sábado, 11 de fevereiro de 2017

Amadurecendo


Há criaturas mitológicas que se comprazem em conquistar o coração de seres humanos e depois os abandonam, sem demonstrar quaisquer escrúpulos. Alguns seres fantásticos chegam ao cúmulo de impor sofrimentos físicos aos pobres apaixonados, verdadeiras vítimas de seus instintos vorazes e primitivos. Por vezes até os matam, ou lhes causam mutilações.
Bem, todos nós sabemos que aqueles que chegam a este ponto são verdadeiros criminosos. Felizmente, não sou como eles. Mas – preciso confessar –, também tenho meus pecados: agi de forma inconsequente durante muito, muito tempo. Entretanto, com o passar dos anos, a consciência pode nos dar um alerta, ainda que tardio.
Foi o que aconteceu comigo.
Nós, os botos, sempre fomos hábeis conquistadores. Amantes perfeitos. E nos orgulhamos muito das nossas façanhas sexuais. Além disso, somos especialistas na arte de esquecer antigos amores. Isso nos deixa seguros, cheios de si. Nós nunca sofremos por amor.
Bem, pelo menos foi assim durante um bom tempo.
Um dia a coisa muda, disse-me certa vez o Saci. Quem machuca os outros um dia pode sair machucado – emendou o simpático traquinas. Eu não lhe dei ouvidos na época. Afinal, os seres humanos sempre foram muito vulneráveis aos encantos das criaturas oriundas do reino da fantasia. Um boto jamais imaginaria algum dia apaixonar-se por uma mulher, muito menos vir a sofrer posteriormente em consequência de suas atitudes imponderadas.
As fêmeas humanas é que se apaixonam pelos fantásticos. Nós seguimos adiante, buscando novas diversões – foi o que me afirmou certa vez, todo pomposo, o Rei dos Botos, quando eu ainda era muito jovem. É assim que funciona desde o início dos tempos e assim sempre será – ele completou, julgando vaticinar. Porém, sua filosofia machista não resistiu aos novos tempos.
Aconteceu há cerca de doze anos. Era noite de São João, uma noite estrelada, de lua cheia, muito, muito bela. O clima e o cenário celeste transpiravam alegria, paixão e romantismo. Às margens do Rio Negro, uma alegre festança começava. A música alta alertou meus sentidos, despertando minha atenção. Como todos os botos da região, eu sabia muito bem que aquelas festas juninas eram repletas de jovens belas e – o que mais me interessava, em minha malícia de caçador – inocentes. E lá fui eu – todo animado! Estava pronto para uma nova conquista, ansioso por outra aventura sexual.
Cheguei de mansinho, trajando um impecável terno branco. A camisa e os sapatos – também muito alvos –, bem como os cabelos negros penteados com esmero completavam meu caprichado visual. Ah, e eu estava usando meu velho chapéu, porque os botos jamais se transformam por completo em homens: há sempre uma pequena saliência no crânio, que precisamos ocultar para não chamar a atenção dos mais desconfiados.
Como de costume, caminhei entre as barracas, distribuindo educados cumprimentos a todos. Apreciava o movimento com ares recatados, porém atento às melhores oportunidades de galanteio. E... Não demorou muito para notá-la – a mulher que deu causa à minha transformação! Meus olhos logo ficaram enfeitiçados por aquela garota de corpo esguio, pele clara, cabelos (à altura dos ombros) e olhos castanhos. Tinha uma aparência angelical, típica das mulheres jovens e inexperientes. No instante em que a vi, senti meu sangue quente começar a fluir com mais intensidade em minhas veias.
Respirei profundamente, repassando em minha mente libidinosa todas as etapas da sedução que eu planejava. Aproximei-me com elegância, oferecendo-lhe, com um sorriso tímido e fingida ingenuidade, um saco de pipocas e um copo de guaraná. A oferenda era propositadamente simples: tinha o objetivo de ludibriar a garota com uma candura inexistente e ocultar-lhe minhas verdadeiras e lascivas intenções. Pretendia indicar-lhe tão somente um mero flerte, ou apenas a busca de uma conversa descontraída e despretensiosa. O intuito era fazer com que meu charme de boto cuidasse aos poucos – como sempre fazia – do restante de meu infalível ritual de conquista. Desta forma, a vitória se me afigurava mais prazerosa, pois este procedimento me concedia tempo suficiente para curtir a queda gradual de cada uma das frágeis defesas que uma fêmea humana pode oferecer a um fantástico. Eu me excitava muito ao agir assim: a sensação de poder e o êxtase de me sentir irresistível embriagavam meu ego.
Ao notar minha chegada, ela olhou diretamente em meus olhos e sorriu. Um sorriso ingênuo e encantador, que causou um efeito devastador em meus hormônios, acelerando a demonstração de minhas verdadeiras intenções. Retribuí o sorriso da bela jovem, provavelmente já com indisfarçável malícia em meu olhar.
Ao lado dela, logo comecei a experimentar uma sensação inédita para mim. Era uma espécie de tensão, que interpretei, naquele momento, como fruto de uma indisposição física passageira. Mal sabia o quanto estava equivocado...
O que deveria ter sido trivial tornou-se um bocado complicado: foi preciso muito esforço para que eu me concentrasse em minha tarefa. Na ocasião, não consegui identificar o amor instalando-se em meu peito, certamente porque não estava familiarizado com este sentimento (quanta vida desperdiçada com sentimentos e sensações fugazes!). Minha vivência resumia-se ao mundo do prazer, da lascívia; no plano emocional, eu ainda tinha uma longa estrada a percorrer. Entretanto, como todo bom e experiente galanteador, eu soube conversar sem jamais desviar os olhos dela. Era assim que eu cativava minhas presas: meus olhos hipnotizavam. Com Luísa – sim, ainda me recordo de seu nome! – acabou acontecendo da mesma forma. Em alguns minutos, já trocávamos carinhos.
Um conjunto regional tocava canções animadas para embalar a festança que acontecia. Com todos os sentidos maximizados, notei que alguns casais bailavam ao som daquelas músicas, numa coreografia muito sensual. Inebriado pela atmosfera que nos envolvia, convidei-a para dançar. Durante a música, nossos corpos se tocaram de forma mais ardente. Entretanto, foi no momento em que nossas bocas se encontraram que eu tive a certeza de que ela era especial.
Por toda a madrugada, nos amamos de uma forma intensa, apaixonada, arrebatadora. Foi a primeira vez que senti meu coração disparar. Lembro-me como se fosse hoje do quanto aquela reação fisiológica me assustou.
Quando o dia amanheceu, uma imposição da Natureza: eu precisava voltar para o rio e reassumir minha forma física habitual. Foi o que fiz, embora um tanto hesitante, enquanto ela dormia. Se quisesse, eu poderia pedir a Tupã que a levasse comigo para o Rio Negro, transformando-a numa Iara. Claro, desde que houvesse o consentimento de Luísa. Mas minha natureza de boto falou mais alto. Disse a mim mesmo: Com tantas mulheres por aí, todas vulneráveis às minhas artimanhas, porque me acorrentar a uma delas?
Decidi esquecê-la, pois acreditava que o ato de esquecer dependia de uma mera resolução. Ledo engano...
Luísa, por outro lado, nem sequer tentou me esquecer. Fiquei sabendo que, por anos, ela alimentou a esperança de que algum dia eu voltasse para desposá-la. Movido por minha equivocada compreensão do que é ser um macho de verdade, eu não fiz isso. Pelo contrário: fui para outras bandas do rio e conheci mulheres de outras paragens. Tive novos prazeres e por algum tempo quase não senti a falta dela. Quase.
Com o passar dos anos, o prazer que eu encontrava nas outras moças, embora me satisfizesse sexualmente, não mais era suficiente para que eu me sentisse feliz. Passei a sentir um vazio inédito, impiedoso. A lembrança de Luísa tornava-se cada vez mais forte. Em toda minha existência, ela havia sido a única mulher que aquecera meu insensível coração de boto.
Descobri, finalmente, que a amava.
Meses atrás, um amigo contou-me ter visto Luísa trazendo a seu lado um rapazola de nariz alongado, que usava um insólito chapéu azul de feltro. Um menino de aproximadamente onze anos de idade, ele me disse. Quando recebi a notícia, não tive dúvidas: o garoto era meu filho! Os filhos de boto dificilmente vingam, pois a mistura de DNA humano e fantástico é muito instável. Mas até nisto Luísa era diferente das outras mulheres. Ela dera à luz um meio boto, um ser metade humano, metade fantástico – uma criatura rara!
Minha ansiedade fez com que eu voltasse, dias depois, àquela margem do rio, da qual me afastara há tantos anos. E não foi difícil rever minha amada.
Luísa já não era uma jovem franzina; tornara-se uma linda mulher, de corpo escultural e andar confiante. Escondido atrás de uma frondosa árvore, a vi caminhar ao lado do menino boto – provavelmente minha única cria! Pela segunda vez em minha longa vida, meu coração disparou. Pensei em chamar seu nome, mas notei que havia outra jovem ao seu lado. Estavam de mãos dadas e sorridentes. Minha voz ficou presa na garganta.
Não compreendi muito bem aquela imagem. Ela teria uma irmã? Ou seria uma grande amiga? Seja lá o que significasse tal cena, o fato é que as duas pareciam trocar confidências e compartilhar de uma grande estima, sentimento que hoje eu valorizo muito.
Intrigado com a ausência de minha habitual autoconfiança, eu tentei me aproximar, mas minhas pernas vacilaram. Talvez – pensei, entorpecido por minha soberba de boto – eu estivesse apenas um tanto enferrujado, pois não utilizava meu corpo humano há mais de uma semana. No entanto, o suor frio que escorria em minhas mãos denunciava que eu estava nervoso. Uma nova e desagradável sensação que descobria em minha faceta humana: a insegurança.
Um boto inseguro diante de uma mulher? Inadmissível! – Era assim que eu pensava. Mas tenho mudado meus conceitos.
Não tive coragem de me aproximar de Luísa naquele dia. Pensei em não mais procurá-la, talvez porque tenha extemporaneamente compreendido que nenhum homem ou boto pode se julgar dono de uma mulher. Ainda mais depois de vários anos passados. E de tê-la feito sofrer tanto à minha espera....
A verdade é que eu fora um crápula, não menos que isso. Com esta postura, causei sofrimento à única criatura que amei em minha vida. Agora sinto vergonha, vergonha e saudade. Vergonha de quem fui; saudade de minha doce Luísa. E remorso por ter sido tão insensível, frio e imaturo.
Faltou-me o que jamais pode faltar a qualquer criatura: caráter.
[Uma lágrima].
******
Mais algumas semanas se passaram e eu não resisti à tentação de vê-la novamente. A ela e a meu único filho.
Regressei às margens do Rio Negro, nas proximidades da casa de Luísa. Escondi-me atrás da mesma árvore e aguardei pacientemente. Demorou algumas horas até que ela surgisse mais uma vez, mas a espera valeu: linda – mas linda do que nunca – lá estava ela! Trajava um curtíssimo vestido vermelho e esbanjava graça e sensualidade. Mas o que mais chamara a atenção de meus aguçados sentidos de boto fora a felicidade que se irradiava de cada poro de seu corpo. Sim, era isso que a estava deixando ainda mais bela – a felicidade!
Naquele momento, não pude evitar uma reflexão que abalou minha autoestima: estava diante de uma mulher que se mostrava no auge de sua beleza e que estava mais feliz do que estivera, anos atrás, na companhia de um boto. Para mim, em minha suprema vaidade, aquilo parecia incompreensível.
Desta vez, Luísa não trazia consigo nosso filho. Apenas passeava – novamente, de mãos dadas – com aquela sua amiga misteriosa. Perplexo, passei a observá-las melhor: o carinho, a cumplicidade, a troca de olhares...
Quando chegaram bem próximas à árvore onde eu me escondia, meu coração atingiu um ritmo frenético. Algo surreal para meus olhos conservadores começou a acontecer: entre sorrisos e suspiros, Luísa abraçou a outra jovem – uma descendente de índia, quase tão bela quanto minha amada – e a beijou de forma doce e delicada, fazendo a outra garota estremecer.
O beijo foi retribuído. Uma, duas vezes. Os abraços e as carícias iam, pouco a pouco, tornando-se mais voluptuosos. E tudo isso sem a pressa, tão comum nos botos e nos homens, de chegar ao êxtase. Elas desfrutavam de um prazer terno e tranquilo, porém de uma intensidade que impressionava.
Confesso: não senti apenas meu orgulho de macho ferido. Senti inveja também, inveja por não me considerar capaz de atingir tão alto nível de sensualidade.
Em seguida, gemidos de prazer assustaram meus ouvidos, desafiando minhas sinapses cerebrais e minha deturpada compreensão do que é devassidão. Fiquei estupefato, dividido entre a indignação e o desejo. Eu não estava preparado para aquilo.
Sinal dos tempos – é o que diria uma Bruxa que mora nos confins do Rio Urubuí. Os humanos estão se desvirtuando, ela afirmaria, arregalando seus grandes e tenebrosos olhos negros. Bem, é o que ela acha, porém bruxas são preconceituosas, coisa que eu não quero ser. Pelo menos, não mais do que já fui.
Por fim, Luísa e sua companheira ficaram unidas num longo abraço, tão afetuoso quanto eu jamais vira (a bem da verdade, tão afetuoso quanto eu jamais fora capaz de dar). Depois, trocaram juras de amor. Não havia como ter dúvidas: eram juras sinceras. E o que me pareceu contraditório à época: era uma cena muito, muito bonita!
Em meio ao clima de romance, pude ouvir Luísa dizer claramente:
– Você preencheu um vazio imenso que passou a existir em mim desde que o boto se foi. Pensei que nunca mais encontraria alguém que me proporcionasse tanto prazer quanto ele, mas você faz mais do que isso. Você é mais doce, mais carinhosa. Você me dá amor.
Atônito, escutei em seguida a jovem índia comentar, de forma emocionada:
Lu, graças a você tenho me sentido muito feliz nos últimos cinco anos. Eu a amo muito. Você e seu pequeno boto são as criaturas mais importantes que apareceram em minha vida!
Sim; depois de alguns anos de sofrimento, Luísa havia decidido não esperar mais por mim. O mais insólito, todavia, para minhas preconceituosas premissas, é que ela encontrara sua outra metade na pele de uma criatura do mesmo sexo.
Como explicar aquilo? Como aceitar, se eu mal conseguia concatenar meus pensamentos naquele momento? Foi então que recordei as sábias palavras de uma Sibila que conheci há algumas décadas, nas proximidades do encontro das águas do Rio Negro com o Solimões:
Quando você se sentir confuso diante de algo, é porque está apenas começando a compreendê-lo. Os conflitos proporcionam o início dos aprendizados.
Não me lembro de qual teria sido a razão que a levou a me dizer estas palavras, mas a frase ficou guardada em minha memória. E agora parecia fazer certo sentido.
Naquele dia, diante da bela cena que presenciei, posso dizer que comecei a entender o real significado do Amor. Vislumbrei – apenas vislumbrei – o quanto ele é mais sublime do que o mero prazer. E, sobretudo, o quanto ele é universal, livre de fórmulas e isento de preconceitos.
Agora, contando-lhes esta história, penso mais uma vez na dor que fiz Luísa sentir por tantos anos. Impossível evitar uma conclusão avassaladora: o fato de ela estar feliz agora aliviava minha consciência, mas não tinha o poder de apagar o mal que eu lhe fizera.
E quanto às outras garotas que eu iludira? Como estariam agora? Seriam felizes?
Minhas culpas; meus pecados. Eles voltaram a me assombrar. E de forma muito mais assustadora do que os velhos fantasmas que à noite espreitam as margens dos rios amazônicos, gemendo e assoviando, numa sinfonia que me soava acusatória. Culpado! – pareciam gritar para mim os quatro ventos do Norte. De fato, é como tenho me sentido há um bom tempo – culpado.
Mais uma lágrima escorreu em meu rosto. Acostumado a ser frio e calculista, eu não sabia que os botos podiam chorar. Mas nós podemos sim, claro que podemos. Nem poderia ser diferente. Botos podem chorar; homens também.
Não há vergonha nenhuma nisso.
Creio estar começando a entender que a verdadeira masculinidade só é alcançada quando o macho se aproxima, em suas emoções, do feminino. É a partir daí que ele passa a ter uma visão mais abrangente de tudo, que adquire sabedoria e bondade para compartilhar com sua fêmea. Infelizmente, é também a partir deste momento que ele começa a identificar os erros cometidos no passado.
E a sofrer com eles...
******
Ontem, pedi a Tupã para não ser mais um boto. Roguei para que Ele me transformasse em um homem, comum como outro qualquer. Não posso consertar a maioria dos erros do passado, mas posso [e devo] evitar cometer as mesmas falhas de agora em diante. Penso – espero estar certo – que esta será uma tarefa menos difícil se eu estiver na pele de uma criatura reflexiva por natureza: o ser humano.
O tempo dirá se estou certo. De uma coisa, porém, não tenho dúvidas: adquiri aversão pelo antigo hábito de iludir as mulheres, bem como de me deleitar em propalar minhas façanhas sexuais. Conheci a dor de sofrer por amor e ela fez com que eu amadurecesse um pouco.
Sem atitudes levianas de agora em diante – é a promessa que me faço.
Com este princípio de amadurecimento, penso estar consolidando em minha mente a importância de se respeitar as outras criaturas. Suas opiniões, seus desejos, necessidades e sentimentos às vezes podem ser muito diferentes dos nossos, mas isso não os faz menos dignos ou importantes. Agora vislumbro que o mundo e seus habitantes são enriquecidos pela diversidade. E não apenas no aspecto sexual, mas em tudo – absolutamente tudo – na vida. Talvez, devamos encarar as diferenças com naturalidade, e não com desconfiança. Mais do que isso: passar a vê-las como uma oportunidade de aprendizado.
Aliás, estive pensando esta manhã: se aquela jovem de descendência indígena é capaz de fazer feliz uma criatura tão adorável quanto Luísa, eu só posso concluir que ela também é uma pessoa especial. Isto não é nenhuma espécie de sentimentalismo; é uma conclusão lógica, racional.
Nada melhor do que me tornar um ser humano para vivenciar e refletir melhor sobre tudo isso. Os sentimentos humanos – ao menos os quais que tenho experimentado – são muito intensos (e, por vezes, doloridos), mas nos ajudam a aprender coisas novas. Acho que a mudança será boa para mim, pois sou bom observador e estou começando a sentir necessidade em compreender melhor o mundo ao meu redor, bem como as outras criaturas que o habitam.
Espero pela metamorfose. A ansiedade é grande.
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Tupã, sempre bondoso, atendeu meu pedido. Hoje, sou um homem comum, tão vulnerável às vicissitudes humanas quanto qualquer um de vocês. E vivencio uma inquietante sensação de insegurança, mesclada com curiosidade (e acho que com certa dose de euforia também). Na verdade, tudo parece mais complexo agora, ainda mais complexo do que estava sendo nos dias que antecederam minha transformação. Espero aprender a lidar com todas estas dádivas, para que elas não venham a se transformar em maldições. Noto claramente que este perigo existe, mas pretendo enfrentá-lo com a dignidade que me faltou em outras ocasiões.
Como humano, minha primeira atitude será lhes dar um conselho. Sei que não me solicitaram isso, mas sinto verdadeira necessidade de fazer um alerta. Perdoem-me se soar como um mero desabafo, ou se lhes parecer fruto de soberba da minha parte, mas preciso fazer este pronunciamento: Cuidado! Não brinquem com os sentimentos alheios. Vejam o que aconteceu comigo, um boto imaturo e preconceituoso, que acreditava ter um coração de pedra. Pode muito bem acontecer com vocês também. A pessoa que você conquistou e julgou ser sua propriedade pode se apaixonar novamente. E seu novo amor pode cuidar dela melhor do que você. Lembrem-se: um dia é da caça; o outro, do caçador. Ou, melhor dizendo: num dia você fere, no outro será ferido.
Deixarei minha bela Luísa seguir seu caminho em paz, ao lado de sua companheira. Como costumam dizer os humanos, tive minha oportunidade com ela e a desperdicei. Cumpre a mim, agora, apenas torcer para que ela seja sempre muito feliz. Estou certo de que esta é a maneira mais nobre que tenho atualmente para expressar meu amor por ela.
O danado do Saci estava certo quando disse que um dia as coisas mudariam. A Sibila também, ao me falar sobre o verdadeiro aprendizado (ele começa agora!). E ela me disse também que essa história – a do macho que engravida a fêmea e depois a deixa só – é muito comum entre os humanos. Um erro que espero nunca mais voltar a cometer.
O Rei dos Botos? A Bruxa? Voltei a falar com eles e... Bem, ficou muito claro para mim que jamais terão humildade suficiente para rever ou – ao menos – questionar seus pontos de vista. É uma pena, mas algumas criaturas não amadurecem nunca. Estão engessadas em seus “pré-conceitos”.
Uma constatação final: restou-me a tristeza de nunca ter conversado com meu filho, de nem sequer saber o seu nome. Ainda posso tentar fazê-lo, mas... Será que tenho o direito? Já não lhes terei feito – a Luísa e a meu garoto – mal suficiente? Sob quais alegações eu poderia reaparecer agora? Olá, fiquei me divertindo durante doze anos, mas agora resolvi reaparecer? E quanto ao impacto que meu retorno poderia causar no coração de Luísa? Não, não posso correr o risco de, mesmo de forma não intencional, interferir no amor que existe entre os três. Eles constituíram uma família, um tipo de família que, há algum tempo, eu consideraria uma aberração, mas que hoje vejo com naturalidade, uma naturalidade que deveria ser compartilhada por todos.
Quem sabe, eu venha a espiar o menino boto mais algumas vezes, às escondidas, apenas para me certificar de que ele está bem. Se algum dia precisarem de mim – quaisquer dos três, ou todos eles – eu estarei por perto, como uma espécie de anjo da guarda.
Ou apenas como um pai ausente, que finalmente amadureceu.



(Ricardo Guilherme dos Santos)


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Nazareth em São Paulo: Sim, é possível seguir adiante

Após oito longos anos, a banda escocesa Nazareth retornou a São Paulo. O último show acontecera no Citibank Hall. Na época, o mítico Dan McCafferty ainda era o vocalista. Eu estive lá e tenho ótimas memórias da performance da banda, então capitaneada pela dupla Dan/Pete Agnew, os simpáticos escoceses naturais de Dunfermline, capital da Escócia na Idade Média.


Lembro-me que Dan tossiu muito no intervalo das músicas. A Doença Obstrutiva Pulmonar Crônica, que forçou sua aposentadoria dos palcos em 2013, já o castigava muito naquela época, mas isso não o impediu de cantar com a mesma maestria de outros tempos. O grupo apresentava o novo CD The News e, como sempre, fez um show festivo, à altura das expectativas de seu exigente público. Para minha alegria, consegui tirar uma foto ao lado de meu ídolo Dan McCafferty (graças à ajuda do amigo Antonio Kuengeski, que intercedeu por mim junto ao produtor do evento).
Desde então, a banda passou pelo Brasil novamente algumas vezes, mas São Paulo ficou de fora. E não é para menos: o público aqui em shows do Nazareth sempre foi pequeno. Apaixonado, louco pela banda, mas pequeno.

Eu me perguntava se ainda teria chances de vê-los aqui em minha cidade. Então veio a triste notícia, em meados de 2013: Dan não poderia continuar se apresentando em shows completos, pois sua DOPC havia avançado muito. Até mesmo respirar estava se tornando difícil.

A banda deveria continuar, ou se aposentar junto com sua maior estrela? A maioria (esmagadora) dos fãs preferia a primeira opção. Os integrantes remanescentes da banda, entretanto, não concordavam. Após alguns meses sem atuar, o Nazareth voltou aos palcos com Linton Osborne, mas a parceria não durou muito. Mais alguns meses de espera (e muitas especulações) até o anúncio do novo vocalista: o experiente Carl Sentance, do Persian Risk, que já havia passado também por bandas como Geezer Butler e Krokus.

Em 2016, aparece a oportunidade de voltar a ver a banda: eles agendaram uma pequena turnê pelo Brasil e incluíram, para minha surpresa, um show em São Paulo.

Sem Dan McCafferty? Com apenas um integrante original? Sim, exatamente assim.

Chegara a hora de ver, ouvir e dar o veredicto acerca da pessoa que teve a petulância de substituir Dan McCafferty, meu maior ídolo da música desde a adolescência.

Senhor Carl Sentance, esteja preparado para um avaliador exigente!

E eis que chega o dia.... A longa espera na fila... A alegria de conhecer Nazamigos da internet (Roni, Daniel, Evandro...)... O show de abertura (“StormSons”, excelente banda, acho que ainda ouviremos falar muito destes caras)... Um longo hiato até os técnicos do Nazareth prepararem o palco, som e instrumentos para o início do espetáculo... Até que, sem a tradicional música celta que antecedia os shows do Nazareth em outros tempos, eis que... Opa, lá estão eles: Lee Agnew na bateria, o mestre Pete Agnew em seu contrabaixo (infestado por camundongos roqueiros), o competentíssimo Jimmy Murrison, guitarrista da banda desde 1994, e...

Uau, Carl Sentance irrompe no palco esbanjando energia e MUITO talento! A abertura do show é com Silver Dollar Forger, do álbum Rampant. Foi impressionante, Carl Sentance conquistou imediatamente a simpatia do público presente. Subiu ao palco confiante, decidido, e em poucos segundos já era a estrela do show. Seu estilo, bastante diferente do de Dan McCafferty, deu nova vida aos clássicos e levou o pequeno, mas vibrante público presente na Estúdio, em Pinheiros, ao delírio.
Dono de voz possante, afinadíssima, ele colocou corpo e alma naquelas músicas que muitos fãs do Nazareth consideravam (sim, no passado) uma heresia serem interpretadas por outro cantor. E foi assim em todas as canções, até o final do show, com a psicodélica Morning Dew.

Não faltaram grandes sucessos como Dream On, Holiday, Where Are You Now, Love Hurts e Love Leads to Madness. Também não ficaram de fora clássicos pesados como Miss Misery, Razamanaz, This Month's Messiah, Changin’ Times e Hair of the Dog. Tudo sempre com participação entusiasmada do público. E, é claro, não poderia faltar Broken Down Angel, primeiro sucesso da banda e uma das poucas músicas tristes que a gente acaba cantando com alegria – “culpa” da belíssima melodia.

A voz de Carl fez eco. Um monstro, um Kaiju no palco. Substitui Dan McCafferty à altura (a bem da verdade, está até melhor que nosso grande Dan estava em anos recentes). Pete Agnew pode ser (alguns dizem que é) um pouco sovina (mas ele é o dono da banda, oras – então tem que ser!), porém é brilhante em seu contrabaixo e uma simpática figura no palco, com seus sorrisos largos e suas caretas tradicionais. Lee Agnew, sempre bem humorado e competente na bateria, fez algumas brincadeiras com Carl, mostrando que a banda está bem entrosada não apenas nos acordes. Jimmy Murrison passou muitos anos sendo contestado, mas hoje é inquestionável na guitarra. Fisicamente, me pareceu um pouco abatido (espero que seja apenas cansaço), mas fez o seu trabalho com o brilhantismo de sempre. Admiro muito este cara, que foi paciente e compreensivo com as críticas nos seus primeiros anos de banda e, sobretudo, muito forte para mostrar a todos que ele merece estar onde está. Resiliência!

Esta é a minha banda favorita, que continua fazendo a trilha sonora da minha vida desde 1983. Vê-los mais uma vez em palcos paulistanos renova e multiplica minha alegria, principalmente porque agora tenho um novo ídolo: CARL SENTANCE!
Parabéns à Brazil Music Agency, ao Mario Rossi, à Feeling Produções e à Kiss FM por terem trazido o Nazareth novamente para a pauliceia desvairada.

Longa vida ao grande NAZ!

Setlist:

Silver Dollar Forger
Miss Misery
Razamanaz
This Flight Tonight
Dream On
Holiday
This Month's Messiah
Turn On Your Reciever
Where Are You Now?
Beggars Day
Changin’ Times
Hair of the Dog
Expect No Mercy
Love Hurts

Love Leads To Madness
Broken Down Angel
Morning Dew


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Conto: Futuro Maculado

Imagem: Desenho "Os Jetsons" (Hanna-Barbera)


Veículos de interessante aerodinâmica, semelhantes aos antigos automóveis, deslizavam pela troposfera em meio a arranha-céus curvilíneos. A arquitetura lembrava o arrojo das linhas de Niemayer, porém os materiais usados nas construções em nada se assemelhavam aos de sua época. Vistos de longe, os prédios pareciam constituídos de um material vítreo e moldável. Havia muitas cores nos arranha-céus, cujo brilho ofuscava os olhos daqueles que os fitavam do chão. Eram prédios esquisitos, retorcidos, mas acho que posso dizer que ainda assim eram belos. A Nova Avenida Paulista, como era chamada pelos habitantes da época, parecia uma autoestrada imaginária, sem delimitação de contornos ou faixas, por intermédio da qual motoristas impacientes realizavam manobras nada convencionais. Não havia sinalização nos cruzamentos. Os veículos, vindos de todas as direções, disputavam espaço com uma voracidade de dar medo. Para resumir: um trânsito apocalíptico.

Ao nível terrestre, transitavam apenas pedestres e ciclistas (se é que se pode chamar de bicicleta os estranhos artefatos reluzentes nos quais aqueles terrícolas do futuro trafegavam). As pessoas aparentavam certa fragilidade. Pareciam anêmicas. Eu caminhava entre elas, nas proximidades do cruzamento da Velha Paulista com a Rua Padre João Manuel. Olhava com assombro para cima, imaginando que a qualquer momento uma colisão poderia ocorrer, resultando na queda de veículos sobre a multidão que se abarrotava nas vias inferiores.

A meu lado, a biocientista Andressa Martins tentava me explicar que o mundo do século vinte e quatro era repleto de maravilhas tecnológicas. Eu não discordava quanto a isto, mas me preocupava com a questão da segurança:

– E essas coisas aí em cima, nunca batem nos prédios? – questionei.

Andressa sorriu, revelando dentes pequenos e alvos. A moça tinha cabelos negros e finos, olhos verdes e uma hipnotizante boca carnuda. Aliás, o vermelho carmim de seus lábios contrastava com a palidez do rosto. O nariz e os ouvidos eram delicados; a voz, doce e meiga. Uma beleza frágil, mas encantadora. Não quis cometer a indelicadeza de perguntar sua idade, mas imaginei algo por volta dos trinta ou trinta e dois anos.

– Há uma energia que circunda os prédios – explicou-me Andressa. – Damos a ela o nome de proteção ondular. Ela atua sobre os componentes eletrônicos dos levimóveis, impedindo que eles se aproximem demais das construções. Se isto acontece, uma mensagem eletrônica é enviada para o computador central dos veículos, ativando os pilotos automáticos, que realizarão manobras de desvio. Há também uma distância mínima regulamentar que os motoristas devem respeitar. Caso tentem desrespeitá-la, uma multa é debitada na conta corrente do infrator no mesmo instante. Este mecanismo tem funcionado com perfeição; não temos um registro sequer de colisões entre levimóveis e prédios.

– E os veículos não podem colidir entre si e caírem em nossas cabeças?

– Os levimóveis são equipados com um sistema computadorizado que se conecta aos demais veículos e a uma estação central de controle. Se um motorista realiza manobras perigosas, os computadores dos levimóveis que estão nas proximidades são avisados e ativam o modo de direção defensiva. O fluxo do trânsito é célere, mas não caótico como pode lhe parecer. E não se deixe enganar pela aparente fragilidade destes pequenos veículos. Eles são dotados de tecnologias capazes de mantê-los no ar mesmo que sofram uma colisão, além de protegerem o condutor e seu passageiro dos efeitos do impacto. Um levimóvel só despencaria caso sofresse várias colisões seguidas de forte intensidade, o que é bastante improvável. Além do mais, acima de nós, a uma altura segura, há o chamado campo de força, uma barreira invisível que amortece os impactos.

– Como funciona este tal campo de força? – quis saber.

– Ele é como uma rede transparente, capaz de suportar o peso de inúmeros veículos no caso de uma queda. Os levimóveis, além de jamais chegarem ao solo, não sofrem danos com o amortecimento gerado pelo campo de força, graças à maleabilidade de sua energia protetora.

Enquanto falava, Andressa demonstrava tamanho orgulho daquela tecnologia, que preferi não compartilhar minhas preocupações sobre uma possível falha no sistema. No início do século vinte e um, época de onde eu vinha, trabalhara como tecnólogo em informática. Não cheguei a ter conhecimentos avançados na área, porém o suficiente para saber que sistemas eletrônicos e informatizados sempre possuem vulnerabilidades. As panes poderiam ser improváveis, mas nunca impossíveis.

Foi então que uma sensação de vertigem fez com que eu tivesse que abaixar a cabeça: desde a reanimação, há dois dias, meu sistema nervoso central parecia um pouco perturbado.

Sou o que se pode chamar de um homem de meia idade. Quarenta e cinco anos, moreno, de média estatura, olhos e cabelos castanhos escuros. No rosto, a barba grisalha, que eu quase sempre deixo por fazer, deve passar uma imagem de desleixo. Não ligo para isto; sinto-me o mais comum dos mortais. Por esta razão, tenho queimado minhas sinapses cerebrais na tentativa de descobrir a razão de os cientistas da USP terem escolhido o meu corpo, dentre tantos voluntários que haviam se oferecido como cobaias para o programa Acorde no Futuro.

Minha cicerone pareceu ler meus pensamentos:

– Nós, do Centro Biotecnológico Paulista, conseguimos enviar uma mensagem intertemporal para o professor Ramón Perez, chefe do departamento de criogenia da USP. Pedimos a ele que congelasse um homem comum e o enviasse ao nosso tempo. E... Deu certo! Precisávamos de um autêntico representante de sua época, Fernando, por isto ficamos muito felizes quando conseguimos transportá-lo. Você é um espécime perfeito para nossas necessidades! E não se preocupe, pois em breve poderá ser devolvido a seu século, caso assim deseje.

Um espécime? Não gostei da palavra utilizada por Andressa. Entrei em estado de sobreaviso.
Alerta amarelo, Fernando!

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– Vamos almoçar no Conjunto Nacional?

Ainda entorpecido por náuseas pós-reanimação e com certo mau humor, apontei para o prédio em questão e disparei:

– Aquilo não se parece nada com o Conjunto Nacional da minha época, Andressa. Não é a mesma construção, nem sequer se parece com ela. Será que ao menos tem comida de verdade em algum lugar ali?

– Muita coisa mudou nos últimos anos, Fernando, principalmente no quesito alimentar.

– Não há nenhum restaurante com apelo saudosista? Um lugar onde eu possa ver pessoas felizes e bronzeadas, mastigando com gosto um bom prato comercial, com bife no ponto e fritas?

Andressa sentiu-se desconfortável diante de meus questionamentos. Sua pele branca tornara-se quase rubra.

Ahn... À tarde, a Dra. Silveira irá explicar sobre os problemas com a alimentação nos dias atuais. Eu não tenho autorização para falar a respeito.

Ela procurou se livrar o mais rápido possível do assunto:

– Lembrei-me que na Velha Alameda Santos existe uma cantina que serve uma sopa de algas deliciosa!

– Sopa? Não deveria servir massas, ou então uma bela pizza?

– Ah, sim! Acho que eles ainda têm pizzas de siri e anchovas armazenadas no congelador!
– Pizzas congeladas? Numa cantina?

– Sim, a menos que você prefira alimentos sintetizados...

– Não há outros sabores? Eu tenho alergia a frutos do mar.

– Se você é alérgico a alimentos marinhos, terá que se contentar com a comida sintetizada.

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Depois do almoço, fomos até o estacionamento onde Andressa guardava seu veículo. Não consegui entender como aquele local minúsculo podia ser chamado de estacionamento. E o mais intrigante: onde diabos ficavam os veículos? Estávamos numa sala deserta, no último andar de um prédio na Peixoto Gomide. As únicas coisas que existiam ali, além de nós, eram pequenos compartimentos distribuídos ao longo das paredes. Parecia o vestiário de uma imensa fábrica, onde cada operário guardava suas roupas de trabalho em armários individuais.

Observei Andressa caminhar à minha frente. Vendo-a por trás, maravilhei-me ao notar que a natureza continuava fabricando mulheres de cintura fina e quadris largos. Em segundos, tive a confirmação de que o congelamento e a viagem temporal não afetaram meus estímulos sexuais.

– Obrigado, Deus! – murmurei, acreditando que a moça não me ouviria.

– Devo alertá-lo de que a primeira infestação tornou a audição dos habitantes de nossa época mais aguçada.

– Infestação? Que infestação?

– Estou falando demais. Faça estas perguntas à Dra. Silveira – dizendo isso, Andressa abriu o armário e retirou dele uma esfera com cerca de vinte centímetros de diâmetro. O objeto tinha uma consistência gelatinosa e cheirava a baunilha. A graciosa morena começou a brincar com aquilo, jogando a esfera para cima e pegando-a de volta, enquanto se divertia vendo meu semblante interrogativo. Com aquela bola esquisita nas mãos, ela arregalou os olhos e zombou:

– Aqui está carro do futuro. Mim ensina “homem das cavernas” pilotar!

Sorri com gosto. Era bom saber que os seres humanos, embora anêmicos, ainda tinham senso de humor.

Se é que eram mesmo humanos.

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A coisa funcionava por intermédio de comandos de voz. Bastou Andressa pronunciar a palavra acionar para que a esfera levitasse, desvencilhando-se de sua mão e pairando até cerca de dois metros adiante de nós. Em questão de segundos, operou-se a transformação: a geringonça começou a se expandir, delineando novos contornos. Um levimóvel foi moldado. Possuía formato ovoide e era transparente em sua parte superior, deixando ao piloto um amplo campo de visão.

Andressa aproximou-se do veículo e ordenou a ele: dois tripulantes. Pronto: dois assentos foram moldados dentro da massa gelatinosa, que em seguida planou até quase a altura do chão, abrindo suas duas únicas portas. Ela prosseguiu:

– Ligar computador e ativar piloto automático.

Seus belos olhos verdes dirigiram-se para mim. Eram grandes e começavam a me deixar hipnotizado:

– Vamos! – disse ela, acenando com a cabeça. – Você entra no lado do condutor e eu te digo como pilotar no modo manual.

– Esse treco aguenta nosso peso?

Ela sorriu, esticando os belos lábios carnudos. Em meu subconsciente, eu já a chamava de deusa do futuro.

– É claro que aguenta, Fernando. Entre!

Em poucos minutos, estávamos de volta ao lugar onde eu fora despertado da criogênese – o prédio do Centro Biotecnológico Paulista, conhecido simplesmente por CBP. Tratava-se de um dos prédios mais altos da região e estávamos em seu penúltimo andar. Olhar pelas janelas e ver os tais levimóveis em ação aumentava minha sensação de enjoo.

Finalmente, eu me vi diante da Dra. Silveira – a mulher com as explicações.

– Vou ser bem direta, Fernando. A infestação da qual a Andressa lhe falou não foi nada perto da segunda infestação. Um fungo infestou quase toda nossa cadeia alimentar. Apenas os alimentos provenientes dos mares não foram contaminados. A infestação afeta o cérebro das pessoas contaminadas e alguns outros órgãos vitais. Houve estranhas consequências em seus comportamentos. Os maculados, como os chamamos, tornaram-se agressivos e sedentos por carne humana. Quase toda a população mundial foi atingida. Há anos vivemos uma época pós-apocalíptica. Conseguimos reunir os poucos que não foram contaminados neste pequeno nicho entre a Bela Vista e os Jardins. Designamos esta fortaleza como fronteiras da sanidade. Aqui, nos alimentamos de comidas sintetizadas pelos computadores, ou então de frutos do mar congelados. Porém, os frutos do mar tornaram-se uma iguaria rara, pois ninguém tem coragem de se aventurar além da fortaleza que construímos para ir até as regiões litorâneas adquirir novos carregamentos.

–Você está me dizendo que estas pessoas se tornaram zumbis?

– De fato, acho que zumbis é um termo mais adequado do que maculados. Como eu lhe disse, quase toda a população mundial está sofrendo deste mal, mas aqui você está a salvo.

– As fronteiras da sanidade são invisíveis, mas protegidas por uma inteligência artificial muito avançada. – interveio Andressa.

Era como dormir e depois acordar dentro de um filme de horror. E o mais assustador: ficou claro que a minha presença ali tinha um motivo mórbido e talvez perigoso para mim. Afinal, eu era um espécime perfeito para... O quê? Fui tomado por uma espécie de pânico ao pensar no que eles poderiam estar planejando fazer comigo. Devo ter ficado quase tão pálido quanto as pessoas que me rodeavam.

– E por qual razão vocês me trouxeram aqui?

– A estrutura orgânica das pessoas de nossa época tem sofrido mutações em nível microscópico, motivadas pelo abuso de medicações antibacterianas. Algumas bactérias habitualmente presentes no intestino humano foram destruídas por completo ao longo dos séculos. Há algumas semanas, descobrimos que uma delas é capaz de produzir uma substância que elimina os fungos nocivos.

– E o que vocês precisam que eu faça para ajudá-los?

– Para falar o português claro, Fernando, precisamos que você tenha uma bela diarreia! E então separaremos as bactérias que procuramos e criaremos um ambiente adequado para que se multipliquem. Podemos fazer isto em poucas horas.

Melhor assim. Eu já estava imaginando passar por intervenções clínicas dolorosas, extrações de órgãos, mutilações ou algo semelhante.

******

Depois de tomar um líquido azulado e produzir, minutos depois, a “matéria-prima” que tanto desejavam, ouvi alguém gritar que a proteção que nos deixava a salvo dos zumbis fora penetrada. Um corre-corre iniciou-se dentro das instalações do Centro Biotecnológico Paulista.

Fui até as janelas do nosso andar e visualizei alguns levimóveis aproximando-se de maneira errante e a uma velocidade espantosa. A cabine transparente dos veículos permitia-me enxergar criaturas com feições demoníacas e repletas de feridas. Os veículos trazidos pelos zumbis impulsionavam-se contra aqueles manejados por pessoas saudáveis, causando seguidas colisões e algumas quedas, que felizmente eram amparadas pelo campo de força que Andressa mencionara.

Diante do caos que se instalara lá fora, pareceu-nos mais sensato permanecer nas dependências do chamado CBP enquanto a Dra. Silveira e sua equipe trabalhavam no antídoto. Ficamos com os olhos esbugalhados na frente das janelas por cerca de duas horas, assistindo ao espetáculo aterrador.

– Como estas criaturas conseguiram penetrar as fronteiras da sanidade? O que pode ter acontecido com a inteligência artificial que as coordena? – perguntou Andressa, que estava ao meu lado, a um senhor calvo, que parecia ser o mandachuva do lugar.

– Parece que a lesão cerebral sofrida pelos zumbis não afetou muito a inteligência deles. Encontraram uma maneira de desativar a matriz da inteligência artificial.

– As criaturas devem estar famintas. Ouvi dizer que precisam de carne fresca. E a carne fresca somos nós! – exclamou alguém às nossas costas, porém eu não vi quem era, pois não conseguia desviar os olhos da carnificina que se desenhava no cenário exterior.

Verifiquei que os zumbis, ao provocarem colisões, ora pulavam sobre os veículos das vítimas, ora se atiravam contra o campo de força. Olhei para baixo e vi que aquela rede invisível agora abrigava uma quantidade expressiva de veículos e de vítimas dos acidentes. Elas eram atacadas com ferocidade pelos zumbis. Pareciam falecer em razão das mordidas, mas ressuscitavam instantes depois. Maculadas pela infestação, tornavam-se também criaturas semivivas, tão famintas quanto seus agressores.

Andressa e eu notamos que a energia que impede o choque dos levimóveis contra nosso prédio (a tal proteção ondular) tornara-se instável, produzindo ondas energéticas de um verde quase transparente. Instantes depois, um veículo conduzido por dois zumbis adolescentes chocou-se com violência contra a parede, cerca de dois andares abaixo de nós.

– Para as ruas! – o mandachuva gritou. – O campo de força nos manterá a salvo!

Foi um Deus-nos-acuda. Um rapaz magricelo e com profundas olheiras nos entregou algumas pistolas-laser, dizendo-nos que, a partir daquele momento, seria cada um por si.

Andressa tremia. Peguei sua arma e tomei minha musa futurista nos braços, conduzindo-a até as escadas, pois havia uma disputa quase sangrenta por uma vaga nos elevadores. Após dois andares, ela me pediu para ser colocada no chão. Descemos juntos e de forma atabalhoada os vinte e sete andares restantes.

Conseguimos alcançar a calçada da Velha Paulista, num ponto onde antes se situava o Museu de Arte Moderna. Ela estava exausta e muito ofegante, então a peguei no colo novamente. Olhei na direção da antiga Rua da Consolação e vi que o campo de força estava cedendo naquela altura, ocasionando a queda de levimóveis, zumbis e pessoas ainda sãs. Ao nosso redor, as pessoas corriam de forma desenfreada. O cenário era caótico e eu só não amaldiçoei o momento em que decidira embarcar no projeto Acorde no Futuro porque estava desenvolvendo uma afeição muito especial pela garota que estava em meus braços.

Conduzi Andressa até um espaço livre de aglomerações. Lembrei-me de que, em minha época, naquele local situava-se o prédio de um Tribunal. Caminhei entre as pilastras que sustentavam o arranha-céu que o substituíra e encontrei uma porta aberta. Acomodei a bela Andressa em um nicho que me pareceu bem protegido. Entretanto, eu não podia simplesmente ficar ali e deixar que outras pessoas fossem devoradas. Estava munido de duas pistolas laser e, com elas, acreditava estar em condições de matar um bocado de zumbis. Quando eu me preparava para sair, Andressa segurou meu braço direito. Ela tirou de seu avental um aparelho azulado de formato semicircular, que possuía um pequeno botão branco na região central:

            – Fernando, utilize este potencializador de inércia. Ele pode fornecer a energia necessária para estabilizar o campo de força até que a Dra. Silveira conclua a fabricação do antídoto.

            – Como faremos para aplicar a vacina nesta quantidade cada vez maior de zumbis? – eu quis saber.

            – Não será uma vacina, homem das cavernas – brincou ela, com um tênue sorriso. – A Dra. está produzindo um gás que liberará as bactérias benéficas na atmosfera. Só espero que encontre alguém com coragem suficiente para conduzir um levimóvel entre os zumbis e espalhar o conteúdo do antídoto nesta região.

            Meu instinto heroico multiplicou-se naquele instante:

            – Eu posso fazer isto!

            – Não quero que você se arrisque. Eu estou...

            Não esperei que ela terminasse a frase. Corri com seu potencializador de inércia até a esquina da Velha Paulista com a antiga Consolação e comecei a disparar para cima, esperando que o aparelho fizesse o trabalho que Andressa acreditava que faria. Vi-me diante de imagens insólitas, com tropeços, encontrões e batalhas entre humanos e zumbis. Um cenário surreal, típico de um filme “B”, mas verdadeiro. Trêmulo e atrapalhado, atirei com as pistolas-laser nos zumbis que encontrei pelo caminho (errando a maioria dos alvos, para dizer a verdade) e voltei o mais rápido que pude, mantendo o potencializador acionado e direcionado ao alto até chegar de volta ao prédio do CBP. Respirei fundo, guardei o aparelho e fiquei com as duas pistolas-laser nas mãos, preparado para disparar de novo a qualquer momento.

Ao tentar me aproximar dos elevadores, tive que enfrentar alguns zumbis que se aglutinavam no saguão. Tinham as faces arroxeadas e os olhos esbugalhados. Gritavam em uníssono, de forma um tanto patética, a palavra “carne”. Senti-me paralisado por um momento diante da insanidade daquilo tudo, mas logo percebi que não tinha muito tempo para estas frescuras. Consegui desviar do primeiro grupo de maculados, porém duas outras criaturas surgiram antes que eu alcançasse a porta do elevador. Efetuei alguns disparos e corri para apertar o botão de subida. Embarquei o mais rápido que pude, desvencilhando-me às pressas dos zumbis que tentavam me morder. Lá dentro, pude recuperar parte do fôlego. Mas... Pela-mor-de-Deus, o que fora aquilo?

            A Dra. Silveira trabalhara rapidamente. Trombei com ela e seu antídoto ao desembarcar no vigésimo nono andar. Juntos, corremos até seu levimóvel. O estacionamento estava apenas um andar acima; entretanto, assim que chegamos lá fomos surpreendidos por um numeroso grupo de zumbis. Não tivemos tempo para acionar nossas pistolas laser e acabamos nos envolvendo em disputas corporais com aquelas coisas.

            – Modo de urgência! – gritou Silveira em dado momento. Num passe de mágica, a porta de seu armário se abriu e uma esfera gelatinosa apareceu diante de nós.

            – Dois tripulantes! – urrou ela. – Ligar computador e ativar piloto automático! – vociferou em seguida.

            Um zumbi corpulento imobilizou a Doutora por trás, pressionando suas costelas. Consegui acertá-lo com um cruzado de direita que o levou ao chão. Outros maculados se aproximaram e tentaram nos agarrar. Entre sopapos e empurrões desajeitados, conseguimos por fim nos desvencilhar daqueles infectados. Ufa!

Eu queria fazer tudo sozinho. Imaginava-me pilotando o levimóvel e ejetando o composto salvador pelos ares, todavia não podia negar que aquela mulher era mais gabaritada do que eu para conduzir o veículo. Aliás, admirei-me com a perícia que ela demonstrou ao desviar dos carros-zumbi que surgiram em nosso encalço. Sentindo meus batimentos cardíacos em ritmo frenético, vaporizei o produto na troposfera, utilizando o mecanismo que ela me forneceu. Aquele gás possuía a interessante propriedade de penetrar na massa gelatinosa que constituía os levimóveis, tornando inevitável que os zumbis o inalassem. Pouco depois, as criaturas começaram a se acalmar. Depois de alguns (porém longos) minutos, entraram numa espécie de sono profundo.

            – Acordarão completamente humanos em algumas horas – foi o que disse a Dra. Silveira. – Terão que ser hospitalizados em razão das dores e mutilações, mas ficarão bem em alguns dias.

            – "Bem", Doutora? – duvidei. – E em apenas alguns dias?

            – Ahn... razoavelmente bem. E... ok, talvez leve algumas semanas. Mas voltarão a ser humanos e poderão levar uma vida normal de novo, isso eu posso garantir.

            Não era muito fácil de acreditar, principalmente diante das mutilações que muitos tinham sofrido. E havia também a questão dos danos cerebrais... Como reverter aquilo? No entanto, acho que a Dra. Silveira merecia um crédito. Afinal, ela já provara ser muito competente. E... bem, estávamos no futuro, oras! A medicina por certo evoluíra um bocado!

            – E agora? Quais são os planos, Doutora?

            – Por enquanto, isso basta. Pouco antes de nos encontrarmos na entrada do elevador, recebi a informação de que a inteligência artificial foi reparada e já reativou a proteção invisível que guarnece as fronteiras da sanidade. Amanhã nos organizaremos em grupos para iniciarmos a pulverização no restante do mundo. Será um trabalho e tanto, mas conseguiremos.

            Eu sorri, sentindo-me parcialmente vitorioso. E logo me apressei em retornar para a Velha Paulista. O mais importante ainda estava por ser feito: eu precisava reencontrar minha linda biocientista.

Ao abrir a porta do prédio onde a deixara, alegrei-me ao ver que Andressa me esperava com um sorriso tímido em seus lábios carnudos. E minha felicidade tornou-se ainda maior quando ela completou a frase que eu interrompera minutos atrás:

            – Eu estou me apaixonando por você, Homem das Cavernas!

            – E eu por você, Deusa do Futuro! – gritei em resposta, todo atabalhoado, mas muito feliz. Estava exausto, mas não me faltou energia para um beijo apaixonado, daqueles que eu só tinha visto até então em filmes.

Quem diria... No século vinte e um, eu não passava de um Zé Ninguém. Sentia-me tão só e deprimido a ponto de ter me oferecido como cobaia em uma experiência de viagem temporal, sabendo que corria risco de vida. Porém, três séculos depois, conquisto uma linda namorada e torno-me um herói. Estou transbordando felicidade. Jamais me senti tão vivo.

Sei que estou sendo piegas, mas... vejam bem, eis aqui um fato que, ao menos para mim, hoje é inquestionável: há lugar para todos neste mundo.

No tempo e no espaço!