavam timidamente o azul do céu. No seu imaginário de escritor, elas pareciam silhuetas de pequenos seres que teriam viajado incontáveis galáxias apenas para lhe dizer “olá”.

O ar estava muito sereno e transmitia uma sensação de paz que Jonas desejava absorver plenamente. Fechando os olhos e abrindo os braços fortes e longos, ele respirava sorridente a tranquilidade do amanhecer. Enquanto uma brisa amena atingia seu rosto, no céu o ar em movimento mudava o formato das nuvens, transformando-as em figuras que lhe pareciam novas formas de vida, todas elas muito diferentes de nós, mas que, na mente prodigiosa do pescador, dividiam conosco um intrigante universo.

Jonas era mesmo um sonhador. Ingênuo e sonhador.

Ele chegara com passos tranquilos e, antes que sentisse a água tocando seus pés, abrira sua velha cadeira. Fizera tudo com lentidão, até sentar-se confortavelmente. Já correra bastante em sua vida noutros tempos; agora, queria apenas relaxar e curtir com paixão os anos que lhe restavam. A brisa marinha cumprimentou-o e ele retribuiu com um largo sorriso. Olhou para os lados novamente. Ninguém por perto. Poderia conversar com as ondas sem ser taxado de lunático:

– Bom dia, mar amigo!

O poeta parecia especialmente animado naquela manhã. Seus olhos, que lutavam contra a presbiopia e a catarata, ainda tinham um brilho tênue. O rosto já não guardava resquícios da beleza da juventude, mas o tronco e os braços, ainda robustos, davam-lhe uma aparência mais jovem.

De repente, uma voz feminina surgiu, interrompendo os devaneios de Jonas:

– Que sorriso cativante!

Pego de surpresa, ele estremeceu. Paula sorriu:

– Nossa, não pretendia assustá-lo! – enquanto ajeitava com malícia a barra do curtíssimo vestido, a loura tocou suavemente em seu ombro esquerdo. – É impressão minha ou você estava conversando com o mar?

Ao virar-se na direção da moça, Jonas deparou-se com um sorriso maroto, que brilhava num rosto deveras bonito. Os olhos (impossível dizer se verdes ou azuis) eram hipnotizantes. No entanto, foram outras as sensações mais marcantes para ele naquele momento: o toque delicioso das mãos daquela jovem e as formas esculturais de seu corpo. Por um instante, o experiente Jonas vacilara. Parecia em transe.

O sorriso da deusa marinha abriu-se ainda mais. Sentia-se vitoriosa, pois conquistara aquele homem usando apenas uma pequena fração de seus encantos. Paula não estava surpresa; afinal, o poder de sedução das mulheres de seu planeta era subjugador. Quando suas amigas chegassem, nas naves que em breve aportariam nos litorais da Terra, também não teriam a menor dificuldade em seduzir todos os homens do planeta. E depois devorá-los. Literalmente.

Passada a hipnose inicial, o velho pescador finalmente se recuperou. Levantou-se e cumprimentou Paula. A suavidade das mãos dela não lhe passou despercebida: era um convite ao prazer. Jonas tentou caprichar no velho sorriso, já que a bela jovem o achara cativante.

– Você não me assustou. Foi sua beleza que me deixou intimidado.

Paula gostou da franqueza, tão rara nos machos que conhecera em outras civilizações. Decidira que Jonas merecia mais de seu charme. Liberando feromônios extrassolares, a jovem aproximou-se, abraçou-o carinhosamente e beijou com suavidade suas bochechas, um tanto enrugadas pelo tempo e pela ação implacável do Sol durante décadas. Sentiu-se extremamente atraída pelo odor que o pescoço daquele homem exalava. Ele parecia ser uma refeição e tanto... Mas Paula não podia revelar-se antes da chegada das outras amazonas.

Ao afastar-se do corpo dele – e percebendo o quanto ele desejava que ela permanecesse ali –, Paula cuidou de ajeitar delicadamente os cabelos, certificando-se de que seu cheiro penetrara as narinas de sua caça:

– E então, conversando com Poseidon?

Enfeitiçado, Jonas sentiu-se mais tímido que de costume. Não queria, no entanto, parecer frágil:

– Sim, confesso que costumo fazer isso quando não vejo ninguém por perto. Você sabe, podem pensar que eu sou louco. [Sorrisos]. Você me pegou de surpresa. Não senti a sua aproximação.

Fora com muita dificuldade que Jonas conseguira concatenar aquelas frases. A moça era realmente linda. Havia algo um tanto demoníaco nela, que o fazia querer sentir-se dominado. E a audácia da garota o surpreendia cada vez mais. Agora, ela trazia novamente seu corpo para junto do dele. Sem rodeios, começou a lhe acariciar o tórax e a beijar-lhe a face e os lábios. Primeiro, com doçura; depois, com completa devassidão. Em instantes, os dois corpos estavam em brasa. Jonas jamais sentira tamanho prazer.

Os braços da moça adornavam-lhe com suavidade os ombros e o pescoço, enquanto as mãos acariciavam as têmporas e a nuca. As coxas roçavam com volúpia nas dele e os seios – ah, os seios! – se projetavam sobre ele, quentes e macios, desafiando seu autocontrole. Parecendo obedecer aos desejos da beldade, o vento balançava levemente seus cabelos, fazendo com que eles tocassem o rosto de Jonas, provocando ainda mais seus sentidos. O poeta, já quase em êxtase, abraçou com força a cintura tão bem torneada, enquanto buscava a região lombar daquela incrível fêmea. Um perfume inebriante foi exalado do corpo dela, fazendo com que ele quase perdesse os sentidos.

Era um massacre.

Ele tentou reagir, mas mostrou um vigor físico em franco declínio. Suas mãos, um pouco descoordenadas, procuravam sentir os quadris largos da moça, tateando-os com um incontrolável desejo. Paula percebeu que ele a despia com os olhos e lhe lançou um olhar malicioso e [muito] convidativo. Jonas, esquecendo-se de que a praia não estava completamente deserta, começou a tirar o vestido da beldade, mas foi interrompido por uma dor visceral.

O pescador começou a contorcer-se, emitindo gemidos que indicavam profundo sofrimento. Ele quase urrava. Desvencilhara-se dela, a contragosto, e agora estava agachado ao chão. Tremia e tinha o rosto desfigurado. Por longos minutos, pareceu metamorfosear-se em um homem bem mais velho.

Ou o prazer fora maior do que ele podia suportar, ou algum poder desconhecido o afetara.

Paula o observou com impressionante frieza. Depois, sentou-se na areia e acariciou os cabelos ralos de sua presa. Olhando-o fixamente e com repentina piedade, ela então notou que Jonas, com o indicador de sua destra, apontava uma direção ao fundo daquele belo cenário litorâneo. Quando os olhos claros e brilhantes de Paula notaram o que começava a acontecer próximo à linha do horizonte, a moça sentiu seu corpo vibrar. Em sua caça, a aparição provocara dores profundas; na alienígena, uma intensa sensação de poder fora saboreada.

De formas antagônicas, ambos ficaram transfigurados, porém em Paula a transformação durou apenas alguns segundos. A pele dela tornou-se mais viçosa e levemente azulada. Os olhos faiscaram de forma vibrante, denunciando sua faceta inumana. Jonas, porém, castigado pelas dores e pela fragilidade que o abatera, não percebeu.

Ajudando o homem a erguer-se, a jovem observou o fenômeno ao lado dele. Sobre as montanhas que delimitavam a praia do Forte, na cidade paulista de Praia Grande, descia no azul do céu, em meio a nuvens esverdeadas, um gigantesco objeto, de formato cilíndrico e cores escuras. Era feio, soturno, sem brilho, mas impressionava pela magnitude. Jonas diria que aquilo era um míssil de proporções gigantescas, se a velocidade não estivesse diminuindo sensivelmente conforme se aproximava do oceano.

Na verdade, tratava-se de uma, dentre muitas naves que estavam chegando de um sistema estelar não muito distante daqui. As embarcações alienígenas estavam repletas de mulheres belas e insaciáveis, que se alimentavam dos fluídos corporais masculinos, sugando-os por completo. Paula era apenas uma das voluntárias que haviam sido selecionadas, anos atrás, para habitarem a Terra e emitirem relatórios periódicos sobre os homens de nosso planeta. Cumprira fielmente sua missão.

Cansada de se sustentar com nossos alimentos insossos, a sereia do espaço suportara por muito tempo a privação de sua dieta preferida. Felizmente para ela, esses tempos de vacas magras logo ficariam para trás. Afinal, suas amigas estavam chegando, o que significava que em breve seria emitida a senha para o início do banquete.

Enquanto o estranho engenho parecia mirar um determinado ponto ao fundo do oceano, nas águas da praia de Vila Guilhermina, os garotos que chegavam às proximidades iniciaram uma gritaria. Um deles tinha nas mãos um celular, e com ele parecia filmar o acontecimento.

– Jesus, o que é aquilo? – dizia um menino de ascendência oriental, que em seguida saiu em disparada, dizendo que chamaria "mais gente".

Nesse ínterim, o objeto mergulhou no oceano. As poucas pessoas que estavam na praia ficaram em silêncio, atônitas, ao mesmo tempo em que seus cérebros tentavam processar o que estava acontecendo.
Após o completo restabelecimento de Jonas, Paula interrompeu o silêncio, procurando distraí-lo:

– Como é o seu nome?

– Hã? – vacilou ele, ainda em transe.

A moça sorriu. Jonas contemplou seu rosto: há instantes, ela parecia quase diabólica; agora, seu sorriso doce dava a ela uma aparência angelical. Uma inconstância que fazia o velho coração de Jonas bater descompassadamente.

– Seu nome, moço. Não gosto de trocar carícias com desconhecidos – disse a deusa, com as mãos em sua cintura delgada. – O meu é Paula.
– Jonas, muito prazer.

Finalmente esboçando um sorriso, ele prosseguiu:

– Muito prazer mesmo!

Ela gargalhou. Já não era mais um anjo, mas não parecia malévola. Aparentava agora algo diferente. "Uma sereia", pensou o pescador poeta. "É isso que ela deve ser!"

Em linhas gerais, ele não estava errado.

A grande diferença estava na dieta da moça.

******

Em questão de minutos, algumas pessoas, que talvez já acompanhassem o acontecimento em suas residências, começaram a povoar aquela região da praia. Quase todas traziam consigo celulares, máquinas fotográficas e/ou filmadoras. Conversavam alto, tensas. Enquanto as observava, Jonas tomara a iniciativa de abraçar a cintura de sua Partênope. Necessitava daquele corpo junto ao dele.

– Você observou com atenção quando aquela coisa estava entrando no mar? – questionou.

– Cada fração de segundo – ela respondeu, dissimulada. Em seguida, Paula afastou-se um pouco e desvencilhou-se do abraço, esperando a reação de Jonas. Queria jogar com ele, divertir-se um pouco. Para ela e suas patrícias, tudo não passava de um jogo. Um jogo de poder e sedução, que culminava num banquete delicioso.

– Não levantou uma gota de água sequer – ponderou Jonas.

Ela olhou para ele com vivacidade. Sabia muito bem o quão estranho era aquilo.

– Qualquer objeto que entra na água provoca muitos respingos – comentou, fingindo inocência.

– Ainda mais um tão grande quanto aquele – ele completou.

– Você é um bom observador, Jonas – disse a alienígena, reaproximando-se e deixando-se abraçar.

Sentindo-se entorpecido pelo calor que emanava do corpo da jovem, ele procurou se controlar. E brincou:

– Paula?

– Sim?

– E você?

– O que tem eu?

Com um ar sedutor, Paula beijou-lhe a testa com doçura, contendo sua devassidão. Jonas fechou os olhos, absorvendo com paixão o carinho fingido. E completou:

– É desse planeta?

Pela primeira vez desde que chegara à Terra, ela gelou. Embora soubesse que Jonas nem sequer desconfiava de sua verdadeira identidade, não pôde evitar um instante de desconforto.

Recompondo-se em seguida, ela gargalhou. O inocente Jonas perguntou-se como ela conseguia gargalhar daquela forma tão debochada sem perder um décimo de seu charme. A loira abraçou então aquele homem, que, apesar de ter perdido a juventude há décadas, lhe parecia tão atraente.

Mais um beijo. Agora, nos lábios. O tempo parou. Naquele momento, eles eram os únicos na praia que não estavam com suas atenções concentradas nas águas.

Pelo menos enquanto durasse aquele beijo.

******

Como bem sabia Paula, aquele não fora um fenômeno isolado. Em todas as regiões litorâneas do mundo, incidentes semelhantes foram relatados. E não fora apenas isso. Dias depois, pessoas ao redor do globo disseram notar que uma espécie de energia emanava das águas marinhas e ascendia até as nuvens. Relataram que a aparição tinha um formato helicoidal e um discreto tom esverdeado. Muito tênue, mas perceptível aos olhares mais atentos. Depois desse evento, começaram a ocorrer interferências no funcionamento de grande parte dos aparelhos eletrônicos existentes no planeta. Resultado: o fato de alguns "hobbies" terem sido afetados por essa pane era o menor dos problemas. A humanidade tinha apreensões muito maiores, que estavam relacionadas à precariedade das comunicações e ao mau funcionamento dos sistemas de navegação.

Apesar da inconsistência dos sinais de rádio e TV, às vezes era possível sintonizar algumas emissoras. Nesses momentos, o que mais se ouvia era a tese de que as interferências nos aparelhos eletrônicos teria mesmo sido causada pela energia que surgira dos mares da Terra. O termo do momento era "PEM – pulsos eletromagnéticos".

O pânico começou a se espalhar quando a teoria sobre uma possível invasão alienígena ganhou destaque. Os mares do mundo foram vasculhados, porém de maneira precária, pois os equipamentos com tecnologia mais avançada eram exatamente aqueles que mais sofriam com as estranhas interferências. Modernos caças das Forças Armadas Brasileiras, recentemente adquiridos num demorado processo licitatório, tentaram sobrevoar o litoral sul paulista, mas os pilotos foram traídos pelos instrumentos e os caças espatifaram-se em alto-mar.

Os mais alarmistas enxergavam as interferências nos aparelhos eletrônicos como uma tática "pré-dominação". Para eles, tratar-se-ia de uma maneira de reduzir as possibilidades de comunicação e defesa do inimigo. E, a bem da verdade, a Terra realmente havia ficado vulnerável.

No mundo inteiro, as respectivas Forças Armadas tentavam mostrar sua presença nas ruas, procurando transmitir à população uma sensação de segurança. As áreas litorâneas eram as mais protegidas. A rotina nessas regiões mudara radicalmente. Parecia que as cidades estavam em guerra. Até mesmo a distribuição de alimentos ficara a cargo do Exército.

Paula, a beldade alienígena, entrara em contato diversas vezes, desde as aparições, com as outras amazonas de seu planeta. Não houve qualquer dificuldade nessas comunicações, pois seus equipamentos dispunham de uma tecnologia que os tornava imune à ação dos pulsos eletromagnéticos. Ela e suas patrícias estavam se organizando sorrateiramente, acertando todos os detalhes. Dentro de três dias, colocariam em execução seus planos macabros. Os homens seriam seduzidos, subjugados e finalmente devorados, até não restar uma gota de fluído corpóreo. As mulheres da Terra – suas rivais – seriam executadas em massa, sem piedade. Depois disso, nosso planeta já não lhes ofereceria atrativo algum e seria abandonado. A propriedade deste pequeno mundo azul ficaria para os demais seres que o habitam.

Jonas, o bom e ingênuo pescador, já estava completamente apaixonado e entregue à dominação exercida por Paula. Ele perdera a conta de quantas vezes experimentara o sentimento de estar apaixonado. Nunca, todavia, apaixonara-se por alguém que estava vivenciando uma faixa etária tão diferente da sua. E jamais havia se sentido tão sugado pelas sensações – físicas e emocionais – que lhe despertava a sedutora alienígena. Era, ao mesmo tempo, algo doce e subjugador.

Com o passar dos dias, a paixão foi se transformando em amor no coração de Jonas. Ver sua deusa passou a ser uma necessidade, como se seu corpo tivesse encontrado nela uma espécie de vício: Jonas tornara-se dependente de Paula. Aquela jovem sensual parecia estar sempre no comando, mesmo quando bancava a moça ingênua e carente. Graças a Paula, sua inspiração de poeta e escritor havia se intensificado. Depois de alguns poemas dedicados a ela, ele finalmente começara a escrever seu tão sonhado romance. Ela, é claro, seria o personagem central. Mal sabia ele, no entanto, que talvez não vivesse o suficiente para ir além dos primeiros capítulos.

Para surpresa de Paula, Jonas encontrara maneiras de satisfazê-la sexualmente, proporcionando à jovem um prazer sereno, duradouro, que ela gostava de curtir sem pressa e sempre sem medo algum. A loura sabia que, por mais que se entregasse, jamais se sentiria presa a ninguém. Todavia, já não tinha certeza de que aquilo fosse uma vantagem sobre os outros seres ou uma espécie de maldição. Talvez a solidão fosse a sina das mulheres de seu planeta.

– Uma pena que daqui alguns dias eu tenha que devorá-lo. Gostaria de ficar mais tempo com ele, mas a fome está me consumindo – murmurava Paula, enquanto telepaticamente convidava sua caça para assistir a um vídeo em seu apartamento. Sua ascendência sobre Jonas tornara-se tão grande, que bastava desejar sua presença para que ele viesse ao seu encontro. Seria seu último momento romântico com o pescador, pois se aproximava o momento de se deliciar com o sabor de seus fluídos corporais. Queria curtir até o último momento mais um pouco daquela doce ternura, antes que o animal impiedoso que existia dentro dela recebesse de suas comandantes o sinal verde para abater o bom homem.

Por um instante, a fria alienígena quase se emocionou. Só por um instante.

******

Minutos depois, o improvável casal estava no apartamento adquirido pela alienígena no bairro da Aviação. Mais precisamente, na namoradeira da sala. Jonas, embora concentrado na sensualidade que emanava de Paula, quase percebeu o sentimento de culpa que ela tentava sufocar.

Com um olhar indecifrável, a loura juntou forças, soltou os cabelos e pousou suas mãos sobre os ombros de Jonas. Os seios, fartos e à mostra, pressionaram seu tórax, acelerando o velho coração do poeta. Os lábios macios da beldade tocaram os dele com suavidade. O perfume doce que a jovem emitia irradiou-se no ambiente, enquanto ela o beijava e murmurava em seus ouvidos mantras de dominação. Um bailado de carícias, vindo das mãos suaves da garota, o seduzia de forma branda, porém impiedosa. Seus olhos o hipnotizavam, enquanto o calor de seu corpo o fazia estremecer. Aos poucos, as sinapses de Jonas foram se entorpecendo, até perder o controle de seus sentidos. Alguns minutos depois, ele atingiu o extremo do prazer.

Paula apenas o observava. Seus olhos pareciam marejados. Seu sorriso – hábil arma de conquista – agora parecia um tanto embotado.

"Será que estou triste porque em breve irei me servir de minha presa? Não, não, de jeito nenhum! Foi apenas um breve momento de fraqueza!" – refletiu Paula, um tanto confusa.

Contendo as primeiras lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos, a alienígena recompôs-se uma vez mais, decidida a não mais fraquejar. Sua soberba de caçadora jamais lhe permitiria admitir que estava se apaixonando por um velho terráqueo.

Vencido pelas carícias da loura deslumbrante, não demorou muito para o poeta cair de joelhos no tapete da sala. Estava completamente subjugado e pronto para o abate. Mas ainda não havia chegado a hora.

Em breve, porém, Jonas seria a primeira refeição das amazonas de "Gliese 581 g". E Paula teria a honra de celebrar o banquete. Para aquelas garotas vorazes, que haviam viajado mais de vinte anos-luz para se deleitarem com os fluídos masculinos, a passagem pela Terra não significava nada além de um passeio gastronômico.

Tecnicamente, não era uma invasão. Mas não havia defesa.

Na arte da sedução, elas eram invencíveis.
Imagem: Natasha Henstridge (infelizmente não é ela a alienígena do meu conto...)

sábado, 17 de novembro de 2012

Nazareth: Um caso para o Guinness Book?


Texto: Ricardo Guilherme dos Santos
Fotos: Jornal Extra de Pernambuco e site O Vale do Ribeira


Isto não é uma biografia. Uma biografia pressupõe, creio eu, que se discorra de forma minuciosa sobre todas as etapas da trajetória de um artista. O que esta matéria pretende é trazer um resumo sobre a trajetória do NAZARETH, com destaque à longevidade da banda e a algumas das apresentações mais recentes no Brasil. Um texto relativamente curto, porém repleto de links para aqueles que quiserem se aprofundar nos temas abordados, e/ou conhecer um pouco mais do trabalho do grupo.



São quarenta e quatro anos de carreira. Isto, é claro, sem contar os anos anteriores a 1968, quando Dan McCafferty, Pete Agnew e o falecido Darrel Sweet tocavam juntos na The Shadettes, fundada por Pete em 1961.

Durante este longo período, muitos altos e baixos e uma persistência invejável têm marcado a carreira destes escoceses nascidos em Dunfermline, antiga capital da Escócia (apenas o guitarrista Jimmy Murrison nasceu em outra cidade – Aberdeen). Mas o NAZARETH traz em sua bagagem outras marcas registradas: uma quantidade impressionante de shows realizados (talvez, até, um caso para o “Guinness Book”) e um inquestionável profissionalismo.

O número total de apresentações da banda nunca foi divulgado, mas quem acompanha a trajetória do NAZARETH sabe que o grupo há décadas tem o hábito de se apresentar quase diariamente, em turnês “intermináveis”. Férias da estrada, quando muito, apenas um mês a cada ano. Uma rotina que deve exigir muito da saúde de seus músicos mais antigos (especialmente do sistema respiratório de Dan McCafferty), mas que eleva o longevo grupo ao patamar de possível recordista em número de apresentações ao vivo.

Na atual turnê pelo Brasil, após apresentações bem sucedidas em Apucarana e Toledo, houve um incidente em Campo Mourão que arranhou a imagem da banda. O NAZARETH passou por momentos muito difíceis até ter a oportunidade de dar a sua versão sobre o ocorrido. O jornal Gazeta do Povo, inclusive, publicou uma matéria informando que o grupo estaria cogitando processar a casa de shows onde o espetáculo deveria ocorrer.

Depois deste episódio, tudo o que seus integrantes esperavam era uma oportunidade para lavar a alma. E ela surgiu num lugar a princípio improvável para uma banda de rock: uma cidade conhecida como “a Capital do Forró”.

Pelo que pude verificar em minhas pesquisas na internet, os roqueiros de Caruaru receberam o NAZARETH de braços abertos e os escoceses não desperdiçaram a oportunidade para dar a volta por cima. A banda subiu no palco do Agreste in Rock por volta da meia noite e – disto não tenho dúvidas – fez um grande show. As fotos postadas no Jornal Extra de Pernambuco mostram um público animado, Dan muito concentrado e Pete exibindo sorrisos. No Facebook do evento e em sites pernambucanos de rock encontram-se vários comentários positivos sobre a apresentação do quarteto. Por certo, foi uma noite especial para todos.

(fotos: Nazareth em Caruaru, 15.11.2012 - por Jornal Extra de Pernambuco)

O NAZARETH é uma banda tradicional, um dos maiores ícones da história do rock. Tem composições clássicas, nos mais variados estilos. Dentre elas, podemos encontrar:







O grupo é também um especialista em fazer inesquecíveis versões para clássicos de outros artistas.

Este quarteto escocês é respeitado e, até mesmo, idolatrado por outras lendas do rock. Ainda assim, seus integrantes são humildes e simpáticos. Eles não se importam de se apresentar em locais pequenos; basta que os materiais e equipamentos previamente solicitados lhes sejam fornecidos. E não são grandes exigências, sobretudo quando comparadas a outras bandas do mesmo nível.

Mas, é claro, os fãs preferem ver seus ídolos apresentando-se para grandes públicos. Os músicos, por sua vez, sentem-se mais felizes diante de multidões. Foi o que ocorreu, por exemplo, no show realizado para cerca de trinta mil pessoas, no início desteano, na cidade de Ilha Comprida. Dan McCafferty e Pete Agnew – os heróis de Dunfermline – merecem este reconhecimento do público, já que a mídia nunca lhes deu muita atenção.

Em Macaé (24/11/2012), o grupo voltou a tocar ao ar livre. Não sei se teve um público tão grande quanto em Ilha Comprida, mas a recepção dos fãs que presenciaram o show da banda no XII Macaé em Duas Rodas também foi muito calorosa:


É o NAZARETH de volta às trincheiras.

E em grande estilo, como um autêntico Deus da Montanha!


A dúvida, no entanto, permanece: quantas apresentações ao vivo o NAZARETH terá realizado ao longo de sua carreira? Será que a banda tem uma contabilidade disso?

Seria interessante saber.

sábado, 29 de setembro de 2012

Resenha: Farei Meu Destino (Miguel Carqueija; Giz Editorial)

A fantasia mística Farei meu Destino, do escritor Miguel Carqueija, conta a história de garotas que vivem em um orfanato comandado por forças do Mal.

Lideradas por Diana – uma versão futurista da casta deusa de origem grega –, um grupo formado por seis destas adolescentes inicia uma rebelião no lugar. A fuga, entretanto, não é buscada apenas com o objetivo de escaparem das garras das criaturas malévolas que o comandam: estas jovens foram encarregadas de um importantíssimo destino, que deverão cumprir em prol da humanidade.

Nesta obra, Carqueija busca inspiração não apenas na mitologia grega, mas também na cultura oriental, em especial no heroísmo e bravura das jovens guerreiras. Na trama, ambientada numa espécie de Brasil místico e alternativo – mas, ainda assim, repleto de mazelas sociais – o autor insere figuras reais e elementos fantásticos. Dentre estes, vale destacar a referência à lenda do Milênio de Prata, oriunda do farto e adorável folclore japonês. Mas as referências folclóricas e literárias em Farei meu Destino não param por aí; há outras agradáveis surpresas que aguardam serem descobertas pelos sagazes leitores.

A líder Diana é uma garota forte e determinada e, de fato, lembra a deusa da Lua da mitologia grego-romana (na Grécia, ela era conhecida como Artemis). No início do romance, aliás, a heroína de Farei meu Destino dá a impressão de ser tão severa quanto a personagem que a inspirou (diz a lenda que Diana era inclemente com aqueles que atentavam contra sua castidade). Entretanto, os leitores precisam avançar na prazerosa leitura para, ao final, serem contagiados pela doçura e pelo grande coração desta garota, conhecida entre suas amigas como “cabelo-de-cenoura”.

Ajudadas pelos surpreendentes Mestres Oníricos, as seis jovens precisam encontrar em seus espíritos as energias necessárias para superar as poderosas forças do Mal. Sim, isso parece um chavão, uma reprise de outras tantas histórias. Mas – acreditem – não é. Considero Farei meu Destino uma obra inovadora, sobretudo pela mescla de diversos elementos do fantástico, oriundos de várias regiões da Terra.

E que vão além dela! ;)

domingo, 26 de agosto de 2012

Ísis

( Imagem: Concepção artística da deusa egípcia Ísis - desconheço a autoria ) 

Quase todos os dias, Clarice esgueirava-se pelas ruas penumbrosas daquele fétido vilarejo, observando cautelosamente as apáticas criaturas do lugar. Eram breves incursões; o medo a impedia de ir longe. Os seres que via eram estranhos e tinham modos primitivos. Seria uma civilização alienígena em seus primeiros passos? Clarice não fazia ideia. Só sabia que se sentia desconfortável perante eles.

O que mais a incomodava era o cheiro: as criaturas exalavam um odor desagradável, que podia ser sentido mesmo a longa distância. E aquele pedaço de fim de mundo era a coisa mais suja e asquerosa que vira em toda sua vida! Para uma obsessiva compulsiva por limpeza, um cenário como aquele parecia ser o pior dos pesadelos. Um pesadelo que se tornara tão real quanto seus medos e manias.

Ísis, sua nave improvisada, de alguma maneira a levara até ali. A construção daquela engenhoca tornara-se o maior orgulho da carreira de Clarice. Desde que sua filhinha falecera, com apenas dois anos de idade, a ciência passara a ser a única coisa que lhe interessava na vida. A criança sofrera por mais de seis meses com uma doença devastadora e, embora Clarice tivesse se desvelado em cuidados, peregrinando por médicos e hospitais e buscando tratamentos alternativos, a doença acabara vencendo a guerra. Clarice pensou que também morreria; quase enlouqueceu. Para piorar, em razão das sequelas oriundas de complicações que tivera no parto de Júlia, não mais podia engravidar. Parecia não haver mais nada que pudesse motivá-la a seguir adiante.

Deprimida, Clarice decidira se isolar das pessoas. O casamento ruiu, ela se afastou dos pais, tornou-se agressiva com os amigos, abandonou seu grupo de trabalho e passou a se dedicar sozinha ao grande projeto de sua vida. Tinha verdadeira obsessão por ser mãe, mas a Natureza destruiu suas esperanças. A partir de então, criou uma obsessão para substituir outra. Agora, Ísis era, ao mesmo tempo, sua filha, seu marido, seus amigos e, principalmente, sua companheira de trabalho. Sem sua Julinha, o trabalho era a única coisa que ainda lhe importava. Se não podia ser mãe, haveria de mostrar ao mundo o melhor do que restara de si: sua capacidade como cientista. Tinha que deixar sua marca no mundo, um legado, algo para provar que não vivera em vão. Com esse objetivo impregnado em sua mente, entregou-se de corpo e alma ao Projeto Ísis.

Clarice esperava que o protótipo estivesse pronto em três ou quatro anos, quando a humanidade adentrasse a sexta década do século XXI. Porém, graças à inesperada ajuda do Governo, que lhe fornecera uma amostra de um combustível experimental, seu invento parecia ter dado frutos antes do imaginado. A matéria-prima fora encontrada nos novos campos de pré-sal nordestino e era processada em sigilo numa base tecnológica construída pelo governo nas imediações do cerrado goiano.

Será que conseguira? Será que estava mesmo na Terra, numa outra época, como pretendia?

Bem, não era o que parecia. Aquele lugar era estranho demais para ser nosso planeta. E o pior: a cientista não encontrara mapas, muito menos computadores, ou qualquer outra mídia que a permitisse descobrir onde (ou em qual época) havia desembarcado. Ela vira apenas pequenas máquinas, cuja posse as criaturas disputavam com extrema violência. Sua utilização parecia provocar um efeito viciante sobre elas, que ficavam desesperadas se não pudessem manipular aqueles aparelhos. Talvez – pensou Clarice – fosse uma espécie de droga tecnológica.

Tudo era muito sinistro: paisagens, clima, construções. O Sol era tênue e parcialmente bloqueado por substâncias coloridas que pairavam na atmosfera. Na superfície, a cientista de cabelos negros encaracolados não avistara um animal sequer. E os habitantes do lugar, embora humanoides, não pareciam exatamente seres humanos. Tinham tronco, braços, pernas e crânio, mas eram disformes. A pele deles excretava uma substância amarelo-ouro, um tanto pastosa...

– Argh! – gritava Clarice a cada vez que via aquilo.
( Imagem: ilustração criada por Walter Tierno - www.waltertierno.com )

Ela chegara ali há alguns dias. Seu insólito transporte, construído a partir de uma nova liga metálica, era de um prateado ofuscante. Repleto de alavancas que rangiam ao serem acionadas, lembrava em seu interior um engenho do século XIX. As linhas curvas e delgadas, próprias dos equipamentos fabricados em meados do século XXI, encontravam-se na parte externa do aparelho, que era envolvida por uma fina película de material transparente, em formato elíptico, a imitar uma espécie de casca protetora. Clarice batizara sua máquina de Ísis, em homenagem à deusa egípcia da maternidade e da fertilidade – uma forma de continuar sentindo-se mãe.

Ísis era uma espécie de acelerador de partículas, com pouco mais de três metros de comprimento, dotado de um microcomputador senciente e incrementado por um mecanismo robótico, que amplificava as reações químicas que ocorriam em seu reservatório de combustível. Um projeto visionário, que havia se tornado motivo de piadas entre seus colegas cientistas.

Em seu íntimo, Clarice agora desejava que eles estivessem ali para ver o que Ísis era capaz de fazer. Seria sua desforra. Queria ver a cara de espanto deles, dar boas risadas e lhes provar, de forma definitiva, que não era nenhuma “desmiolada”, como costumavam dizer. Talvez, até, gritaria em seus ouvidos algo do tipo: "Seus idiotas, eu consegui! Riam de mim agora!"

A bem da verdade, Clarice não sabia onde fora parar, mas era evidente que fizera uma viagem fantástica. Ao que tudo indicava, Ísis criara um vórtice. Ele conduziu a máquina e sua inventora até um lugar lúgubre, que parecia um pátio abandonado. Clarice recordava-se com detalhes do momento de sua chegada. Era noite e fazia um frio de quebrar os ossos. O ar estava seco, o vento uivava com raiva e o corpo delgado da jovem cientista tremia sem parar. Repleta de misticismos em sua mente supersticiosa, ela teve a sensação de que o lugar abrigava energias muito pesadas. Fora dominada por um medo tão intenso, que não se atrevera a esboçar qualquer movimento. O ódio parecia estar no ar – dava para sentir na carne! Era um ódio invisível, mas que entrava pelos poros. Ardia. A física alagoana jamais sentira tanto medo em sua vida.

Num canto escuro, uma senhora frágil, suja e maltrapilha a observava, num misto de espanto e medo. Ao ser notada, a mulher fez menção de fugir; deu dois passos, mas parou. Olhando com preocupação para os lados, de repente acelerou os passos tortos até alcançar Clarice. Deu-lhe um estranho agasalho, velho e surrado, mas muito bem-vindo. Depois, tocou a face da cientista e acariciou seus cabelos limpos e perfumados, intrigada. Parecia sentir pena de Clarice. Tinha apenas quatro dedos nas mãos, longos e escurecidos, e olhava para ela com carinho e desconfiança: estava hesitante, mas decidiu acolhê-la. Com seus modos desajeitados, retirou-a de Ísis e fez sinal para que a seguisse.

Caminharam até o casebre onde a mulher residia. Clarice relutou um pouco, mas entrou na habitação. Uma espécie de chá, quente e amargo, foi servido. Nenhuma palavra. Depois, com o estômago revirado, a cientista foi conduzida até um nicho insalubre, no qual deveria dormir. Ou tentar...

No dia seguinte, Clarice fez muitas perguntas, mas sua protetora era uma pessoa de poucas palavras. Na verdade, de palavra alguma. A princípio, pareceu-lhe que a mulher não entendia sua língua, o que não era de se admirar. Tentou se comunicar por intermédio de gestos, mas não adiantou. Também a língua inglesa parecia não ser compreendida. Num dado momento, exaurida, Clarice riu de si mesma:

– Oras – balbuciou –, o que eu esperava? Que num outro planeta as pessoas falassem os mesmos idiomas que as criaturas da Terra?

Dias depois, no entanto, veio a grande a surpresa: aquele estranho ser, naquele lugar que dava calafrios, pronunciou algumas palavras em língua portuguesa! Mas a mulher não concatenava as ideias. Às vezes, declamava frases desconexas: “Aqui é Lodo; Lata é a cidade. Um, dois, três, cinco... Ira, ira!”.

O que significaria aquilo? Provavelmente, aquela senhora enlouquecera. Ao menos, pensava Clarice, não parecia perigosa como os outros que vira. Um alívio e tanto para quem se sentia dentro de um filme de horror de quinta categoria...

A casa exalava um cheiro forte. Era um odor diferente dos ambientes exteriores, mas também algo que Clarice jamais aspirara (e que certamente preferia não ter aspirado). A cientista estava se acostumando a viver com náuseas.

As construções pareciam feitas de um material gelatinoso; um dourado dúbio, ludibriador. Alguns prédios singulares, que pendiam ora para o lado esquerdo, ora para o lado direito, estavam a ponto de desmoronar. A decadência era visível; o cenário, assustador. Era insano viver ali.

Clarice desejava, o quanto antes, encontrar um meio de voltar. Tinha o instinto exploratório próprio dos cientistas, mas sentia nojo das criaturas que vira e detestara aquele lugar. Sua única prioridade era descobrir o necessário para colocar Ísis em funcionamento e retornar para seu pequeno centro de pesquisas.

"Pequeno, mas asseado" – pensava, torcendo o nariz fino e delicado.

Mas a física de partículas não tinha como voltar, pois Ísis gastara quase toda sua energia naquela viagem. Tornara-se imprescindível encontrar um meio de reabastecer a máquina. Para isso, a cientista precisaria conhecer melhor aquele lugar. E, se não encontrasse uma forma de realimentar Ísis, a única alternativa seria aprender a viver ali, algo que preferia nem sequer cogitar.

De qualquer forma, tinha que se misturar entre eles, descobrir o que poderia significar aquele “1, 2, 3, 5, ira, ira”, ou coisa parecida. Pediu diversas vezes à sua protetora que lhe falasse mais sobre Lodo; porém, não sabia se por medo ou por falta de lucidez, sua única amiga ali teimava em repetir coisas sem nexo. A mulher parecia ter endoidado de vez.

Assustada, Clarice sentia-se só, num mundo para lá de esquisito. Não tinha com quem contar. Quase entrou em desespero, mas era necessário juntar coragem e agir. Investigar, desvendar – exatamente como gostava de fazer, desde criança, quando estava diante de um filme ou livro de suspense. Após três semanas em Lata, finalmente decidiu que no dia seguinte iria encontrar uma maneira de conhecer melhor aquele lugar.

– E de reabastecer Ísis – murmurou, tentando juntar coragem.

Clarice dormiu mal naquela noite, a exemplo das anteriores. Lavou-se como pôde, com a água turva que havia na casa. Como trouxera consigo um vidro de perfume (sempre o trazia em sua pequena mochila), decidiu vaporizar um pouco em seu pescoço: fora a maneira que encontrara de combater os odores desagradáveis que tudo (e todos) exalavam.

Naquele dia, notou que sua protetora não era tão alienada quanto lhe parecera. A mulher percebeu que a jovem perfumada pretendia partir e apressou-se em lhe fornecer alguns alimentos. Na verdade, era quase tudo o que possuía na casa. Clarice ficou surpresa e emocionada; seus olhos marejaram.

– Um, dois, três, cinco – disse a senhora, com os olhos arregalados.
Ela sequer sabe contar, pensou Clarice, com ar aborrecido.

– Ira, ira! – completou a estranha mulher, apertando os ombros de Clarice.

Era uma criatura bondosa. Clarice começava a se afeiçoar por ela, mas não podia continuar ali. Precisava encontrar um jeito de voltar para o seu devido lugar, no tempo e no espaço. Com esse pensamento, deu um beijo no rosto daquela senhora, com os olhos molhados e o nariz enojado. Abraçou-a, com repugnância e carinho. A mulher grunhiu e recuou um passo. Recebera o abraço com a surpresa de quem vê o mar pela primeira vez. Segundos depois, Clarice podia jurar que a mulher tinha o amor estampado nos olhos e parecia tentar encontrar uma maneira de não deixá-la partir. A alagoana hesitou por um momento, mas acabou abrindo a porta e deixando a habitação.

– Cuidado – ouviu ao longe. A voz da maternal criatura estava embargada e emocionou a cientista, mas não mudou seus planos de seguir adiante.

******

O ar estava mais seco que de costume e queimava seus olhos e garganta com voracidade. Após caminhar com dificuldade por alguns quilômetros, Clarice vislumbrou ao longe uma fantasmagórica arquitetura, que pareceu chocar suas sinapses. Uma sensação de dèja-vu apoderou-se dela. Num relance, lembrou-se de uma obra de Niemayer.

"Não, não pode ser", pensou, um tanto confusa. E prosseguiu, voltando a maquinar em sua mente onde poderia começar a procurar pelo valioso combustível. Se é que havia alguma possibilidade de encontrá-lo naquele lugar...

Clarice caminhou por muitas horas, abastecendo-se com frequência da água que trouxera e praguejando contra tudo que encontrava pelo caminho.

Enquanto caminhava, alerta, pelas ruas sombrias, vaporizou mais um pouco de perfume em volta de seu tronco, tentando não ser contaminada com o cheiro horrível que sempre estava no ar. Depois de muitos tropeções, vociferou:

– Este lugar não pode ser um planeta! Deve ser o próprio Inferno!

As maiores dificuldades, todavia, estavam sendo enfrentadas por sua corajosa protetora. A mulher tinha a mesma estatura que Clarice e uma compleição física muito parecida, mas estava fraca e envelhecida, por certo devido às condições absurdas que tinha que enfrentar para sobreviver. De alguma forma, ela sabia o que faltava para que Clarice realizasse sua tão sonhada jornada de retorno, assim como onde encontrar o valioso produto. Mancando bastante, a mulher conseguiu conduzir seu corpo frágil até um imenso galpão, repleto de containers parcialmente destruídos, mas muito bem vigiados por figuras humanoides assustadoras, que pareciam fazer o policiamento do local. Tomando todas as precauções para não ser notada, instalou uma geringonça num canto lúgubre do salão e escondeu-se atrás de um dos containers. Pouco mais de dez minutos depois, o aparelho instalado promoveu uma verdadeira algazarra no local, emitindo uma escandalosa sirene.

Em instantes, as figuras assustadoras que tomavam conta do lugar correram em direção ao artefato. Aproveitando a oportunidade, mesmo com toda a dificuldade que tinha para caminhar com rapidez, a mulher conseguiu adentrar um dos containers e se apoderar de uma pequena caixa azul cobalto. Era bem mais inteligente do que aparentava ser. Com cuidado, escondeu-se novamente entre algumas caixas e aguardou o momento certo para sair dali. Depois, perambulou por mais alguns quilômetros até chegar, exaurida, no local onde Ísis estacionara no dia da chegada de Clarice.

Felizmente, ninguém a alcançara.

Ao menos, até aquele momento.

******

Num outro canto da cidade, a física, sempre obcecada por seus medos e manias, ainda não percebera que estava numa espécie de Brasil alternativo da segunda metade do século XXI: um lugar onde as pessoas não viviam, apenas tentavam sobreviver. A guerra nuclear afetara suas mentes, seus corpos e seus modos de vida. Porém, numa coisa Clarice estava certa: aquilo era realmente um vislumbre do Inferno.

Embora dominada por mais uma obsessão – a de sumir dali o quanto antes –, Clarice não conseguia se livrar da imagem de sua protetora. Havia se arrependido de deixá-la para trás. Começava a sentir que entre elas havia um forte laço, algo talvez... familiar! Pareceu-lhe absurdo cogitar esta possibilidade, mas o sentimento era agora muito forte. Deveria retornar? Não sabia. Estava confusa demais para entender o que se passava; só conseguia pensar que preferia que aquilo não passasse de um pesadelo.

Mas tudo era muito real.

A verdade é que não havia esperanças naquele lugar, conhecido como Planalto Central de Lata. Não depois da má utilização do U-235* e do acordo nuclear que, naquela realidade, fora assinado com um país outrora conhecido como Pérsia. Foi isso que, quatro dias depois de ter deixado sua amiga, Clarice descobriu numa espécie de biblioteca abandonada, que, além de velhos livros, tinha também alguns registros históricos em vídeo. A descoberta deixou-lhe desnorteada: então ela viajara pelo continuum espaço-tempo, adentrando uma espécie de universo paralelo! Deixando o medo e o asco de lado – e observando tudo apenas pelo lado científico –, aquilo era fascinante!

Com as pernas doloridas, Clarice procurou um lugar naquela biblioteca onde pudesse descansar um pouco. Encontrou uma pequena sala marmorizada – talvez o único ambiente razoavelmente limpo que existia em Lata. Um tanto aliviada, decidiu fazer daquele local deserto sua moradia provisória. Depois de suspirar fundo duas vezes, fechou seus grandes olhos negros, recostou-se a uma parede e deixou seu corpo cansado descer até o chão. Lembrou-se de que Ísis estava escondida perto do pátio no qual desembarcara semanas atrás e de que ainda havia na máquina combustível suficiente para pequenos deslocamentos. Abriu sua mochila (estava suja – argh!), tirou dela um pequeno aparelho em forma de elipse e apertou seu botão central. Segundos depois, Ísis materializou-se à sua frente. Clarice sorriu, orgulhosa diante de sua mais brilhante criação.

A princípio, a alagoana não pretendia desperdiçar o pouco combustível que restara, mas havia decidido trazer sua protetora e abrigá-la consigo naquela biblioteca. Lá as condições de vida eram bem melhores do que a residência da pobre mulher. A cientista estava cansada demais para andar todo o caminho de volta, então decidira usar Isis para buscá-la. Concluíra que o bem-estar de sua protetora era mais valioso que o combustível que restava no reservatório da máquina.

Clarice digitou no pequeno aparelho que pegara em sua mochila as coordenadas para que Ísis a levasse de volta à moradia de sua protetora. Ao se aproximar de Ísis, todavia, seu coração disparou: o mostrador de combustível tinha a luz azul acesa, indicando que o reservatório estava carregado com energia suficiente para longas viagens! A alagoana soltou um par de gritos histéricos, agitando os braços em direção ao céu, num misto de surpresa e alegria. Seus olhos, maculados pela secura do ambiente, não puderam lacrimejar naquele momento. A sensação de querer chorar e não conseguir era bastante incômoda e Clarice acabou manifestando sua emoção entre soluços:

– Mamãe estava certa: anjos da guarda existem!

Trêmula, Clarice ajeitou-se num dos dois únicos assentos da pequena Ísis. Ainda muito emocionada, bradou:

– Vou voltar agora mesmo para buscar minha amiga e a levarei comigo para uma Terra melhor!

E lá se foi a agitada Clarice, disposta a voltar acompanhada daquela infeliz criatura. Antes de acionar a partida, refletiu novamente sobre o semblante daquela mulher, que, de alguma forma, trazia nos traços disformes algo familiar.

– Estou sob estresse; minha mente deve estar confusa – disse a si mesma. E seguiu o caminho traçado.

Sim, estava estressada e confusa, mas não perdera sua intuição feminina e o poder de observação próprio dos cientistas. Instantes atrás, Clarice dissera a si mesma que anjos da guarda existem. E estava certa. O estranho é que, às vezes, eles podem ser as criaturas mais improváveis que aparecem em nossas vidas. Clarice tinha nojo de tudo que não lhe encantasse os sentidos, mas fora justamente aquela figura suja, maltrapilha e com ares de imbecilidade quem, de forma corajosa e altruísta, encontrara o combustível necessário e reabastecera sua incrível máquina.

Aquela mulher era a versão de Clarice naquele mundo alternativo. Criada em condições sub-humanas, não tivera meios de se tornar uma grande cientista, mas desenvolvera ao extremo seu instinto maternal e protetor, algo que a cientista não fazia há muito tempo. A mulher vira em Clarice uma verdadeira filha e a tratara como tal.

Clarice chegou à residência de sua protetora exatamente no momento em que ela estava sendo atacada pelas fantasmagóricas figuras que faziam a segurança do galpão que a mulher assaltara. Dias depois, elas haviam finalmente descoberto quem fora a autora do roubo e conseguiram encontrá-la. A dicção das criaturas não era perfeita, mas a cientista identificou a expressão “ladra” e imediatamente compreendeu o “milagre” do reabastecimento de sua máquina. A bela alagoana pensou com rapidez e acionou uma das alavancas no painel à sua frente, simulando uma nova viagem: luzes multicoloridas tomaram conta do ambiente e conseguiram causar algum espanto naquelas criaturas sinistras, que se afastaram alguns passos.

A cientista não perdeu tempo e correu ao encontro da pessoa que a abrigara tão piedosamente. Tomá-la nos braços e arrastá-la até perto de Ísis não foi tão difícil quanto imaginara, pois a mulher estava muito debilitada. A física novamente agiu com celeridade, mas as criaturas não demoraram muito para se recuperar da surpresa causada pelas luzes ofuscantes. Clarice e sua protetora foram alcançadas antes que ingressassem na máquina. Com o coração quase saindo pela boca, a alagoana apressou-se em colocar-se à frente da mulher que a abrigara, protegendo-a com seu corpo. Mais uma vez, teve a rara experiência de ouvir a voz dela, embora fragilizada e quase inaudível:

– Obrigada – uma única palavra, mas pronunciada com tamanha sinceridade, que fez a cientista chorar.

Uma batalha corporal iniciou-se e Clarice parecia não ter chance contra aqueles seres. Sua única vantagem era a agilidade de seus movimentos, bem mais rápidos que os de seus adversários. De forma estabanada, lutou como pôde contra eles, mas estava sendo massacrada. Quando suas forças se esvaíam, Ísis decidiu surpreendê-la: por intermédio de alguma incompreensível energia, transportou a cientista e a frágil senhora para seus dois únicos assentos. A máquina demonstrava possuir vontade própria e acionou-se uma fração de segundos antes de serem atingidas pelas armas que as criaturas começaram a disparar.

No instante seguinte, já não estavam mais ali.

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De volta à nossa realidade, Clarice realizou o sonho de ser respeitada por todos no meio científico. Os exaustivos exames feitos na Clarice de Lodo comprovaram que as duas eram realmente a mesma pessoa. Assim, sua protetora tornou-se a maior prova de sua viagem àquela realidade. A cientista de Maceió passou a ser conhecida como o maior expoente da ciência nacional, pois havia provado a existência de universos paralelos e realidades alternativas, o que descortinou um horizonte imenso de possibilidades, estimulando novas pesquisas e descobertas em vários ramos do conhecimento humano.

Ísis tornara-se, naturalmente, a máquina mais famosa do mundo. E ambas – a obstinada cientista e seu improvável engenho – foram convocadas para participar dos mais importantes congressos científicos mundiais.

Uma heroína? Não, Clarice não cedera à soberba de se julgar uma heroína. Era apenas uma boa física de partículas, que trabalhara bastante e conseguira realizar um feito impressionante. Compreendia agora que fora uma heroína sim, mas durante o período de dois anos em que amara e cuidara de sua Júlia com bravura, fazendo de tudo para que ela não falecesse. Se possível, teria dado a vida para salvar sua garotinha. "Isso sim é heroísmo", pensou a cientista, "um heroísmo compartilhado por muitas outras mulheres". E fora exatamente isso que sua protetora fizera por ela, ao acolhê-la e depois arriscar a vida para que Clarice tivesse a chance de voltar à sua realidade.

Infelizmente, a boa senhora não resistira aos ferimentos que sofrera. Ela falecera, assim como a pequena Júlia, e transformara-se em mais uma saudade doída na vida da cientista alagoana. Entretanto, o exemplo daquela mulher suja, maltrapilha e de modos toscos, que ironicamente era uma faceta sua, acabou com os preconceitos da cientista. Seu legado ficaria impregnado em sua alma para sempre.

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Dois anos depois do episódio, numa tarde de verão, Clarice lembrava-se com ternura da grande amiga que lhe abrira os olhos para as coisas mais importantes da vida. Matutava no quanto as duas eram diferentes sob vários aspectos, mas, ao mesmo tempo, iguais e complementares.

“É assim que somos todos nós, humanos deste planeta: diferentes na aparência, mas essencialmente iguais” – refletia a cientista. “Quando percebermos que somos frutos da mesma semente, aprenderemos a amar a todos e a jamais deixar alguém sozinho, mesmo que suas condições nos causem repugnância. Para tanto, não é preciso ser cientista, tampouco viajar no tempo ou no espaço: basta ouvir a voz de nossa consciência.”

No fim das contas, tudo valera à pena, inclusive sua dedicação incansável à ciência, que tantas horas de sono haviam lhe custado. Afinal, se não fosse por Ísis – a deusa da maternidade e da fertilidade – Clarice não teria viajado àquele universo alternativo onde reencontrou em si o mais nobre sentimento que a Natureza nos concedeu.

Sim, ele. O amor.

Protetor e maternal.
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(*) - U-235 é o nome científico utilizado para designar uma forma de urânio enriquecido.